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Minerva

MITOLOGIA GREGA — MINERVA

Vem daí igualmente o nome da Minerva (ou Menerva) dos etruscos e latinos; note-se que da Athena dos gregos, que lhe está assimilada, diz-se ter ela saído do cérebro de Zeus e possuir por emblema a coruja, a qual, por seu caráter de ave noturna, liga-se também ao simbolismo lunar. Sob esse aspecto, a coruja se opõe à águia que, por poder olhar a face do Sol, representa com frequência a inteligência intuitiva, ou a contemplação direta da luz, inteligível. (René Guénon: CORAÇÃO E CÉREBRO)


Como todas as nossas outras grandes divindades, Atena tinha inúmeros sobrenomes, alguns dos quais expressavam qualidades particulares da deusa, ao passo que outros sintetizavam histórias completas a respeito dela. As pessoas até começaram a chamar-lhe “Pronoia”, “Providência”: mas isso deve ter acontecido depois do tempo em que os sobrenomes que passarei a enumerar eram comumente aceitos.

O nome Aglauro de Atena indicava um aspecto da deusa mais escuro, mais trágico, mais semelhante a Perséfone. Chamada de Pândroso, como a outra filha de Cécrope, apresentava-se sob outro aspecto, brilhante, associado à oliveira. Crescia na Acrópole uma oliveira sagrada, no tempo de Pândroso. Selene, o nome da deusa da lua, nunca foi sobrenome de Atena, como tampouco o era Métis. Mas estudiosos dos tempos antigos – entre os quais se incluía, pelo que se diz, o próprio Aristóteles389 – afiançaram que, disfarçada debaixo do nome de Atena, estava, de fato, a lua. A deusa Selene também tinha um pai chamado Palas – segundo, pelo menos, uma narrativa390, que aberra do relato feito por Hesíodo; mas Atena difere da brilhante Selene pelo fato de ter vários aspectos, tão nitidamente contrastados quanto a lua cheia e a escuridão. Ela era também Gorgópis, “a que tem rosto de Górgona”, e trazia o rosto da Górgona sobre o peito. Mas também se chamava Helótis, como Europa, “a de rosto largo” – expressão associada ao nome Selene. O epíteto poético de Atena, glaukopis, era mais um jogo de palavras: pode ser traduzido por “olhos de coruja”, mas também pode referir-se à cor verde-mar ou verde-oliva dos olhos da deusa. O sobrenome Tritogênia não significava, no início, que ela veio ao mundo às margens de determinado rio ou lago, senão que nasceu da própria água, pois o nome Tritão parece estar associado à água em geral. Sob o sobrenome de Etíia, era um pássaro marinho: o papagaio-do-mar ou o pardilhão cinzento, também conhecido como corvo-do-mar. Contava-se391 que, nessa forma, ela tomou debaixo das asas o homem primordial Cécrope, em forma de serpente, e carregou-o de Atenas a Mégara. Como Heféstia, era associada a Hefesto, como Ária, ao deus da guerra, Ares. Como Ergane, deusa dos trabalhos manuais, estava perto do primeiro desses deuses e, como Alalcomene, “a que finta”, chegou perto do último. De todos os trabalhos feitos com as mãos, os que ela mais apreciava e protegia eram os dos ferreiros e fundidores de metal, do mesmo modo que as artes femininas – a fiação, a tecelagem e os trabalhos com lã. Possuía também o sobrenome de Hígia e, nessa qualidade, era acompanhada por um filho de Apolo, Asclépio.

Dentre todas as deusas, Atena era eminentemente a protetora de uma cidade, com os sobrenomes de Polias ou Poliuco, e a protetora de heróis – mas não de todos os heróis: tinha seus próprios protegidos especiais, como Perseu, matador da Górgona, Diomedes e Tideu, o filho selvagem e o pai mais selvagem ainda, e o sábio Ulisses. Tinha também sacerdotisas cujos nomes poderiam ter sido usados para descrevê-la: nomes como Triteia, forma mais curta de Tritogeneia; Auge, “a lustrosa”; ou Etra, “a brilhante”. Essas sacerdotisas davam à luz heróis: Triteia deu à luz Melanipo, “o garanhão negro”, que tivera de Ares; Auge deu Télefo, “o que brilha longe”, a Héracles; e Etra deu Teseu a Posídon. Todas essas histórias conduzem a saga heroica – como a de Perseu, tantas vezes contada, sobre cuja mãe, Dânae, Zeus desceu notoriamente em forma de chuva de ouro. Os habitantes da Ilha de Rodes392 contavam que alguma coisa semelhante aconteceu por ocasião do nascimento de Atena: quando a deusa saltou da cabeça do pai, ele deixou cair uma chuva de ouro.


1. Platão identificou Atena, padroeira de Atenas, com a deusa líbia Neith, que pertencia a uma época em que a paternidade não era reconhecida (vide I. 1). Neith tinha um templo em Saïs, onde Sólon foi bem tratado só porque era ateniense (Platão: Timeu 5). As sacerdotisas-virgens de Neith entregavam-se a cada ano a um combate armado (Heródoto: IV. 180), que valia, ao que tudo indica, a posição de sacerdotisa-superior. O relato de Apolodoro (III. 12. 3) sobre a luta entre Atena e Palas é uma versão patriarcal tardia: ele diz que Atena, nascida de Zeus e criada pelo deus fluvial Tritão, matou acidentalmente sua irmã de criação Palas, filha do rio Tritão, porque Zeus interveio com sua égide no momento em que Palas estava prestes a ferir Atena, distraindo, então, sua atenção. Porém, a égide — uma bolsa mágica de pele de cabra contendo uma serpente e protegida por uma máscara gorgônea — pertencia a Atena muito antes de Zeus ter alegado ser seu pai (vide 9. d). Aventais de pele de cabra eram a roupa habitual das meninas líbias, e Pallas significa somente “virgem” ou “jovem”. Heródoto escreve (IV. 189): “Os gregos tomaram emprestadas as roupas e a égide de Atena das mulheres líbias, que se vestiam exatamente da mesma maneira, exceto pelo fato de que suas roupas de couro eram guarnecidas com tiras, e não com serpentes.” As meninas etíopes ainda envergam essa roupa, que é por vezes ornamentada com búzios, um símbolo jônico. Heródoto acrescenta, nessa passagem, que os gritos estridentes de triunfo, olulu, ololu, proferidos em homenagem a Atena (Ilíada VI. 297-301), eram de origem líbia. Tritone significa “a terceira rainha”: ou seja, o membro mais velho da tríade — mãe da virgem que combateu Palas e da ninfa em que ela se transformou —, assim como Coré/Perséfone (Cora ou Proserpina, para os romanos) era a filha de Deméter (vide 24. 3).

Atena (Minerva) inventou a flauta, o trompete, artefatos de barro, o arado, o jugo de bois, a sela, a carruagem e o barco. Foi a primeira a ensinar a ciência dos números e todas as artes femininas, tais como cozinhar, tecer e fiar. Mesmo sendo deusa da guerra, ela não tem prazer na batalha, como fazem Ares e Éris, pois prefere apaziguar disputas e fazer valer a lei por meios pacíficos. Não carrega armas em tempo de paz e, se em algum momento precisa delas, geralmente as pede emprestadas a Zeus. Sua misericórdia é grande: quando os votos dos juízes empatam num julgamento do Areópago, seu voto decisivo é sempre pela libertação do acusado (daí a expressão “voto de Minerva”, proveniente do nome latino da deusa, que expressa um voto decisivo de desempate). Mas, uma vez envolvida em batalha, ela nunca perde, até mesmo contra o próprio Ares, pois, em matéria de estratégia e tática, é muito melhor que ele. Os capitães sábios procuram sempre se aconselhar com ela.