Os Símbolos do Verbo
A Filosofia Sintética Oriental e o Simbolismo do Verbo
- A filosofia oriental se distingue por um espírito de generalização que, diferentemente dos métodos de análise e dissecação modernos, aplica um mesmo axioma fundamental a todas as ciências, estados sociais e mundos intelectuais. Essa abordagem sintética, matemática e lógica é a base dos textos tradicionais mais antigos, transmitidos de forma incorrupta e intocável.
- Os "Gráficos de Deus" são considerados a chave de todas as ideias e situações humanas, representando o princípio e o fim de todas as ciências. Eles são entendidos como uma "grade" metafísica onde a harmonia eterna se inscreve e onde se posicionam as verdades particulares a cada conhecimento humano. Tais gráficos, com suas seis linhas indefinidas, são capazes de sublimar as partes úteis de um texto e revelar os arcanos diretores de todas as ciências.
- O simbolismo oriental convida a adentrar uma filosofia onde todas as interpretações e imagens são bordados sobre uma trama eterna e um modelo metafísico essencial. A partir da combinação das "situações" e dos "traços" que compõem os Gráficos de Deus, obtêm-se todas as ideias do cérebro e as luzes da consciência. Esses traços, participando do Princípio da Atividade, movem-se livremente e adquirem uma personalidade própria.
- Por essa razão, o simbolismo intelectual e fonético lhes conferiu a figura do Dragão, "mestre onisciente dos caminhos da direita e da esquerda", por ser a expressão da Onipotência e da Atividade Total.
O Simbolismo do Dragão: A Manifestação do Logos
- A lenda popular do Dragão narra a união de duas naturezas distintas: a água da terra (o peixe) e a água do céu (o pássaro Hac). Quando as duas se encontram, o pássaro empresta suas asas ao peixe, e o peixe empresta seu corpo e escamas ao pássaro, originando o Grande Peixe, em cujo dorso estão inscritos os preceitos secretos da Lei. Ao tocar as nuvens, ele se torna o Dragão Long e desaparece nos ares.
- Esta alegoria é a origem da gênese mosaica e do simbolismo da síntese. Ela ilustra que a Perfeição só existe pela união do Céu e da Terra, realizada através de um veículo universal — simbolizado pela água evaporada, que é infinitamente sutil, mas sempre material. O Dragão, que se manifesta nessa união e em seguida desaparece, simboliza que a Perfeição não pode ser visível ou inteligível à razão humana, pois se ela fosse apreendida, deixaria de ser Perfeição.
- O Dragão é um símbolo perfeito, pois sua explicação se aplica ao intelecto e sua sonoridade, à fonética. A fonologia revela que o radical
LOGdoLogosplatônico e alexandrino é exatamente o nome do ideograma do Dragão,LONG, cuja pronúncia éLOGUEem algumas regiões. Isso sugere que a filologia atesta a verdade de que, sob símbolos distintos, há uma única verdade e uma pronúncia idêntica em diversas culturas. O Verbo do Apóstolo João e o Logos platônico têm sua representação mais exata no Dragão, essa entidade universal e invisível.
O Caminho do Dragão: As Seis Posições do Khien
- O homem dotado (uma expressão que designa um estado de aperfeiçoamento inferior à perfeição, mas superior à sabedoria) pode imitar a atividade do céu. A razão de ser não tem forma visível, por isso usa-se uma imagem, como a do Dragão, que "sobe" através dos seis traços do hexagrama Khien, ocupando seis posições distintas e conferindo um sentido a cada uma delas.
- 1. Dragão Escondido (Primeiro Traço): Representa o ponto de partida, onde a atividade extrema da Perfeição não se revela e, portanto, permanece ininteligível ao homem. É o período da não-ação, onde se deve meditar e se desenvolver em estudo e contemplação.
- 2. Dragão na Rizeira (Segundo Traço): O Dragão emerge, e a atividade começa a ser sentida, embora não plenamente manifestada. O homem dotado tem consciência de sua virtude, mas não pode ainda deixar a terra; deve se apegar ao exemplo dos mestres que o precederam e melhorar os seres por seu ensinamento.
- 3. Dragão Visível (Terceiro Traço): A atividade se manifesta. O homem dotado alcança a ciência e a lei, mas a situação é perigosa. O Dragão é visível e pode se lançar para o alto, mas a revelação total da ciência é um ato de "circunspecção", pois a vontade de expansão dos seres pode levar à desunião.
- 4. Dragão Saltador (Quarto Traço): O Dragão tende a desaparecer para não se tornar inteligível ao homem, mas ainda não se retira. A situação é indeterminada, simbolizando a liberdade do universo de avançar ou recuar. O verdadeiro objetivo do movimento é o repouso absoluto, o Nirvana, que é inacessível para o ser humano.
- 5. Dragão Voador (Quinto Traço): O Dragão age em sua plenitude, sua influência benéfica se espalha por todo o mundo. A criação inteira existe, mas sem formas. O homem dotado atinge os altos cumes da inteligência, ocupa sua posição superior e deve agir para ajudar os outros e para "salvar o universo".
- 6. Dragão Planando (Sexto Traço): O Dragão começa a desaparecer. A extrema unidade é alcançada, e a perfeição absoluta começa a desvanecer, pois "o que é completamente acabado não pode durar muito tempo". A criação se torna divisível em formas, estabelecendo a dualidade relativa. O desejo do homem de "rever o Dragão" é o desejo de retornar à unidade.
As Aplicações Práticas: Regras de Conduta para o Ser Humano
- A partir do simbolismo dos seis Dragões, é possível extrair regras de conduta para o iniciado e para o cidadão comum, que se aplicam em áreas como a moral individual, a política e a economia social. As seis posições do Dragão são um guia para a ação correta.
- Para o homem dotado, as regras de conduta são:
- No estágio do Dragão Escondido, deve-se meditar e se calar para se desenvolver.
- No estágio do Dragão na Rizeira, deve-se ensinar sem se manifestar, seguindo o exemplo de mestres anteriores.
- No estágio do Dragão Visível, deve-se agir com cautela, pois a virtude atrai a simpatia do universo, mas também a inveja dos superiores.
- No estágio do Dragão Saltador, deve-se usar a liberdade e as circunstâncias para avançar ou recuar, mantendo-se sempre na via normal.
- No estágio do Dragão Voador, deve-se usar a plenitude dos meios para auxiliar os outros e o universo.
- No estágio do Dragão Planando, deve-se agir com moderação e evitar excessos, pois a extrema perfeição não pode durar.
- A tradição também oferece seis aforismos simples e nutridos para a conduta do cidadão comum, baseados na marcha do Dragão: 1) Não se mudar com o tempo ou se apegar à renome; 2) Ser honesto em palavras e circunspecto em atos; 3) Não se orgulhar de uma posição elevada nem reclamar de uma inferior; 4) Aperfeiçoar as aptidões e aproveitar o momento oportuno; 5) Agir para salvar o universo; 6) Não ser demasiado nobre para ter uma ocupação, nem demasiado elevado para ter amigos.