Excertos da seção "O Preste João e a reversibilidade simbólica"
O PRESTE JOÃO E A REVERSIBILIDADE SIMBÓLICA
QUESTÕES HISTORIOGRÁFICAS DA CARTA DO PRESTE JOÃO
Regressando ao âmbito deste estudo, algumas ilações devem ser enunciadas. A assinalada atitude de rejeição em relação ao conteúdo da Carta, tomada nas suas várias versões, deve ser entendida como um sub-produto da perspectiva que supõe, ou postula, que as fontes «representacionais» assinalam, mascarando, matérias «factuais». Esta postura, central na heurística histórica tradicional, e que impossibilita o distanciamento em relação ao falso problema da crença e da verdade, desarticulou-se parcialmente, na última década. Perdido algum fulgor positivista, os trabalhos mais recentes dedicados, no todo ou em parte, ao estudo da Carta do Preste João, tomam uma posição geralmente neutra face à problemática da sua «factualidade» documental (a busca do soberano «autêntico» e do «autor original»), preferindo centrar-se sobre o «mitismo» do texto (Albert, 1991; Delumeau, 1992:99-127), sobre o seu conteúdo literário (Gosman, 1982) e enciclopédico (Knefelkamp, 1986), sobre a temática da recepção do texto no ocidente medieval (Caire-Jabinet, 1980), ou o seu impacto na história das mentalidades no período dos descobrimentos (Knefelkamp, 1986; Medeiros, 1985).
A uma investigação sobre a gênese histórica e literária da Carta, veio substituir-se então uma atitude exploratória da sua natureza funcional (política e diplomática, cosmográfica, propagandística, etc.). Mas a pressuposição de crença do(s) autor(es) e leitores medievais da Carta, sendo agora como antes indemonstrável, é ainda uma retórica poderosa de modelamento das questões suscitadas pelo texto. Mais especificamente, a articulação interna da Carta é vista como inextrincável em relação a um suposto sistema fechado de crenças medievais europeias sobre o Oriente longínquo, na medida em que essa pressuposição de crença determina que, senão o «autor original», pelo menos os vários leitores até ao fim do século XV, deveriam acreditar mais ou menos cegamente no seu conteúdo. Parafraseando E. Leach, dir-se-ia que tal argumento, cuja função implícita serve uma declaração de descrença, informa menos sobre os leitores coevos da Carta que sobre os investigadores modernos que estudam esse texto e a sua recepção no período anterior ao século XV. Colocando o problema noutros termos: se o(s) autor(es) da(s) Carta(s) não crê(em) necessariamente no que escreve(m), que justificação haverá para supor, e com que intenção, que os seus leitores coevos acreditam? Aqueles que declaram não acreditar, são então aqueles para quem tal constitui problema.
É difícil, senão impossível, comprovar haver alguma necessidade de argumentar a favor da tese de uma suposta e obrigatória unicidade na recepção do texto da Carta, ou confirmar a hipótese da credulidade acrítica da parte de todos os seus leitores medievais, ou mesmo apenas daqueles que a veicularam, transcrevendo-a, reformulando-a, reescrevendo-a. Os problemas de interpretação de textos como a Carta, provocados por uma inludível impossibilidade de reconhecer adequadamente quais as intenções «verdadeiras» dos escritores, copistas, ou adaptadores, tem que ver com o seu duplo carácter de literatura de ficção e de documento enciclopédico. Documento de grande difusão, muito popularizado, a Carta pode ser vista como uma mistificação consciente que populariza um conjunto de informações sobre o mundo oriental, através do recurso estilístico ao gênero epistolar diplomático, ou como uma ornamentação fantasista de uma desaparecida Carta oriental original. Num caso como no outro, os ecos da sua recepção podem apenas ser inferidos através das fontes que documentam a propagação e a transformação do tema e da figura do Preste João até ao século XVII. Mas de nenhum modo, sem que se queira ser ofuscado pela retórica da Carta, se pode dar sequência heurística a premissas baseadas na credulidade dos leitores ou mesmo na credibilidade do texto. Tendo a «busca do verdadeiro Preste João» nascido de uma ficção epistolar, sob o signo do enigma mistificador, nunca se libertou realmente da retórica da descrença.
Valerá a pena enunciar resumidamente os parâmetros dessa retórica. Em primeiro lugar, como já foi referido anteriormente, a expressão de descrença em relação ao conteúdo da Carta é frequentemente complementada por uma pressuposição de crença, não verificável documentalmente, em relação à existência de uma figura histórica «real», de que o narrador, o Preste João, seria o reflexo «ficcional». Em segundo lugar, a descrença «moderna» no conteúdo da Carta é retoricamente legitimada pela suposição, ou pela crença, também inverificável, de que ela já foi, para os leitores «antigos», credível. Finalmente, a possibilidade de encontrar respostas às questões que a Carta supostamente coloca, assenta sempre sobre uma profissão de credulidade, senão quanto à sua mensagem interna, ou ao seu conteúdo topotésico, pelo menos em relação aos aspectos formais e estilísticos do documento (nas várias versões). A suposição de que a Carta é dupla ou triplamente falsa, e de que o seu conteúdo não é credível, não invalida a crença na sua natureza epistolar, e que, portanto, por mais corrompida que tenha sido, continuará sempre a ser uma carta, com remetente e destinatário específicos, escondidos sob os nomes de Preste João, de Manuel I Comeno, etc.
Não é, no entanto, heuristicamente possível determinar quais os limites externos («imperiais», «ocidentais», «europeus», «cristãos»?), e internos (quem lê, quem acredita, quem conserva ou reproduz? que classes, que grupos, que indivíduos?), que possam ter servido de quadro geopolítico-sociológico à esfera de influência, de interesse, ou de simples recepção dos conteúdos veiculados por textos como a Carta do Preste João. O impacto por eles produzido não pode ser senão muito tenuamente medido, através de exemplos raros que atestam a sua permanência temporal, a sua difusão geográfica, das transformações evidenciadas, etc.. Conclui-se então que, baseada no estudo deste tipo de textos e na suposição de os seus leitores medievais serem incapazes de descrer, qualquer modelização sobre um hipotético sistema medieval e renascentista de crenças cosmográficas, sociológicas, religiosas, etc., relativas ao mundo oriental, é evidentemente indutiva e fortemente questionável. Um estudo sobre as vertentes enciclopédica e simbólica das visões do mundo oriental pode assim, sem grande dificuldade e com algumas vantagens, prescindir de todas as pressuposições de imutabilidade, invariabilidade, sistematização, ou de partilha coletiva de qualquer conjunto de crenças relacionadas com essas visões do Oriente. É que, mesmo que tais pressuposições fossem em si aceitáveis, as dificuldades heurísticas mencionadas torná-las-iam necessariamente artificiosas.
Portanto, para uma consideração dinâmica das relações entre as versões da Carta, assim como da sua relação com outras fontes anteriores e posteriores que veiculam informações sobre o mundo oriental, parece imprescindível assumir que, neste contexto pelo menos, a questão da crença e da descrença é uma variável globalmente não necessária e que o conceito de sistema de crenças contém pressupostos inverificáveis. Como Michel Meyer nota, se um texto é escrito para dar uma resposta ao seu autor, é ao leitor que cabe fazer as perguntas adequadas (Meyer, 1992:3-7). Não se insinua aqui que a plêiade de investigadores da Carta não as fizeram. Mas muito frequentemente foram dadas respostas a perguntas que o texto não suscita. Como sempre aconteceu, desde o início da escrita, e da ficção escrita (Iser, 1978:34-36; 1989:263-265), não se propõe aqui mais que escrever o que se lê e esperar que o leitor, qualquer que ele seja, dê sentido ao texto.