Skip to main content
id da página: 855 IBN ARABI – SABEDORIA DOS PROFETAS – NO VERBO DE JOSÉ Ibn Arabi

Ibn Arabi Joseph



DA SABEDORIA DA LUMINOSA (al-hikmat an-nuriyah) NO VERBO DE JOSÉ

A sabedoria luminosa espalha sua luz na Presença imaginativa (hadrat al-khayal), e é aí o primeiro começo da inspiração (al-wahî) nos homens da Assistência divina [ou seja, nos enviados e nos profetas]. 'Aisha [a mulher do Profeta] — que Deus esteja satisfeito dela — disse: «O primeiro indício da inspiração divina no Enviado de Deus foi o sonho verídico; desde então, todo sonho que ele teve se provou como o dia que se levanta, nada nele era obscuro»; e esse estado, acrescentou ela, durou seis meses; depois veio o Anjo [que lhe revelou o Corão]. É aí tudo o que ela compreendeu por sua ciência; ela não sabia que o Enviado de Deus havia dito: «As pessoas dormem, e quando morrem elas acordam», e que tudo o que ele viu no estado de vigília era dessa natureza, apesar da diferença dos estados [de sonho e de vigília]. Ela falava de seis meses; mas na realidade, toda a existência terrestre do Profeta se passou assim, como um sonho em um sonho. Ora tudo o que se revela dessa maneira constitui o mundo imaginativo ('alam al-khayal); e é por isso que há o simbolismo: a realidade (al-amr) que possui em si mesma tal «forma» aparece sob uma outra forma; e o intérprete opera por sua vez uma transposição da forma percebida pelo sonhador para a «forma» própria da realidade implicada, — a supor que ele a adivinhe; assim, por exemplo, o conhecimento se manifesta sob a aparência do leite; pois segundo o que se relatou, o Profeta considerava o leite como o símbolo do conhecimento.

Quando o Profeta recebia a inspiração divina, ele se tornava inconsciente do mundo sensível ordinário; cobria-se-o [de um tecido], e [seu espírito] se ausentava daqueles que estavam presentes; depois, quando isso cessava, ele voltava a este mundo. Ele recebia, pois, a inspiração divina na Presença imaginativa, sem que se pudesse dizer dele que ele dormia. Do mesmo modo, quando o Anjo lhe apareceu sob a forma de um homem, essa aparição pertencia igualmente à Presença imaginativa, pois não havia na realidade homem mas um anjo revestido de forma humana, e o espectador que possuía o conhecimento passava além dessa forma até a perceber a «forma» real. Assim, o Profeta disse [de um misterioso estrangeiro, que havia vindo questioná-lo diante de seus companheiros]: «Era Gabriel que veio para lhes ensinar sua religião»; por outro lado, ele havia dito: «Respondam à saudação desse homem!» Ele o chamou de «homem» por causa de sua forma aparente, depois ele disse dele: «Era Gabriel», transpondo a forma desse homem imaginário para seu original; ele dizia a verdade em um caso como no outro, pois a aparição era visualmente verdadeira e era verdadeiramente Gabriel.

José — que a paz esteja sobre ele! — disse [a seu pai]: «Eu vi onze estrelas com o sol e a lua se prostrarem diante de mim»; ele havia visto seus irmãos sob a forma de estrelas e seu pai e sua madrasta sob as formas do sol e da lua; é assim que eles apareceram do ponto de vista de José; pois se a aparição tivesse sido real do ponto de vista das pessoas aparecendo sob a forma de estrelas, do sol e da lua, teria sido preciso que ela fosse voluntária do lado delas; mas uma vez que eles não tinham consciência disso, a visão de José não teve lugar senão no único domínio de sua imaginação; é por isso que seu pai Jacó — sobre ele a paz! — lhe disse, quando José lhe contou sua visão «Ó meu filho, não conte sua visão a seus irmãos para que eles não usem de astúcia contra você...»; depois, absolvendo seus filhos dessa astúcia, ele a relatou a Satanás — que não é outra coisa senão a essência mesma da astúcia — dizendo: «Em verdade, Satanás é o inimigo declarado do homem.» Em seguida, no fim da história, José disse [ao receber seus pais e seus irmãos no Egito]: «Isto é a interpretação de meu sonho de outrora, que meu Senhor tornou real», ou seja: que ele manifestou na ordem sensível depois que ele apareceu sob forma imaginativa. Ora, a isso o Profeta lhe responde: «As pessoas dormem [e quando morrem elas se acordam]...» José falou, pois, como alguém que sonha que acaba de se acordar de um sonho e que o interpreta sem ser consciente que se encontra ele mesmo ainda em sonho, de modo que ele dirá em seguida, quando se acordar de verdade: eu sonhei tal e tal coisa, depois, crendo me acordar, eu sonhei que eu interpretava meu sonho de tal maneira... É o análogo do que diz José; note, pois, a diferença entre a compreensão de Maomé e a de José, quando este disse, no fim de sua aventura: «Isto é a interpretação de meu sonho de outrora que meu Senhor tornou real...» ou seja sensível; ora, ele havia sempre sido sensível, pois a imaginação não concerne senão objetos sensíveis e nada mais. Veja, pois, quão excelente são o conhecimento e o nível de Maomé!

Eu diria ainda mais sobre a Presença [imaginativa] segundo o espírito de José — sobre ele a Paz! — concebido no espírito maometano, assim como se verá dentro em pouco, se Deus quiser. Saiba que a realidade supostamente não-divina, a saber o mundo, se relaciona com Deus como a sombra com a pessoa. O mundo é, pois, a sombra de Deus; é aí propriamente a maneira pela qual o Ser (al-wujud) se atribui ao mundo; pois a sombra existe incontestavelmente na ordem sensível, com a condição, todavia, que haja alguma coisa sobre o que essa sombra se projeta; de modo que, se se pudesse tirar todo suporte da sombra, ela não seria mais sensivelmente existente, mas somente inteligível; ou seja, ela seria potencialmente contida na pessoa da qual ela depende. O lugar de manifestação dessa sombra divina que se chama o mundo é as essências permanentes (a'yan) das possibilidades (mumkinat); é sobre elas que a sombra se projeta. A sombra é conhecida na medida em que o Ser divino projeta [Sua sombra] sobre essas essências permanentes das possibilidades, e é pelo Nome divino A Luz (an-nur) que a percepção da sombra tem lugar. A sombra que se projeta sobre as essências imutáveis das possibilidades é «à imagem» do Mistério desconhecido; não se vê que as sombras tendem para o negro, o que indica o caráter insondável que lhes é próprio segundo uma certa correspondência entre a sombra e a pessoa que a projeta? Mesmo se a pessoa é branca, sua sombra é tal [como acabo de dizer]. Não se vê que as montanhas muito afastadas do espectador lhe aparecem sombrias, apenas pelo afastamento, a despeito da cor que lhes é própria? ou bem, que o céu aparece azul? Tudo isso não é senão o efeito do afastamento sobre os corpos não luminosos. Do mesmo modo as essências das possibilidades não são luminosas, uma vez que são não existentes; elas são imutáveis, mas elas não são qualificadas do ser ou da existência pois o ser é luz. Quanto aos corpos luminosos, o afastamento espacial os faz aparecer menores; de modo que o olho vê os astros como corpos muito pequenos, ainda que eles sejam imensamente grandes na realidade; assim por exemplo, sabe-se por provas que o sol é de um volume 166 vezes e um quarto e um oitavo maior que o volume da terra, enquanto ele aparece ao olho da grandeza de um escudo aproximadamente; é aí um outro efeito do afastamento [análogo à natureza ao mesmo tempo existente e inexistente da sombra].

Não se conhece o mundo senão na medida em que se pode conhecer as sombras; e se ignora Deus na medida em que se ignora a pessoa da qual depende essa sombra [que é o mundo]; enquanto Ele tem uma sombra, Ele é conhecido; e enquanto se ignora o que essa sombra oculta da «forma» da pessoa que a projeta, se ignora Deus — exaltado seja Ele! — Donde se dirá que Deus é conhecido sob um certo relatório, e que Ele é desconhecido sob um outro relatório. — «Não vê o seu Senhor, como Ele projeta a sombra? Se Ele quisesse, Ele a tornaria permanente...» ou seja potencial n'Ele mesmo; é como se Ele dissesse: Deus não Se revelou às possibilidades antes que Ele tenha projetado Sua sombra, de modo que era delas o que permanece sempre verdadeiro [em princípio] para elas, a saber que elas não aparecem como tais na existência; «... Depois Nós fizemos do sol o que a demonstra [a saber a sombra]...»; é ele o Nome divino A Luz (an-nur) do qual se falava, e é o que se prova na ordem visual, pois as sombras não existem na ausência da luz; «... Depois Nós a retraímos para Nós de uma fácil tomada»; Deus retrai a sombra para Ele, porque ela se manifesta d'Ele e que «toda realidade retorna para Ele». Ela é, pois, Ele, e ela é outra-que-Ele — exaltado seja Ele! Tudo o que se percebe não é senão o Ser de Deus nas essências permanentes das possibilidades; enquanto a ipseidade (huwiyah) [do que se vê] é Deus, é Ele que é o ser, e enquanto há diferenciação das formas, são as essências das possibilidades; assim como ele permanece sempre «sombra», em virtude da diferenciação das formas, ele permanece sempre, por essa mesma diferenciação, «mundo» ou «outro-que-Deus». Por sua unidade existencial, a sombra é Deus mesmo, pois Deus é o Único (al-wahid), o Um (al-ahad); e sob o relatório da multiplicidade das formas sensíveis, ela é o mundo; — compreenda, pois, e realize o que se explica! — Uma vez que a realidade é tal como se acaba de dizer, o mundo é ilusório (muta-wahham), ele não tem existência verdadeira; e é o que se entende pela imaginação [englobando o mundo inteiro]: ou seja que se imagina que [o mundo] é uma realidade autônoma, separada de Deus e sobre-acrescentada, enquanto nada disso é em si. Não se vê que na ordem sensível a sombra é ligada à pessoa da qual ela se projeta e que é impossível que ela se dela se desprenda? Pois é inconcebível que uma coisa se separe de sua própria essência (dhat). Reconheça, pois, sua própria essência ('ayn), quem você é, o que é sua ipseidade, qual é sua relação com Deus — exaltado seja Ele! — por que você é Deus e por que você é «mundo» ou o «outro», ou o que corresponde a essas expressões, — pois tal é sua natureza. É a respeito disto [a saber desse conhecimento de si mesmo] que os sábios são superiores uns aos outros.

Deus está em Sua relação com uma sombra particular, pequena ou grande e mais ou menos pura, como a luz em relação a um filtro de vidro colorido que tinja a luz de sua própria cor, enquanto ela é incolor em si mesma; é assim que se vê a Luz divina; e é aí o símbolo de sua realidade em relação a seu Senhor. Ora, se se diz ao Vê-lo: «É uma luz verde», porque o filtro é verde, se terá razão, assim como prova a experiência visual; mas se se diz que Ele não é verde e que Ele não tem cor [em Si mesmo], como prova o raciocínio, se dirá a verdade, e o argumento [tirado da experiência sensível] a confirmará.

É assim que a luz se projeta através da sombra, que não é outra coisa senão o filtro, e que é luminosa por sua transparência. Tal é também o homem tendo realizado Deus: a «forma» de Deus se manifesta nele mais diretamente que ela não se manifesta em outros. Pois existe entre nós alguém para quem Deus é seu ouvido, sua vista, suas faculdades e seus órgãos, segundo os sinais que o Profeta deu em sua mensagem proveniente de Deus; e apesar disso, a determinação da sombra subsiste, uma vez que o pronome possessivo do ouvido [e das outras faculdades] se relaciona com ela [segundo a mensagem sagrada: «...Eu serei seu ouvido pelo qual ele ouve, sua vista pela qual ele vê, etc.»]. Os outros servidores de Deus não são assim; o servidor de que se trata tem uma relação mais imediata com o Ser de Deus que os outros não têm.

Ora, como a Realidade é tal como se afirmava, saiba que você é imaginação e que tudo o que você percebe, e que você designa como «não-eu» é imaginação; pois toda a existência é imaginação em imaginação [ou seja uma imaginação «subjetiva» ou microcósmica em uma imaginação «objetiva», coletiva ou macrocósmica]; enquanto que o Ser verdadeiro é Deus somente e exclusivamente, sob o relatório de Sua Essência (dhat) e de Sua determinação essencial ('ayn), não sob o relatório de Seus nomes, pois Seus nomes têm uma dupla significação: por um lado eles comportam uma significação única, a saber a determinação essencial de Deus, que é o «nomeado», e por outro lado suas significações fazem com que cada Nome se distinga dos outros, O Perdoador do Aparentemente, O Aparentemente do Interior, e assim por diante; ora, qual é, pois, o relatório de um Nome para o outro? pois se terá compreendido que cada Nome é a determinação essencial de cada outro; enquanto um Nome é a determinação essencial do outro, ele é Deus, e enquanto ele difere dele, ele é o Deus «imaginário», assim como se expôs. Exaltado seja Aquele que não é demonstrado senão por Ele mesmo e que não subsiste senão por Sua própria essência imutável! Não há na existência senão o que designa a Unidade; e não há na imaginação senão o que designa a multiplicidade. Logo, quem se atém à multiplicidade, está no mundo, com os Nomes divinos e com os nomes do mundo; e quem se atém à Unidade, está com Deus sob o relatório de Sua Essência «independente dos mundos». Se a Essência é «independente dos mundos», é preciso que Deus seja essencialmente independente das «relações nominais, pois os Nomes não designam somente a Essência, eles designam ao mesmo tempo outras realidades, que definem a manifestação. «Diga: Ele, Deus, é um (ahad)» — em Sua Essência — «Deus é absoluto» — o independente do qual tudo depende, — «Ele não engendra» — nem em Sua aseidade, nem em Sua relação com nós [ou seja com nossa não-existência principial], — «e Ele não é engendrado», — sob o mesmo relatório — «e não há nada que seja semelhante a Ele», — sob esse relatório. É aí Sua qualidade própria; por Sua palavra: «Diga: Ele, Deus é um...» Ele abstrai Sua Essência de toda multiplicidade; por outro lado, esta se manifesta em virtude dos atributos divinos bem conhecidos. Somos nós que engendramos e que somos engendrados, e somos nós que dependemos d'Ele — exaltado seja Ele! —; também somos semelhantes uns aos outros, enquanto que o Único, o Transcendente é independente a respeito desses atributos como Ele é independente de nós. Não há outra descrição adequada de Deus senão esta sura, a sura da Pureza (al-ikhlas), e é como tal que ela foi revelada [ou seja como resposta à questão dos judeus: «Descreva-nos seu Senhor, como Ele é!»].

A Unidade de Deus que se revela sob o relatório dos Nomes divinos postulando nossa existência é a unidade do múltiplo (ahadiyat al-kuthrah), e a Unidade de Deus pela qual Ele é independente de nós e dos Nomes é a Unidade essencial; uma e outra são compreendidas no Nome O Um (al-ahad).

Saiba, pois, que se Deus manifestou as sombras, e que ele as fez «se prostrarem e se inclinarem para a direita e para a esquerda» [«Não observam eles toda coisa que Deus criou, como sua sombra se inclina para a direita e para a esquerda, prostrando-se diante de Deus...», é que ele quis lhe dar sinais a respeito de você mesmo e d'Ele mesmo, para que você conheça quem você é, qual é sua relação com Ele e Sua relação com você, a fim de que você saiba por que ou em virtude de qual realidade divina o que é «outro que Deus» é qualificado de completa indigência (faqr) para com Deus como também de indigência relativa, ou seja de uma mútua dependência de suas próprias partes, e para que você saiba por que e em virtude de qual realidade essencial Deus Se qualifica de independência a respeito dos homens e de independência a respeito dos mundos, enquanto que o mundo é qualificado de independência relativa, ou seja que cada uma de suas partes é em um certo sentido independente da outra, como ela é também, segundo um sentido diferente deste, dependente da outra; pois o mundo depende incontestavelmente de causas, sua causa suprema sendo sua causalidade divina; e não há outra causalidade divina da qual dependeria o mundo senão os Nomes divinos; o mundo depende de cada um dos Nomes divinos, ao mesmo tempo em virtude do que é análogo a tal Nome no mundo, e porque todo Nome é compreendido na determinação essencial de Deus, pois ele é Deus e nada mais. Por isso Ele disse: «Vocês são os indigentes (fuqara) para com Deus, e é Ele, Deus, o Rico, o Glorioso.» Por outro lado, é evidente que dependemos uns dos outros.

Nossos próprios «nomes» não são na realidade senão Nomes divinos, uma vez que tudo depende d'Ele. Quanto a nossas próprias essências (a'yan), elas são na realidade Sua «sombra», nada mais. Pois Ele é nossa ipseidade, como Ele não é nossa ipseidade. — Eis, acabamos de lhe preparar o caminho!