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id da página: 9617 Narração Arda Viraf

Narração Arda Viraf

Tradução de Antonio Carneiro

A “Narração de Arda Viraf”

Se bem que é certo que o texto da “Narração de Arda Viraf” não contém uma data exata de sua escrituração1 , é indubitável que esta seja posterior em não muitos anos à invasão da Pérsia de parte da qual os mazdeísta denominavam “Alexandre Romano”2 , a quem se faz referência como causador de assassinatos de sacerdotes (mobeds, herbads, dausturs), da destruição de arquivos, etc.3

Devidos à estes fatídicos fatos — indica a “Narração” — se foi perdendo o sentido original da religião, não havendo em Irã legisladores nem sacerdotes competentes.

“E depois disso, houve confusão e desconfiança de uns com outros, entre a gente do país de Irã. E entre eles não havia Patrão, legislador, nem líder, nem Dastur que estivesse realmente imerso na religião, e chegaram a duvidar acerca de Deus; e religiões de vários tipos e diferentes formas de crenças, ceticismo ... ”4

Frente à isso, realizou-se um chamado aos devotos para que concorressem à Casa do Fogo de Frobag, e determinaram os sete5 homens mais puros. aqueles por sua vez deveriam eleger outros três, e estes à um. O eleito foi Arda Viraf , a quem se encomendou a missão de viajar para “o lugar dos pios e dos ímpios”6 , a fim de conhecer se os ritos celebrados pelos persas aproximavam o homem de Ahura Mazda ( o Senhor da Sabedoria, Deus) ou dos demônios.

Após uma preparação, que há de significar o logro da necessária pureza física e mental, e que se expressa através das orações, a presença de perfumes, a limpeza, e a recepção de três cálices com vinho e uma espécie de narcótico7 , a alma de Arda Viraf se distancia de seu corpo, atravessa a Ponte Chinwad, para ingressar nas regiões que só os mortos podem conhecer.

Em sua viagem o acompanharão dois seres espirituais: Srosh e Adar. Junto a eles, Viraf tomará conhecimento dos prêmios e recompensas que existem no céu, os castigos que se efetuam no inferno e como é o purgatório. Saberá quais são as ações mais pias e quais os pecados.

Assim, sublimes serão as almas daqueles que seguiram os ritos e apoiaram a religião (capítulo XIV,3) e sofrerão horríveis castigos aqueles que cometem perjúrio, sodomia, ou maltratam os seres vivos (humanos ou animais).

Quando Viraf já tiver visitado o purgatório, o céu e logo o inferno, será conduzido para a Assembléia de Ormuzd (Ahra Mazda), localizada na Morada dos Cantos, onde se encontram além dele os Amesha Spentas ou Arcanjos. Ali Ormuzd lhe dirá:

“Fala até o fim, Arda Viraf, aos Mazdayasnians8 do mundo, assim: “Só há um caminho de piedade, o caminho da primitiva religião, e todas as demais vias são todas não vias. Toma aquela via a qual é da piedade, e não saias dela nem na prosperidade, nem na adversidade, nem em nenhum momento; e pratica bons pensamentos e boas palavras e boas ações; e permanece na mesma religião a qual, recebida de mim, Spitaman Zartosht9 e Vishtap10 dispersaram no mundo, e mantém a lei, mas abstém-te do impróprio ... Só quem no mundo pratica a piedade e realiza seus deveres assim como também boas ações, só ele não se mistura com o pó ... ”

Por fim, logo após sete dias e sete noites, Viraf cumpriu com sua ordem, levando aos mazdeístas o ensinamento verdadeiro acerca da religião e daquilo que deve ser feito para mantê-la viva.


NOTAS:
1 Alguns creram que foi escrito durante o Império Sassânida (224-637 d.C.). É factível que se tenha transmitido a narração de Viraf de maneira oral durante muitos anos, talvez séculos, até a escrituração em inícios do reino Sasanida. O que pode-se assegurar é ter sido anterior à invasão árabe no Irã.
2 Trata-se de Alexandre Magno (355-323 a. C).
3 Não esqueçamos que Alexandre Magno foi o causador da destruição dos templos em Irã e do incêndio em Persépolis, onde no entanto, ainda resta manifesta parte da grandiosidade do império persa.
4 “Narração de Arda Viraf” capítulo I, 12-15.
5 O número sete e o três costumam-se repetir na Narração, o que demonstra o paralelo que tem este livro e a divina Comédia. No texto comentado, sete são as irmãs de Arda Viraf, sete os dias que dura a viagem ao céu e ao inferno, etc. este número reveste de importância em todo o zoroastrismo. Assim, são sete os Amahraspand ou Amesha Spentas (arcanjos), etc. Algo similar ocorre com o número três, como se verá mais adiante.
6 Quer dizer o céu e o inferno.
7 Quase com toda certeza o Haoma zoroastriniano ou Soma hindu.
8 Aqueles que seguem à Mazda. Quer dizer, os zoroastrianos ou mazdeístas.
9 Zarathushtra, cujo nome é Sepitama. O profeta da fé mazdeísta.
10 Príncipe que se unirá ao labor espiritual de Zarathushtra. Será um dos maiores adeptos do Profeta iraniano.