VIDE: TEMPO DEVORADOR
René Guénon: O SIMBOLISMO DOS CHIFRES
No sentido de "elevação", o nome Kronos convém perfeitamente a Saturno, que em efeito corresponde à mais elevada das esferas planetárias, o "sétimo céu" ou o Satya-Loka da tradição hindu 1 . De resto, não se deve considerar a Saturno como potência única nem principalmente maléfica, segundo parece haver tendência a fazê-lo às vezes, pois não se deve esquecer que é antes de tudo o regente da "idade de ouro", ou seja, do Satya-Yuga ou primeira fase do Manvantara, que coincide precisamente com o período hiperbóreo, o que mostra claramente que não sem razão Cronos se identifica com o deus dos hiperbóreos 2 . É, por outra parte, verossímil que o aspecto maléfico resulte neste caso do desaparecimento mesmo desse mundo hiperbóreo; em virtude de uma "reversão" análoga, toda "Terra dos Deuses", sede de um centro espiritual, converte-se em uma "Terra dos Mortos" quando esse centro desapareceu. É possível também que ulteriormente se tenha concentrado mais esse aspecto maléfico no nome Kronos, ao passo que, ao contrário, o aspecto benéfico permanecia unido ao nome Karneios, em virtude do desdobramento desses nomes que originariamente são um só; e é verdade também que o simbolismo do sol apresenta em si os dois aspectos opostos, vivificador e matador, produtor e destruidor, como se assinalou recentemente a propósito das armas que representam o "raio solar" 3 .
Philippe Lavastine
[René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973]
Desejo agora explicar por que se diz, na Índia, que o rei come o seu reino!... Isso porque ele o ordena interiormente. Esse rei é, pois, Kronos–Saturno. Na origem desse mito, que parece selvagem — Kronos–Saturno devorando seus filhos —, há um termo técnico: o rei é dito “comer” todo o seu povo. Prajapati diz às criaturas: “Vinde a mim, eu vos comerei; não temais. Em mim sereis digeridos, colocados em vossos lugares e ordenados.”
Pode-se aproximar isso das palavras de Ruysbroeck a propósito da hóstia: ele diz — “Ele se dá apenas em aparência; na verdade, Ele é o ogro.”
Sou Lavastine; como pão, como carne. O pão torna-se Lavastine, a carne também. Por mais heterogêneas que tenham sido as coisas que comi em minha vida, sempre se tornaram Lavastine. Se passarmos agora à comunhão, deve ocorrer o processo inverso: que coisa triste se for o Cristo que é “lavastinizado”! Seria a catástrofe! O Cristo se dá em alimento, mas, na verdade, é Ele quem nos come.
Há verdadeira comunhão quando Ele me devorou e quando me torno um membro de Seu corpo. E é no interior de Kronos–Saturno, que preside o século de ouro, que o homem devorado encontra o seu lugar.
Assim, o rei é, fundamentalmente, aquele que come e bebe o seu reino.
Em seu livro Le Sacerdoce à travers les âges, Pierre Gordon fala com insistência — e com razão — de uma figura surpreendente, que se reencontra em toda a etnologia e que também existe na Índia: o “digestor divinizante”.
NOTAS: