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id da página: 10082 Christian Jambet – O fim de toda coisa Molla Sadra

Jambet Sadra Fim

Christian Jambet – O fim de toda coisa


JAMBET, Christian. La Fin de toute chose : Apocalypse coranique et philosophie suivi de l’Epître du rassemblement de Mullâ Sadrâ. S.l.: Albin Michel, 2017

  • Estrutura e conteúdo d’A Epístola do Reagrupamento (Risālat al-Hashr) de Mullā Ṣadrā

    • Caracterização formal da epístola como tratado composto por oito seções (fuṣūl) precedidas de invocações a Deus, ao Profeta Maomé e aos imames.
    • Objetivo central de Mullā Ṣadrā: demonstrar que o fim de todas as coisas existentes é também o início da ressurreição ou do retorno a um modo de ser superior.
    • Relação com a obra magna de Mullā Ṣadrā, Asfār (Os Viajantes), especificamente com a seção que trata do reagrupamento da totalidade dos existentes em Deus.
    • Definição filosófica do termo al-hashr (reagrupamento) como sinônimo de retorno, unificação e assimilação, num processo universal que transforma todos os existentes.
    • A epístola como exercício de exegese filosófica e mística das revelações divinas sobre os fins últimos.
  • A ciência do retorno a Deus (‘Ilm al-Ma‘ād)

    • Pressuposto das exegeses corânicas de Mullā Ṣadrā sobre os fins últimos e seu sentido escatológico único.
    • Caracterização da apocalíptica corânica: sua ubiquidade no texto, seu caráter hegemônico e sua função de orientar a revelação para a vida última.
    • Esquematização das etapas dos eventos escatológicos: aniquilação, ressurreição, reagrupamento, Juízo Final e separação entre paradiso e inferno, sob o símbolo da Hora (al-Sā‘a).
    • Interpretação de Mullā Ṣadrā da Hora como verdade imanente aos graus do ser, destituída de duração temporal, integrando a escatologia no processo metafísico da realidade.
    • Definição do termo corânico al-ma‘ād (retorno) como o evento da resurreção e o processo de retorno dos corpos, almas e intelectos a Deus no "mundo da ressurreição".
    • A ciência do retorno como conhecimento do mundo invisível (‘ālam al-ghayb), projetando o futuro no inteligível e o presente no sensível.
    • Distinção simétrica entre a ciência do retorno e a ciência da origem (‘ilm al-mabda’), requerendo a revelação e a inspiração dos imames.
    • Classificação da ciência do retorno em domínios do retorno espiritual e do retorno corporal, unificados por Mullā Ṣadrā num único saber escatológico.
    • A salvação espiritual como verdadeira felicidade e libertação da alma humana através da unificação com o Intelecto Agente, considerado por Mullā Ṣadrā como o Intelecto universal.
    • Controvérsia com os filósofos avicennianos (falāsifa) sobre a natureza da conjunção ou unificação entre o intelecto humano e o Intelecto Agente.
    • A ressurreição corporal como objeto de exegese dos símbolos corânicos e dos ensinamentos dos imames sobre o outro mundo, abandonando assimilações ao sensível.
    • Distinção e hierarquização entre a ressurreição menor (a partir da morte física) e a ressurreição maior (no Dia do Juízo).
    • Interpretação dos símbolos escatológicos como a Hora, o duplo sopro na trombeta, a via, a conta, a balança, o paraíso e o inferno.
    • A exegese do paraíso e do inferno reconduzindo aos fundamentos da imamologia mística e ao partidamento escatológico entre fiéis e inimigos dos imames.
  • As significações scripturárias do reagrupamento

    • O reagrupamento (al-hashr) como reunião do gênero humano no Dia do Juízo: análise do uso corânico dos derivados da raiz <ḥ-sh-r>.
    • Significação escatológica predominante: o Dia do Reagrupamento como cenário judiciário de condenação dos incrédulos, associado a outros eventos apocalípticos.
    • Deus como agente soberano do reagrupamento, atestando Sua ciência, sabedoria e poder.
    • O reagrupamento dos injustos como cenografia da revelação final do erro cristológico, segundo uma leitura shī‘ita.
    • O reagrupamento no espaço semântico da conduta e da guia: sanção ao aceitação da orientação divina ou à cegueira que a negligencia.
    • A descrição corânica do reagrupamento como cenário judiciário de rafa e condenação, assimilado à justiça divina.
    • Transformação do cenário judiciário do Alcorão por Mullā Ṣadrā num processo de depuração das formas e restauração dos seres, substituindo a condenação pela purificação.
    • Universalidade do reagrupamento atestada no Alcorão, estendendo-se a jinns, demônios e animais, fundamentando a concepção universalista de Mullā Ṣadrā.
    • O modelo político-militar do reagrupamento, como no caso dos exércitos de Salomão, implicando a noção de boa ordem gradual.
    • O reagrupamento como metáfora da ressurreição universal, testemunhando o poder e a sabedoria de Deus.
    • A coincidência dos temas da origem, do fim do mundo e da apocalíptica, tornando plurívoco o sentido do reagrupamento.
  • A exegese filosófica do retorno

    • Postulados da exegese de Mullā Ṣadrā: o sentido oculto do reagrupamento é a ressurreição em sua dimensão esotérica, elucidada pelo conhecimento espiritual de fontes neoplatônicas.
    • A ressurreição pessoal
      • Justificação da ressurreição pessoal com base num ḥadīth que fala da ressurreição dos homens de modos diversificados, na linha de al-Ghazālī.
      • Exposição da concepção: a matéria única se diversifica segundo as formas adquiridas pelas almas através de seus hábitos e moralidades.
      • O partidamento escatológico revela diversos tipos de humanidade, distintos em seu ser conforme seu agir.
      • Cada vivente ressuscita reunido com a forma interior de sua alma, que se torna a matéria para uma forma corporal exterior no corpo de ressurreição.
    • O reagrupamento universal
      • Conceito do reagrupamento universal como representação do grandioso retorno da criação a Deus, segundo o esquema neoplatônico de processão e conversão.
      • Integração dos problemas escatológicos islâmicos (retorno espiritual e retorno corporal) ao modelo neoplatônico, resultando em deslocamentos de significado.
      • Interpretação dos eventos do Dia do Juízo ordenada pela prioridade metafísica da causa final.
    • O sentido moral da ressurreição
      • O Dia do Juízo como momento de alcance do objetivo das práticas e do desejo, onde cada um ressuscita segundo a forma de seu desejo.
      • Transformação do evento profetizado numa prova moral equivalente a um exercício espiritual de inspiração estoica.
      • A finalidade dos exercícios como extinção do eu (fanā’), análoga à apatia do sábio estoico.
      • A ética escatológica: as ações conduzem a formas interiores bestiais, satânicas, boas ou angélicas, reveladas na vida última.
      • O hábito (malaka) como causa de uma modificação substancial da alma, determinando sua forma interior escatológica, numa concepção com ecos estoicos.
      • A revelação escatológica dos hábitos da alma como um exame de consciência definitivo na presença de Deus.
      • O sábio como aquele que antecipa estes eventos através do autoexame.
    • Do reagrupamento restrito ao reagrupamento universal
      • Doutrina das três "nascimentos" do homem, correspondentes a três mundos e três faculdades de conhecimento: sensível, imaginativo e intelectivo.
      • Relação da concepção de Mullā Ṣadrā com a exposta por Ibn ‘Arabī nas Revelações Mequenses sobre a transformação contínua do eleito no paraíso.
      • Passagem da potencialidade à disposição e à perfeição em cada faculdade, determinando o desejo pelo mundo correspondente.
      • O sofrimento daquele apegado aos desejos materiais na vida última, revelando a inanidade de seu objeto de desejo.
      • A vida de esperança, governada pela alma e pela faculdade imaginativa, correspondendo ao mundo imaginal e às recompensas paradisíacas.
      • A vida intelectiva como grau superior, além do mundo imaginal, acessível aos gnósticos, não aos devotos ignorantes.
      • A objeção do círculo vicioso entre desejo de Deus e ciência de Deus, respondida com a hierarquização dos graus do conhecimento.
      • A perfeição conquistada pela vida intelectiva situada na unificação e extinção do eu (fanā’ fī l-tawḥīd), além do inteligível.
  • Aniquilação e restauração

    • O retorno como conceito simétrico à origem: todo existente possui uma origem (mabda’) e um retorno (ma‘ād), sendo o movimento de descida simétrico ao de conversão.
    • Aplicação do esquema neoplatônico triádico: processão (ṣudūr), permanência (ḥuḍūr) e conversão (ṣu‘ūd), inseparáveis na unidade do começo e do reagrupamento.
    • A intenção filosófica de Mullā Ṣadrā: afirmar a presença intemporal do Real divino em todo movimento, onde a processão é indissociável da conversão.
    • A epístola como descrição do movimento de retorno universal ao Ser único, onde todo existente está na unidade do Ser, contrariando um panenteísmo.
    • A restauração (apocatastase) como aniquilação completa das identidades singulares dos seres restaurados nos Intellectos.
    • Identificação do paraíso primeiro com um não-ser superior, sendo a "queda" a entrada numa existência determinada.
    • O retorno das almas intelectivas ao paraíso como retorno a um não-ser secundário, coincidindo permanência (baqā’) e aniquilamento (fanā’).
    • Comentário sobre a "palavra verídica" da morte de todos os existentes por Deus: a morte como doação de existência e perfeccionamento.
    • Hierarquização das três ressurreições: menor (para o mundo imaginal), maior (para o mundo inteligível) e suprema (aniquilamento no Real divino).
    • Paralelismo entre a experiência humana (damnados, bem-aventurados, gnósticos) e o destino universal (males, almas, Intelectos).
    • A ressurreição suprema como parusia da Face de Deus, aniquilamento das finitudes e divinização das realidades inteligíveis, sem salvar o que é mau.
    • Fonte potencial da doutrina em Naṣīr al-Dīn Ṭūsī: o retorno como extinção na unidade (fanā’ dar tawḥīd), simbolizado pelo Dia da ressurreição.
    • Polissemia do termo "ressurreição" (al-qiyāma) em Mullā Ṣadrā: aplicável à morte individual, ao Dia do Juízo e ao aniquilamento do todo.
    • Esquema completo da restauração universal: retorno dos mundos inteligível, psíquico, celeste, dos corpos corruptíveis e da matéria prima.
    • Fonte de inspiração para as três ressurreições em Dāwūd al-Qayṣarī.
    • Explicação do "Dia determinado" do reagrupamento como uma simultaneidade não temporal, ilustrada por um modelo matemático dinâmico do movimento de uma esfera.
    • A ressurreição como restauração da ordem originária, "o retorno da coisa ao estado do qual saiu".
  • A unificação das existências

    • O esquema reunificador pressupõe a doutrina sadriana da prioridade da existência sobre as quididades.
    • Crítica de Mullā Ṣadrā aos filósofos que consideram a quididade como a realidade da coisa, tornando inconcebível a unificação dos existentes em Deus.
    • A analogia do Ser como um círculo único e contínuo, cujos arcos são a descida e a ascensão, entre o Princípio mais elevado e a matéria primeira.
    • A existência como única realidade absoluta, sendo as quididades determinações finitas e vestígios de potencialidade e irrealidade relativa.
    • O retorno como unificação progressiva dos existentes menos dotados de unidade até sua intensificação e aniquilamento na unidade divina.
    • A restauração como desvelamento e dissipação das ilusões nascidas da diversidade das quididades, e salvação das singularidades monádicas autênticas.
    • O sentido da ressurreição como doação da unidade ao múltiplo, da simplicidade ao complexo, da necessidade ao não-necessário.
    • Esquema do retorno na epístola: demonstração da anterioridade ontológica do ato sobre a potência, reconstruída pelo modelo neoplatônico dos três graus do ser.
    • Cada grau de ser (sensível, psíquico/imaginal, inteligível) é forma do inferior e matéria do superior, sendo o interior do grau precedente.
    • As três etapas do movimento substancial de perfeccionamento correspondem às três ressurreições (menor, maior, suprema).
    • O processo total do retorno é unificação desde a matéria primeira até a unidade absoluta de Deus, impulsionado pelo Princípio como agente e fim.
    • A concepção de Mullā Ṣadrā como desdobramento da intuição de que o movimento da vida é um perfeccionamento da própria substância.
    • O Homem perfeito como face revelada do Intelecto, cuja unificação com a essência divina constitui a perfeição última de todas as coisas.