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Numero Pitagoras


TEMA V — O Símbolo e suas Aplicações

A SIMBÓLICA DOS NÚMEROS (cont.)

A síntese que vamos apresentar das diversas concepções do número, em Pitágoras, nos dará uma visão clara do verdadeiro sentido da sua matemática (Máthesis), que em grego quer dizer instrução superior, daí mathema, no genitivo mathematos, e mathematiká, mathematikôs, etc.

A suprema instrução, o conhecimento superior do homem e das coisas divinas (a Mathesis) é uma atividade; mathema é o estudo, o conhecimento.

O UM (ON) que é só (Hólos, em grego só) é a fonte emanadora de tudo. Os arithmoi archai (de arché, supremo), são os princípios supremos que advém do UM. Da cooperação desses arithmoi archai, (os nomoi, de nomos, lei, regra norma), só cognoscíveis pelos iniciados, e que são os poderes supremos, surge a organização do Kosmos (em grego significa ordem universal) (Note-se a influência dos arithmoi archai nas formas (eide) platônicas, que nada mais são que símbolos dos archai pitagóricos exotericamente expostos pelo autor da "República").

O UM, como fonte suprema emanadora dos arithmoi archai, gerou o UM. O UM é ato, eficácia pura, simplicidade absoluta, portanto ato puro. Sua atividade (verbum) é de sua própria essência, mas representa um papel porque na atividade é sempre ele mesmo (ipsum esse dos escolásticos), embora represente um outro papel (personna = hypostasis) o da atividade, mas é a mesma substância do Um supremo, ao qual está unido, fusionado pelo amor, que une o UM ao UM, o que forma a primeira tríade pitagórica, que bem estudada, em pouco difere da trindade cristã, exposta por Tomás de Aquino.

O UM gera o UM, e o amor que os une, forma a tríade pitagórica, simbolizada pelo triângulo sagrado de lados iguais.

Na emanação (procissão ad extra, pois a anterior entre

UM e o UM e o amor, a procissão é ad intra) surge o Dois, a Dyada. O ser toma os modos extremos de ser que, sendo inversos, são identificados no ser. Surgindo o dois, que se heterogeneiza, todas as combinações numéricas (arithmetikai) são possíveis. (NA: O Um gera o Um, na procissão iu intra da trindade pitagórica, muito semelhante à cristã. Na procissão ad extra, que é a criação, ele gera o um (substância universal) que é díadica — dois — no seu funcionar. Em “Pitágoras e o Número” estudamos este tema com os pormenores que se impõem.

Surgindo a Dyada, temos o positivo e o opositivo, ativo ou passivo .(determinante e o determinável), consequentemente o quatro:

PositivoOpositivo
ativo e passivo|passivo e ativo||


Esse quatro é simbolizado na tétractys (a quarta sagrada), por sua vez simbolizada nos números arithmétikoi (da logistikê, como veremos a seguir) 1, 2, 3, 4, cuja soma forma

o sagrado 10, o decadimensional universal. O um é também símbolo do ponto; dois, da superfície, três, do plano, e quatro, do cubo, e temos a tetractys geométrica.

Já vimos que o arithmós é também conceito; pois o conceito é um arithmós de notas (schema por aphairesis, isto é, esquema por abstração).

Então temos:
é quantidade (arithmós posoótes)
é qualidade (arithmós timós)
é relação (arithmós poiá skesin)
é função (arithmós skesis)
é lei, ordem, regra (arithmós nómos)
é processo (arithmós proodos, ou kéthados, cujo movimento inverso é ((strophe|episthrophe (conversão), que realiza o retorno efetivo (ánados). Estes arithmoi surgem dos arithmoi archai, produzidos pela emanação do Um, e retornam ao Um, depois de se combinarem com outros arithmoi.

Fluxões (arithmós khyma) pelos quais matematizavam os pitagóricos os estudos sobre as emanações e os fluxos de qualquer espécie (da luz, por exemplo).

O número ritmo (arithmós rythmós, número periódico; os conjuntos são números (arithmós plethos); e quando se tornam tensões (arithmós tónos).

Também se preocupava Pitágoras com a conjunção de números que produzem aspectos qualitativos passageiros, diferentes dos elementos componentes, como a percursão de notas diferentes, formando um novo aspecto qualitativo. Daí os números sinfônicos (arithmoi symphónikoi) ; que, por sua vez formam os números da harmonia (harmonikoi arithmoi).

As proporções de toda espécie levavam a construir o número analógico (analogikós arithmós)

Há ainda outros números que pertenciam à matemática pitagórica que não é apenas a exposta por Euclides, grande discípulo do pitagorismo.

Temos ainda o número de crescimento puntual dos pitagóricos, que nada mais é que os números segmentos de Dedekind, os chamados dynamei symetroi (números comensuráveis em potência) e outros como os sympathetikoi arithmoi e antipathetikoi arithmoi, que são totalmente diferentes do episthemikós arithmós, o número científico, número da matemática profana.

Só colocado o número nesse verdadeiro sentido pitagórico se pode compreender a sua simbólica, o que aliás é matéria da Aritmosofia, que estuda a significabilidade do número. Não se pode esquecer, porém, que nos diversos mitos religiosos, o número, tomado neste sentido, pode parecer à primeira vista como tendo um valor em si mesmo, quando, na verdade, como teremos ocasião de apreciar através das análises que passaremos a proceder, o número, de per si, não é um poder, mas é apenas um apontar do poder, referindo-se aos chamados arithmoi archai, os números arquetípicos, cujo estudo passaremos a fazer sob aspectos gerais, pois seu estudo mais exaustivo não cabe propriamente à Simbologia, que apenas estuda a sua significabilidade.

Os fenômenos naturais e suas leis nos levam a coeficientes que são números, e todas as coisas do mundo cósmico são arithmonomicamente verificáveis como imitando certos números. Os cristais, plantas, homens, estrelas, sons, espectros químicos revelam números e uma lei numérica que é a mesma. A matemática revela-nos como o número é um instrumento extraordinário, para o nosso conhecimento, a ponto de, quando não podemos reduzir a números um fenômeno, sentimo-nos como no vácuo.

No setor dos conhecimentos, tendentemente místicos e esotéricos, os números são "portadores" de valores vários, como favorabilidade e desfavorabilidade, cujo significado mais profundo deve ó filósofo investigar, e não, fundado num preconceito bem século dezenove, desprezar tais afirmativas pelo simples fato de não poderem elas ser assimiladas aos seus "clichés" mentais, fundados numa visão abstratista da própria ciência.

Não há necessidade aqui de referirmo-nos à vasta literatura que há sobre o tema.

Desinteressaremo-nos aqui de estudar a aritmosofia, como surge em certos pensamentos esotéricos, nem a aritmomancia, que tenta, através dos números, prever os acontecimentos futuros. Interessamo-nos, no campo da simbologia, e apenas em examinar e analisar a significabilidade dos números, sempre considerando de perto, e em grande parte nela nos apoiando, a aritmologia, ciência dos números, que procura estudá-los nos fenômenos naturais, o que é campo mais próprio da ciência e da filosofia. Nem por isso deixaremos de considerar alguns aspectos aritmosóficos e aritmomânticos, mas apenas nas referências que tenham, e diretas, com os símbolos.