Apresentação e excertos da tradução anotada de Henry Corbin, Le Livre des pénétrations métaphysiques
APRESENTAÇÃO DE HENRY CORBIN
A obra aqui apresentada é aquela cujo título figura na bibliografia esboçada acima sob o n.º 22. Como se poderá constatar, é um pequeno livro de uma densidade notável. Molla Sadra discute nele todos os aspectos de sua metafísica do ser; recorda como foi levado a renunciar ao erro de sua juventude que o retinha cativo da metafísica das essências, e a professar uma metafísica que reconhece à existência, ao ato de existir, a preseancia sobre a quidditas. O opúsculo permite, ademais, pressentir o vínculo desta tese fundamental com o conjunto das posições que o filósofo assume em outro lugar, e ali mesmo se revela a estrutura que certifica a originalidade de sua obra.
Não é simples traduzir o título deste pequeno livro a uma língua ocidental. Não é que a palavra masair, plural de masar, ofereça em si mesma dificuldades insuperáveis; mas sua inserção no título de um livro como este lhe confere um alcance alusivo, que se fazia necessário salvaguardar o mais possível na tradução. Cada um dos capítulos do livro é designado como sendo um masar; daí a intitulação Kitab al-Masair. Molla Sadra não dá outra explicação senão esta: “É esta última palavra que escolhi para o título, porquanto há uma correspondência entre o sentido oculto e a aparência exterior” (parágrafo 4 in fine). A intitulação repousa pois sobre uma interpretação que se pode, parece-se, reconstituir da seguinte maneira.
A raiz s-r conota o sentido de perceber, mais exatamente de aperceber-se de algo, de ter o sentimento de algo; al-suur bi-dati-hi, é o sentimento que um ser tem de si mesmo, sua consciência de si. O nomen vasis masar (ism al-zarf, nome do “vaso”, ou seja, do tempo ou do lugar que encerra a ação), designa o órgão que encerra esta percepção, o lugar onde ela se cumpre. Por isso, na linguagem corrente, a palavra masar, com seu plural masair, designa os cinco sentidos (a visão, a audição, etc.) como vias de entrada, de penetração, de admissão do mundo exterior na consciência (aproximar de termos tais como tomada de consciência, tomada de ar). Mas a partir daí, a palavra toma um sentido específico no uso religioso, que finalmente permite-se compreender a alusão de Molla Sadra.
Como Lane explica (An Arabic-English Lexicon, Book I, p. 1362), masar = maalam significa: “Um lugar onde se sabe que uma coisa está.” E daí: “Um lugar da realização de serviços religiosos.” Esta segunda significação refere-se ao versículo qoranico (2:194): “Quando voltardes do monte Arafat, memorai Deus em al-Masar al-haram.” Estas últimas palavras designam Mozdalifa, uma colina entre Arafat e Meca, onde os peregrinos são convidados a cumprir uma memoração (dihkr) de Deus. Aqui, a palavra masar conota a ideia de memorial, monumento sagrado, santuário. Daí passa-se à explicação da palavra masair como equivalente de maalim (Lane, op. cit., Steingass, A Comprehensive Persian-English Dictionary, s. v.) e significando, por extensão, os ritos religiosos, as cerimônias e práticas da peregrinação, tudo o que se fixa como um sinal de sujeição para com Deus, tal como a parada no monte Arafat, a circumambulação em torno da Kaba. Em suma, a mesma palavra designa os ritos e as cerimônias, e os lugares onde se cumprem.
Passa-se assim da ideia de um lugar por meio do qual penetra o conhecimento, à ideia de um lugar, de um santuário, onde se penetra para praticar um rito religioso. Os comentários místicos do versículo qoranico em questão são sem dúvida a melhor via para refazer o taawil que explica a intitulação escolhida por Molla Sadra. É assim que se lê nos Taawilat de Abdorrazzaq Kasani (obra atribuída, como se sabe, a Ibn Arabi): “Memorai Deus em al-Masar al-haram, isto é, contemplai (estai presentes à) Beleza de Deus neste segredo do Espírito (sirr ruhi) que se chama Varcanum (hass). Porquanto o dihkir (a memoração) nesta estação (maqam), é a contemplação, e o masar é o receptáculo (mahall) da consciência (suur) desta Beleza cujo acesso continua inviolável a tudo o que é outro.”
Masar designa pois aqui o “templo interior” e a parte mais secreta deste templo (em latim os penetralia}, isto é, a consciência espiritual a mais secreta, o fundo o mais íntimo, Varcanum desta consciência que é, em sua profundidade, transconsciência, o segredo (sirr) do Espírito. Masar é aqui o santuário por meio do qual penetra a Beleza divina, onde se cumpre o dihkir contemplativo. É pois bem aqui a correspondência espiritual, interior, esotérica, do santuário, memorial sagrado (al-masar al-haram}, onde os peregrinos são convidados a estacionar na volta do monte Arafat. Parece-se pois que se elucida assim a explicação alusiva dada por Molla Sadra. Traduzir por o “Livro dos santuários do conhecimento” teria conferido ao título uma ressonância sacral que o livro não comporta. Dizer “os lugares do conhecimento” teria sido exato, mas ter-se-ia talvez assim despertado a ideia de uma simples tópica do conhecimento, e se teria permanecido abaixo da alusão. O que se deve reter, é a ideia de masar como “lugar de penetração”: onde penetra o conhecimento para o filósofo, onde penetra a Beleza divina para o místico, onde penetra o peregrino para cumprir os ritos de sua peregrinação. Por isso, finalmente, o livro de Molla Sadra tratando essencialmente da metafísica, parou-se nesta tradução, sob reserva de se encontrar algo melhor um dia: O Livro das penetrações metafísicas.
O LIVRO DAS PENETRAÇÕES METAFÍSICAS
PRÓLOGO
PRIMEIRA PENETRAÇÃO: Onde se explica que o ser não precisa de notificação
SEGUNDA PENETRAÇÃO: Sobre a maneira como o ser engloba as coisas
TERCEIRA PENETRAÇÃO: Do que faz a essência do ser in concreto
- 1a consideração tomada como testemunha
- 2a consideração tomada como testemunha
- 3a consideração tomada como testemunha
- 4a consideração tomada como testemunha
- 5a consideração tomada como testemunha
- 6a consideração tomada como testemunha
- 7a consideração tomada como testemunha
- 8a consideração tomada como testemunha
QUARTA PENETRAÇÃO: Onde se resolvem as dúvidas alegadas contra a realidade do ser como realidade in concreto
- Questão I
- Questão II
- Questão III
- Questão IV
- Questão V
- Questão VI
- Questão VII
- Questão VIII
QUINTA PENETRAÇÃO: Em que sentido a quidditas é qualificada pela existência como predicado?
SEXTA PENETRAÇÃO: Panorama de conjunto em resposta à questão: em que consiste a particularização das existências individuais e de suas ipseidades?
SÉTIMA PENETRAÇÃO: Que o que é por essência o objeto da instauração divina e emana da causa, é a existência, não a quidditas
- 1a consideração tomada como testemunha
- 2a consideração tomada como testemunha
- 3a consideração tomada como testemunha
- 4a consideração tomada como testemunha
- 5a consideração tomada como testemunha
- 6a consideração tomada como testemunha
- 7a consideração tomada como testemunha
- 8a consideração tomada como testemunha
OITAVA PENETRAÇÃO: Concernente à modalidade da instauração e da emanação, a demonstração do Criador inicial e o fato de que o Instaurador e Emanador seja único, não comportando nem pluralização nem associado
- 1a penetração: Sobre o relatório do instaurado para com o Instaurador
- 2a penetração: Sobre o Princípio dos existentes, seus Atributos e suas Operações
1a VIA: Sobre a existência divina e sua unidade
- 1a penetração: Concernente à demonstração do Ser Necessário e o fato de que a série das existências instauradas desemboca necessariamente na Existência Necessária
- 2a penetração: Que o Ser (ou Existência) Necessário é infinito em intensidade e em potência, e que tudo o que é outro é finito e limitado
- 3a penetração: Da Unicidade do Ser Necessário.
- 4a penetração: Que o Ser Necessário é a origem e o fim da totalidade das coisas
- 5a penetração: Que o Ser Necessário é a perfeição pleníssima de todas as coisas
- 6a penetração: Que o Ser Necessário é aquilo a que todas as coisas voltam
- 7a penetração: Que o Ser Necessário inteligência sua própria essência, e por sua essência inteligência todas as coisas
- 8a penetração: Que o ser ou existência no sentido verdadeiro é o Ser Divino Único, e que tudo o que é outro, se se o considera em si mesmo, “vai perecendo exceto sua Face augusta”
IIa VIA: Considerações fragmentárias sobre os atributos divinos
- 1a penetração: Que os atributos divinos são a Essência divina ela mesma
- 2a penetração: Sobre a modalidade da onisciência divina, segundo certa doutrina “oriental” de base
- 3a penetração: Indicação concernente aos outros atributos de perfeição
- 4a penetração: Indicação concernente à Palavra de Deus e ao Livro de Deus
IIIa VIA: Indicação concernente à ação demiúrgica e à instauração criadora
- 1a penetração: Do que põe um agente em estado ativo
- 2a penetração: Da atividade divina
- 3a penetração: Da gênese temporal do universo
SELO DO LIVRO