Excertos da seção "O Preste João e a reversibilidade simbólica"
Problemas heurísticos: ler para crer
Uma tentativa de aferição do impacto da Carta do Preste João sobre os seus leitores medievais europeus serviria supostamente como meio para o estabelecimento de um quadro sistematizado de crenças sobre o mundo oriental — anteriores à sistematização das viagens de descobrimento geográfico. Essa tentativa é, no entanto, inválida e constitui mesmo um obstáculo à interpretação do texto, já que compreender as articulações da sua mensagem é dificilmente compatível com a proeminência atribuída correntemente, pelos investigadores, à questão da sua credibilidade.
Os mais de cem anos de estudos dedicados à Carta do Preste João, desde os trabalhos pioneiros de G. Oppert (1870) e F. Zarncke (1877, 1879)1 , testemunham como é difícil ao investigador não ficar ofuscado pela estratégia retórica desse texto. Aceite a premissa de que ela coloca ao leitor «atual» questões nebulosas sobre a sua origem histórico-geográfica, sobre a identidade do remetente-narrador, explicitamente referido como «Preste João, pela graça de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo senhor dos senhores (dominus dominantium)» (Lat:Ur, §.1), e do anônimo tradutor-autor, torna-se metodologicamente inevitável que estas questões sejam configuradas por uma constatação inicial de descrença, fundada originalmente nas conclusões enfáticas avançadas na literatura jesuítica sobre a Etiópia seiscentista, em relação ao conteúdo descritivo do texto e à designação do remetente como «Preste João, senhor dos senhores».
Assim, devido a uma obscura necessidade metodológica, cujos fundamentos se encontram na tradição das identificações «factuais» do Preste João e na longa história da interpretação textual da retórica epistolar da Carta, é imposta uma distinção radical entre autor (real, desconhecido e investigável) e narrador (fictício, conhecido e inimputável); ao mesmo tempo, é estabelecida uma diferenciação entre versões derivadas da Carta (que sobreviveram) e versão original (que não sobreviveu). A investigação passa então pelo crivo de um projeto especulativo complexo. Foi sendo progressivamente desenvolvido um modelo argumentativo de tipo circular para relacionar os exemplares sobreviventes e consultáveis da Carta com outros textos igualmente consultáveis e sobreviventes: em particular, as passagens da Crónica de Otao de Freising (Chronica, sive Historia de duabus Civitatibus, escrita entre 1143 e 1146), referentes à história de Hugo, bispo de Jabala, sobre um soberano nestoriano de nome Preste João, o Do advento (De adventu patriarchae indorum ad Urbem sub Calixto papa secundo), e a Carta de Odo de Rheims, abade de S. Remy, a um certo conde Thomas, onde é descrita a presença, na corte pontificial, de um patriarca cristão indiano chamado João, que narra a história dos milagres anuais da mão de S. Tomé numa igreja na capital da Índia, onde o seu corpo estaria guardado, e ainda os textos apócrifos sírios dos Atos de Tomé, o relato do viajante judeu Eldad ha-Dani, e a versão latina da História de Alexandre. De acordo com esse modelo argumentativo, os exemplares sobreviventes da Carta são considerados documentos ficcionais, elaborados a partir de uma versão original latina desaparecida, igualmente ficcional, que seria a tradução e deturpação de uma versão grega irreferenciável, ou simplesmente o eco de supostas missivas ou informações avulsas, totalmente desconhecidas, hipoteticamente originadas na corte de um soberano «autêntico» oriental.
Poder-se-ia evocar a imprescindibilidade de uma atitude de interpretação crítica das fontes literárias e documentais e um distanciamento em relação ao uso do que C. Lévi-Strauss designou como «traçados fraudulentos» sobre uma matriz descontinua e classificatória, «traçados» sem os quais não haveria possibilidade de constituição de um qualquer conhecimento histórico (de uma «pretensa continuidade histórica», Lévi-Strauss, 1962:345), para assim constatar a inutilidade das considerações presentes. Mas a consideração destes procedimentos supostamente analíticos permite possivelmente esclarecer alguns equívocos visíveis em relação ao mito do Preste João. É que a resistência heurística em aceitar a possibilidade de crer no conteúdo dos exemplares conhecidos da Carta, que define os parâmetros de investigação, é contradita pelos objetivos propostos para essa investigação: isto é, a «reconstrução» da Carta original «autêntica», a investigação sobre a identidade do soberano «autêntico», são consideradas vias legítimas para a elaboração de um conhecimento «exato» da lógica das relações internacionais, das condições da produção e consumo literários, ou da evolução da visão cosmográfica e cosmológica na Idade Média.
O preceito epistemológico condensado na expressão: «creio no que sei» (Wittgenstein, 1976: §177), que funda habitualmente a possibilidade de investigação analítica, é, no contexto particular dos estudos sobre a figura do Preste João, concebido, talvez falaciosamente, como o reverso positivo de um outro: «não creio no que não sei». E no entanto, dois exemplos poderão servir como inspiração para questionar a legitimidade da aplicação irrefletida de tais preceitos, no âmbito destes estudos, e rever a necessidade de aceitação da premissa histórica, mencionada acima, que subsume a natureza de enigma ou adivinha que é atribuída à Carta.
NOTAS: