- Vós me buscareis, e não me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir. (Jo 7:34)
- Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Eu retiro-me, e buscar-me-eis, e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou, não podeis vós vir. (Jo 8:21, vide Sinal da Cruz)
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 38
A interpretação destas palavras não está isenta de dificuldades. Jesus sabe de que morte há de morrer e o anuncia a seus discípulos: “Todavia um pouco de tempo estarei convosco e me vou ao que me enviou”. Depois de ser elevado gloriosamente na cruz, sobe ao Pai celestial que o enviou, tal como diz a Madalena no dia de sua ressurreição: “Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e a vosso Deus”. Assim pois, Jesus sobe ao Pai “que está nos céus” e antes de subir adverte: “vós não podeis vir”.
Duas elevações experimenta Cristo: da terra à cruz e a ascensão ao Pai; necessidade de elevar o Filho do homem enquanto passo inexcusável para alcançar a fé, qualidade imprescindível para ser salvo.
- Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. (Jo 20:17)
- Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem Eu Sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada. (Jo 8:28-29)
A exegese eclesiástica, em seu estudo minucioso da vertente do Cristo manifesto, entendeu tradicionalmente que a elevação de Jesus na cruz e sua ascensão à glória do Pai, são dois atos decisivos para a salvação porquanto os que viram a Cristo levantado na cruz, creram em Jesus enquanto Filho único de Deus. Ao ser alçado e glorificado na cruz, é como aparece Jesus aos olhos de todos como Salvador do mundo.
- E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. (Jo 12:32)
- Também há outra escritura que diz: Olharão para aquele que traspassaram. (Jo 19:37)
- Quem crê nele não é julgado; mas quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (Jo 3:18)
Estes são provavelmente os termos da exegese fundada na vertente manifesta; mas os mesmos textos da escritura podem ser estudados desde a vertente do Cristo oculto, interior, e então recebem uma luz diferente, paralela, que devemos intentar explicar em favor de quem pode fundar sua salvação e alimentar sua fé em grande medida, se procuram abrir as portas à luz mediante o uso das chaves do Conhecimento.
Na exegese da vertente oculta, Jesus sinaliza esta interpretação quando perguntado pela "gente" crente no Cristo «oculto» e portanto eterno, já que ao ser ele "a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo", é coeterno com o Ser essencial do homem. Por isso o interrogam:
- Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece para sempre; e como dizes tu que convém que o Filho do homem seja levantado? Quem é esse Filho do homem? (Jo 12:34)
Em sua resposta, volta a conjugar Jesus a luz do Cristo oculto que se mantém interiormente e que permite caminhar na luz uma vez que tenha sido descoberta, e a luz do Cristo manifesto, a qual será para eles, trevas, até a ressurreição, à morte de Jesus.
- Disse-lhes, pois, Jesus: A luz ainda está convosco por um pouco de tempo. Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles. (Jo 12:35-36)
Esta conjugação de ambas fontes de luz forma parte do evangelho. No formoso e importante capítulo joanico em que se narra a entrevista com Nicodemo, afirma Jesus, que “Ninguém subiu ao céu senão o que baixou do céu, o Filho do Homem”. (Nascer do Alto)
- Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu. (Jo 3:13)
Isso explica porque diz Jesus a todos os que o escutam, sejam ou não crentes nele, ou discípulos seguidores, que “aonde vou, vós não podeis vir”, porque não é ao primeiro homem, Adão alma vivente, a quem é dado subir ao céu, senão ao “nascido do alto”, o Filho do Homem, quer dizer, o último Adão, espírito que dá Vida.
- Neste sentido oculto não é válido dizer que a Ascensão está reservada à origem celestial de jesus, senão ao espírito, que em toda consciência mora essencialmente, por sua origem celestial própria, pois em caso contrário a ascensão ao céu estaria vedada a todos salvo a Jesus.
- Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (Jo 3:3)