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id da página: 10778 Karl Renz – Neti Neti – Existência Karl Renz

Karl Renz Neti Neti Existencia

RENZ, Karl. Undecided. Neti-Neti. Edited By MANJIT ACHHRA. Mumbai: Zen Publications, 2015

Sua existência nunca exige qualquer definição ou compreensão

Q: Qual é a diferença entre o 'eu' que tem uma história e a consciência (awareness)?

K: O 'eu' é aquele que define. Ele define ter ou não ter uma história, o tempo ou a ausência de tempo. Para que haja presença ou ausência de um 'eu', é necessário que haja um 'eu' para testemunhar essa ausência. Até mesmo na ausência do 'eu', há um 'eu' que experiencia essa ausência. Quando Deus se toma por uma história relativa, ele se torna um jiva (alma individual). Mas tanto a história pessoal quanto a impessoal são histórias relativas, porque pressupõem um 'alguém' que tem uma história. No momento em que você aceita que tanto a história pessoal quanto a impessoal simplesmente são, sem um dono, você É Isso. E esse é o fim da história! Fim porque não há começo nem fim, e sem começo e fim, não há narrativa.

Q: Você quer dizer quando não há mais conceitos sobre impessoal ou pessoal, história ou não-história?

K: "Não-conceito" ainda é um conceito. Você pode levar isso ao infinito – 'não, não, não' – mas ainda precisa de um 'alguém' para definir isso.

Q: Então você está dizendo que 'isto' desaparece...

K: Não. Não há desaparecimento porque nunca houve algo assim para começar, essa é a questão. Há uma ilusão, um jogo de separação, uma história do 'eu'. Mas a ilusão nunca esteve aí. Nunca houve realidade nela. Nunca esteve viva. Portanto, não é que ela desapareça; ela nunca existiu. Aquele que diz que é uma ilusão, é, ele próprio, uma ilusão. A Vida simplesmente É. E não se trata de 'enxergar através' da ilusão e agora 'tê-la conquistado'. É por isso que o indicador do sono profundo é tão crucial: há um descaso total, pois você existe sem qualquer necessidade de definição. Sua existência nunca exigiu qualquer definição, compreensão, saber ou não saber. Tudo o que você pode nomear, enquadrar ou definir nunca poderá fazer de você Aquilo que nunca precisa de nada.

Q: Agora eu estou falando, perguntando e querendo saber...

K: Isso é autoinquirição... e é uma história sem fim da consciência. É a natureza da consciência questionar a si mesma. No momento em que há um questionador, mesmo que em potencial, ele questionará a existência. A consciência em sua forma mais pura é o pensamento-raiz 'Eu', que questiona a si mesmo.

Q: Você está apenas descrevendo o mecanismo da consciência e ele simplesmente continua acontecendo...

K: É a realização infinita daquilo que é a Realidade. E a realização da Realidade é a Realidade meditando sobre o que é a Realidade. Isso nunca começou e nunca terminará. É como um sonho que não é diferente do sonhador. Como o sonhador não teve começo, o sonho não tem começo nem fim. A Realidade não é diferente da realização, mas na realização você espera encontrar-se, quando a Realidade já está aí – você não pode encontrá-La.

Q: Eu fico pensando que algo precisa parar...

K: Sim e não. Para a coisa relativa que você pensa ser, parece que sim. Mas quando você É o que você É, não. Neste momento, ao questionar e querer saber, você cometeu um 'suicídio espiritual' ao adentrar uma identidade relativa. É como sentir falta de algo. Você sente falta, anseia. Então você espera, através da meditação ou do que for, recuperar o que aparentemente perdeu. Esse é o único sonho: achar que, pela experiência de ter nascido, você nasceu. Você toma isso como real. Então Shiva se torna uma marionete, porque ele toma a experiência de ter um corpo como real. Você se torna o dono de uma casa relativa e, a partir daí, sente falta de sua casa absoluta. É desse mal-entendido que o sofrimento começa, pois 'sentir falta' é sofrer. E nenhum entendimento neste mundo pode satisfazê-lo. Talvez, em um instante, você veja que a satisfação que surge nunca será o cumprimento que você anseia. Então, talvez, o 'eu' caia, e subitamente haja uma realização sem qualquer dependência.

Q: O que é o 'eu' que decai?

K: Toda noite ele decai. Noventa e nove por cento do dia você está em paz. É apenas um por cento do 'eu' que se perturba. O 'eu' não pode 'decair' de verdade. Como algo que é um fantasma pode decair? Ele nunca esteve vivo. Você ainda cria uma dependência, como se algo tivesse que acontecer. Nada tem que acontecer. Nada vai acontecer. A realização era ininterrupta. Nunca, jamais, houve um momento sem a realização da Realidade. Não há nada que precise decair, e isso é o pior para o ego: ninguém precisa que ele vá embora. Ele pode estar aí ou não, quem se importa? Não há nem mesmo alguém que saiba do ego.

Q: Eu não consigo encontrar Isso [a Realidade].

K: Você não pode produzi-Lo, porque Ele sempre esteve aí. Foi 'nunca-nunca' [um eterno presente]. Você não consegue encontrar o ego? Quem diz isso é o ego... porque ele sempre esteve lá, sempre se escondendo. Essa é a brincadeira de Shiva de esconder. Mas não há outro Shiva com quem brincar, então ele imagina companhias de brinquedo. No início, Shiva se torna uma criança-Deus e chora: "Eu não estou aqui!", sofrendo por não se encontrar. Então, em um instante, ele vê e fica feliz: "Graças a Deus não posso me encontrar! Graças a Deus não sou um objeto relativo no tempo! Graças a Deus não há Deus!" Então a escravidão termina em um instante. É como uma pequena mudança: de ser uma criança cheia de autopiedade para ter o prazer de procurar. Mas você não pode decidir. Você decai da Onipotência da felicidade na autopiedade da carência, e não pode evitar isso.

Q: Se não há nada a fazer e ninguém pode ser salvo desse estado de sonho, estas palavras que destroem a ilusão... elas também são parte da ilusão? O Ser não precisa de nada, então por que o Ser gosta de ouvir a si mesmo?

K: Essa é a Alegria. Essa é a natureza do entretenimento: há um entretenimento sem que você precise dele. Se você precisasse, não seria divertido, seria trabalho. O Ser está se entretendo, mas não precisando disso. Mas ele não pode evitar. Ele tem que se entreter porque não há outra maneira. Se ele acorda, tem que se entreter, não pode permanecer como uma mera potencialidade. É o "acidente divino". O acidente divino de sua natureza Absoluta ter acordado. Ela acordou para a consciência de sua existência, e dessa existência surge o 'Eu Sou', e disso surge o inconsciente. A trindade surge, apenas por entretenimento. Mas algo realmente aconteceu com o que-você-é? Não. Você ainda é aquilo que é potencialmente, como era antes de acordar e será além de acordar. Esse é o significado de ser 'anterior': com e sem tudo o que você pode imaginar.

Q: E o amor incondicional? E a sabedoria?

K: Amor incondicional já é o 'Eu Sou'. É ainda um conceito. Sua natureza nunca exige amor ou sabedoria para ser o que É. Ambos exigem um 'eu', um conhecedor, para existir. Mas aquilo que é Conhecimento não precisa de um conhecedor para ser o que é. E isso é o que você é. O Conhecimento não precisa de um conhecedor. Mas o conhecedor precisa do conhecimento para existir. Sua natureza é absoluta, independente de ambos. Eles podem estar lá ou não, quem se importa? Sua natureza nunca exige nada, e nela não há necessidade de amor, sabedoria ou entendimento para ser o que É. Isso é a felicidade em sua natureza, ananda. É o Contentamento em si.