Biografia e Bibliografia
Excertos de Julián Marías — O TEMA DO HOMEM
Uma das figuras mais completas do homem humanista foi a do espanhol Luis Vives, nascido em Valência naquele ano de 1492, via;ante perpétuo pela Europa, morto em Bruges em 1540. Amigo de Erasmo, de Thomas Morus, de João Fisher, de Guilherme Budé, conselheiro dos reis da Inglaterra, obstinadamente expatriado e, no entanto, tão profundamente espanhol, Vives representa um modo de ser humano, pessoal e histórico, de vivo interesse. Tem-se pretendido exagerar seu alcance filosófico, esquecendo-se que foi um humanista, isto é, um homem que pertenceu a um grupo e a uma época em que não era possível fazer seriamente uma filosofia de altos voos. Ao reduzir, porém, a seus justos limites a figura intelectual de Vives, não se a diminui, e permanece assim mesmo insubstituível no panorama mental de seu tempo e mais ainda dentro do repertório das possibilidades espanholas. Foi talvez uma infelicidade que Vives escrevesse em latim, o que, embora haja posto sua obra em ampla circulação por toda a "Europa pensante", diminuiu sua influência profunda e penetrante na Espanha, ao longo do tempo. Sua atitude ante as coisas é de uma precisão e uma clareza que teria sido bom ter mais a mão e trazer mais amiúde à memória. Podemos imaginar que esplêndido século XVI teria florescido entre nós se a suas outras dimensões se houvesse acrescentado o olhar humano, perspicaz e compreensivo de Luis Vives.
Encontra-se na obra de Vives um profundo interesse pela vida humana, enquanto tal; talvez por haver atendido à sua com atenção e apuro do bom tempo renascentista. Talvez esteja o mais valioso desta época no fato de nela começar-se a viver com maior esmero, com clareza mais inteligente que em outros séculos. Bem sabemos à custa de que perdas indubitáveis; isto porém não diminui em nada a verdade dessa elevação no tom da vida dos homens. Esta atitude de Vives levou-o a escrever o magnífico livro De anima et vita, ao qual pertencem as páginas que se inserem a seguir. Não se trata de uma obra filosófica profunda e original; o que mais nela se encontra são agudas adivinhações de grandes ideias que, depois, fora de seus limites, terão uma esplêndida realização; não obstante, é um livro preciso, claro, imediato, pensado diretamente sobre a realidade, e, sobretudo, movido por um íntimo empenho de esclarecer as coisas. É um documento de valor histórico excepcional, em que aparece um homem, produto maduro de um milênio de cristandade europeia, tendo na mão um velho livro clássico, a olhar à sua volta maravilhado com olhos curiosos e serenos, e detendo-se a pensar, com dissimulada ansiedade, em sua própria íntima realidade humana.
Por isto, quando Vives toca — insistentemente — a grande questão da imortalidade pessoal, animam-se suas páginas com estranho fogo e encontram inflexões que seu longínquo compatriota Unamuno não desdenharia. Em certa passagem, Vives apanha com acerto genial a emoção humanista, do "homem de ciência", ávido de conhecer, que investigou a realidade inteira, desde os astros até o fundo da alma e o próprio Deus, e parecendo-lhe tudo "formoso, risonho e admirável", angustia-se ante a ideia de que para ele tudo desapareça, de que possa não estar em parte alguma e deixe totalmente de ser.
Se é certo que Vives não faça avançar substancialmente a ontologia do ente humano, não é menos verdade que em seus escritos nos mostre a realidade do homem vivo, que há de morrer, mas que não quer morrer de todo, com um realce e uma animação difíceis de encontrar em outro lugar. E isto, não se esqueça, é uma dimensão essencial de toda antropologia.
Sobre Vives pode-se ler: A. Bonilla y San Martin: Luis Vives y la filosofia del Renacimiento; R. Pade: Die Affectenlehre des Johannes Ludovicus Vives (1893); G. Hoppe: Die Psychologie des J. L. Vives; G. Marañon: Luis Vives (1942); J. Ortega y Gasset: Vives (em Esquema de las crisis, 1942).
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