VIDE: Citações filosóficas sobre o tempo; Aion; Tradição das cinco idades; Ciclo; Acontecimento; Dia; Noite; Eternidade; Hora; In illo tempore; In hoc tempore; Mês, Ano, Semana; Simbolismo do tempo; Tempo das origens; Tempo hierofânico; Temporalidade
I
Ao considerar o problema do “tempo”, seria desejável compreender o que as pessoas em geral entendem pela palavra. Tomemos dois exemplos retirados de jornais — um francês e outro inglês — que se encontram diante de mim. O francês refere-se à “marche objective et inexorable du temps”. Essa afirmação parece ser um exemplo típico da visão segundo a qual nos situamos à parte, observando o curso do tempo, que aparenta ser objetivo e inexorável, isto é, uma força estranha a nós e aos acontecimentos, à qual nós e os acontecimentos estamos todos sujeitos. O exemplo inglês declara: “O tempo não é um fluxo que corre — pois quem estaria parado na margem para vê-lo? Somos nós que fluímos, não o tempo. E todo esse fluir precisa ser relacionado às revoluções ocasionais de um sistema solar, por conveniência... mas de quem é a conveniência?” Essa declaração assume o ponto de vista oposto: o “tempo” não se move de modo algum, somos nós que nos movemos através de um “tempo” estacionário; distingue ainda entre o tempo como duração e o tempo como medida de duração. Ambos são exemplos inteligentes e, creio, confiáveis das atitudes correntes em relação à temporalidade. Nota-se, porém, que em ambos o “tempo” é considerado objetivamente, como alguma força exterior a nós, através da qual passamos ou que passa por nós. Em ambos, “nós” somos vistos como indivíduos fenomênicos.
Considerando a questão de modo mais geral, nós, no Ocidente, consideramos que o “tempo” começa no passado: falamos de “passado, presente e futuro” e não de “futuro, presente e passado”. Sem dúvida, reside em nosso pensamento o conceito de que Deus criou o mundo em algum momento passado e de que ele evolui em direção a um futuro desconhecido, e também que cada um de nós nasceu no passado e envelhece rumo a um futuro igualmente desconhecido, que imaginamos estar criando. No Oriente, ao contrário, tende-se a pensar que o futuro flui para um presente, e então passa para um tempo transcorrido. Contudo, também fazemos isso em certas ocasiões, e ambos os conceitos tratam o tempo como um fator objetivo, alheio a nós, ao qual nós e os acontecimentos estamos inexoravelmente submetidos. Pode-se notar, porém, que, se estivéssemos no fluxo do tempo, não poderíamos estar conscientes de que ele flui, a menos que tivéssemos, por assim dizer, ao menos um pé na margem, ou que os acontecimentos observáveis estivessem imóveis e intocados pelo fluxo — conceito que nos separaria irrevogavelmente dos acontecimentos.
Parece claro, a partir de tudo isso, que nossas noções de “tempo” são vagas e inconsistentes, para dizer o mínimo.
Metafisicamente — e mesmo filosoficamente — pode-se agora observar que nenhuma tal “coisa” como o “passado” pode ser dita existir senão como memória, sempre e inevitavelmente incompleta e distorcida, pois, o que quer que tenha sido, foi além do possível resgate e jamais existiu como “passado”. Pode ter existido como “presente”, mas o que é isso? Qualquer acontecimento que tenha sido presente em uma sequência temporal independente de nós, como observadores, já se encontra no suposto “passado”, anterior à sequência temporal em que poderíamos ter-nos tornado conscientes dele, visto que o processo complexo de percepção — através da retina, de alterações químicas nas células, de impulsos nervosos, de novas alterações químicas no tecido cerebral e de interpretação psicológica — requer um lapso de tempo que resulta em um “retardo temporal”, de modo que um “presente” subsequente já terá surgido quando o “presente” anterior tiver sido percebido e concebido. Portanto, nenhum presente pode ser conhecido como existente; no máximo, pode-se sustentar que um acontecimento que tenha sido presente foi posteriormente interpretado e registrado como tendo sido observado.
Quanto ao futuro, podemos imaginá-lo, correta ou incorretamente, mas não temos qualquer conhecimento dele até que se tenha tornado um “passado”, que, por sua vez, já se mostrou carecer de existência evidencial.
Não parece, portanto, que tenhamos qualquer prova da existência de divisões como passado, presente e futuro, ou de que existam de qualquer outro modo que não como interpretações conceituais da noção de um “tempo” objetivo que “passa”. Tal conclusão não é original: Huang Po afirma que “o passado não se foi, o futuro ainda não chegou, o presente é um instante fugaz”, o que pode ser considerado como implicando exatamente o que acaba de ser exposto.
Não poderíamos agora simplesmente aceitar a conclusão dos filósofos, de Heráclito a Kant, que compreenderam que nada como o “tempo” pode ter existência objetiva?
Evidentemente é uma perda de tempo (essa preciosa “coisa” de que tratamos!) discutir o “tempo” como um fator objetivo de nossa vida, pois ele não pode sê-lo de modo algum. Se quisermos compreender o que ele é, devemos procurar sua explicação mais próxima, em nós mesmos. Ele deve, de fato, ser um aspecto daquilo que nós próprios somos e, como tal, qualquer um que olhe na direção correta — isto é, para dentro —, com a mente em jejum, verá imediatamente que assim deve ser.
Seu aspecto como medida de duração, baseado em fatores astronômicos, é artificial e secundário e pode, portanto, ser negligenciado, pois é inteiramente conceitual, assim como o chamado “tempo psicológico” ou pessoal, de modo que nos ocupamos aqui apenas do tempo como sinônimo de duração.
Como tal, pode ser facilmente apreendido como o contraposto ativo do “espaço”, que é estático, uma medida deste — a direção de mensuração que mede o volume em termos de duração.
Quanto ao “espaço”, este também é um conceito baseado na medida — medida em três direções: comprimento, largura e altura ou profundidade —, as três constituindo volume. O volume nada é além disso, e o “espaço” nada é além de volume. Sem volume, “espaço” é um termo que só pode implicar vacuidade, mas vacuidade, enquanto tal, nada mais é do que volume potencial. O termo, aplicado ao conceito daquilo em que o volume aparece, é sinônimo de vacuidade. O espaço, portanto, é também forma, e forma nada é senão três direções de medida ou volume, e somos incapazes de reconhecer qualquer outra direção de medida além das três que, juntas, constituem o volume.
Assim, o universo perceptível, no que nos concerne, é composto de nada além dos conceitos que, juntos, parecem produzir o volume, que é o espaço. Mas, para percebê-los de qualquer modo — e, portanto, para perceber qualquer coisa —, eles devem possuir duração. Também nós devemos ter duração para percebê-los; mas, então, o que é a duração? Acabamos de ver que a duração é, em si, o contraposto ativo do espaço. De outro modo expresso, a duração pode ser vista como uma medida espacial adicional, que, enquanto tal, não pode ser interpretada espacialmente pelos sentidos, mas apenas representada sob a forma de duração. Isto também não é original, pois o conceito de “tempo” como “quarta dimensão do espaço” tem sido explorado por físicos avançados há quase uma geração. Os físicos — ao menos os mais eminentes — têm, há algum tempo, remado nas margens da metafísica, como crianças que constroem castelos de areia nas margens do oceano. Um dia, sem dúvida, a maré que chega os alcançará em seu brincar, e eles serão levados ao mar — onde alguns se afogarão e outros retornarão triunfantes sobre a crista das ondas.
Devemos agora perguntar de onde vêm essas medidas — as três que criam o universo fenomênico composto de volume e a quarta, interpretada como duração. Só pode haver uma resposta, e ela é muito simples e muito evidente: vêm do olho que mede. Esse olho é o centro do infinito, e, sendo o infinito infinito, seu centro está em toda parte. Em suma, esse olho é simplesmente o “Eu”, onde quer, quando quer e o que quer que tal “Eu” possa ser.
Creio que seria lamentável dizer mais: tirar conclusões é forçar, ou tentar forçar, uma exposição pela goela dos desventurados leitores. O que talvez busquem foi oferecido, e devem ser deixados para desenvolver sua própria compreensão de seu significado. Para aqueles que possam desejar indicações adicionais — sem, contudo, pensar por eles — pode-se acrescentar que a origem do “tempo” foi trazida de volta exatamente ao lugar a que pertence.
O que, então, é o “tempo” e, para lhe dar totalidade conceitual, o “espaço-tempo”? “O que”? Não, “quem”, então, é o espaço-tempo? Quem, de fato.
II
A Incidência de Supor o Tempo como Objetivo
Uma vez que nenhum fenômeno pode ser percebido sem extensão no espaço e na duração, se o espaço e a duração não possuírem existência objetiva, nenhum fenômeno poderia ser objetivamente percebido; e, se nenhum observador pode perceber sem possuir a mesma extensão espacial e temporal, tampouco poderia perceber objetivamente. Portanto, visto que nenhuma existência objetiva pode ser estabelecida para um, nenhuma pode ser assumida para o outro, e observador e observado devem ser puramente conceituais, isto é, existentes apenas como imagens na mente.
Isto apenas confirma a doutrina advaita de que a objetividade é conceitual, de que os objetos são vazios e carecem de natureza própria, e de que seu sujeito, enquanto entidade autônoma, é tão destituído de ser-próprio ou individualidade quanto eles. Este, aliás, é o ensinamento central do Sutra do Diamante.
Segue-se que todo pensamento e toda ação que envolvem extensão espacial e temporal são meramente fabulosos, como um sonho, pois nem pensador, nem agente, nem pensamento, nem ação possuem qualquer existência objetiva que seja algo além de um conceito na mente — assim como ocorre em um sonho. A extensão espacial e temporal, portanto, sendo uma descrição do próprio mecanismo da manifestação, aplica-se tanto ao observador fenomênico quanto ao que é fenomenicamente observado, e deve representar o que somos como seres sensientes — parte e parcela da própria fenomenalidade, cujo único ser é o noumenon que, não manifestado, a sustenta.
Isso deveria convencer-nos, ao menos, da futilidade de tudo o que fazemos e de tudo o que dizemos, quando tomado seriamente como demonstração de individualidade autônoma. Se isso não nos permitir compreender que o desempenho fenomênico, enquanto tal, é apenas um drama encenado por sombras — o que, afinal, é exatamente o que o Sutra do Diamante afirma e o que todos os grandes Sábios souberam e nos ensinaram —, é difícil imaginar que outra demonstração pudesse fazê-lo de modo mais eficaz.
Não somos nós chamados a apreender clara e profundamente essa futilidade fenomênica e, por meio disso, compreender que tudo o que somos é a noumenalidade que nos permite apreender algo enquanto seres sensientes — ou, se preferir, que o que somos é tal apreensão — e que nem apreendedores nem coisa alguma apreendida podem existir como tais? Pois isso, certamente, é a resposta.
Pregunta: Eso llevará algunos años.
Respuesta: ¿Por qué años? La idea del tiempo está solo en su mente. No está en el Sí mismo. No hay ningún tiempo para el Sí mismo. El tiempo surge como una idea después de que surge el ego. Pero usted es el Sí mismo más allá del tiempo y del espacio. Usted existe incluso en la ausencia del tiempo y del espacio20.
Si fuera verdadero que usted lo realizará después, ello significa que usted no está realizado ahora. La ausencia de realización en el momento presente puede repetirse en cualquier momento en el futuro, pues el tiempo es infinito. Así pues, tal realización es impermanente. Pero eso no es verdadero. Es erróneo considerar la realización como impermanente. Es el estado eterno verdadero, el cual no puede cambiar. [Sri Ramana Maharshi]
Frithjof Schuon: O esoterismo como princípio e como via
O que é civilização
Mario Ferreira dos Santos – Ontologia e Cosmologia
Assim também o tempo, o grande simbolizado por todas as coisas do mundo tetradimensional, — pois todas, por se darem no tempo, são dele símbolo, — é, por sua vez, um símbolo do ser e nos aponta, ao suceder dos fatos, o epimeteico e o prometeico de todo o existir.
O tempo é interior ao ser, e não o ser interior ao tempo. Por isso o tempo não é uma passagem entre o nada e o ser, porque o nada não é, e não poderia ser fonte de ser.
Duvidam muitos da universalidade do ser, devido à oposição entre presente e passado, no qual parece que o ser se abismou, como nota Lavelle.
Mas como poderia ter o nada a eficacidade de ser? Se o tinha, deixava de ser nada para ser ser, pois o ser, aqui, como potensão, como tensão que pode, é eficacidade. Por entre o constante fluir, o suceder do que há e do que está, o ser é um continuum, sempre ele mesmo, pois se entre um modo de ser e outro se intercalasse o nada, jamais surgiria um novo ser, porque o nada não teria eficacidade de ser, como já vimos. Portanto, sentimos o ser como um continuum, e o cinemático do existir, que nos aponta uma e outra forma de existência, dá-se no ser.
Portanto, o ser não se opõe ao devir, nem o devir se opõe ao ser. Não é o devir uma síntese de nada e ser, mas apenas uma síntese do epimeteico e do prometeico, (uma modal como o vê Suarez, e em breve estudaremos). Por isso cada momento do ser é síntese, como também o via Hegel, entre o ser indeterminado e o determinado, pois cada instante é ato e cada instante é a perfeição de uma potência, que se atualiza, que se realiza plenamente dentro do seu esquema tensional.
O que foi não é apenas nada, pois se fosse nada, como poderia ter sido? Se teve eficacidade de ser, como o ser perderia a si mesmo para tornar-se nada, pois o ser, que é proficiência e eficacidade, para tornar-se nada teria que ter em si o nada como potência, e esse já o teria destruído. Portanto o passado é. E o futuro, como seria nada se pode atualizar-se? Se encerra o presente a potensão de vir-a-ser, o futuro já é em forma potensional?
Portanto há formas de ser:
- do passado — epimeteico
- do presente — ato híbrido (devir)
- do futuro — prometeico.
O presente é a síntese do epimeteico e do prometeico, por isso é hibridez de ato e potência; de ato, na perfeição da potência epimeteica; de potência, do prometeico.
Portanto, o tempo é o instrumento da nossa participação plena com o ser.
DESTAQUES:
Gregório de Nissa: Criação e Tempo
Mestre Eckhart: Sermão XI
Ananda Coomaraswamy: Tempo e Eternidade
René Guénon: História e Geografia; determinações qualitativas do tempo; tempo transformado em espaço; triplo tempo