PADOUX, André. L’énergie de la parole: cosmogonies de la parole tantrique. Fontfroide-le-Haut: Fata Morgana, 1994
Introdução
O homem não é apenas dotado de palavra: ele é um ser de palavra, não escapando jamais a esta, mesmo nas camadas mais profundas de sua consciência. Esta palavra, acreditou por vezes reencontrá-la em toda parte no universo e sobretudo em sua origem: obra do Verbo; circunscrevendo assim toda a criação na palavra, como ele próprio se encontra encerrado nos limites de sua linguagem.
Estes limites, sem dúvida, não devem ser compreendidos no sentido em que Wittgenstein dizia: « Os limites de minha linguagem significam os limites de meu próprio mundo » (Tractatus, 5.6), pois existe um pensamento sem linguagem: a Índia o afirmava muito antes que o tivéssemos descoberto. Mas é fato que nada podemos atingir de inteligível fora da palavra, da linguagem, que é o instrumento primeiro de nossa apreensão do mundo e, sem dúvida, também de nossa ação sobre ele. Filósofos o pensaram, no Oriente e no Ocidente, a psicanálise não deixa de confirmá-lo, os linguistas igualmente; os poetas, por fim, o sentiram, que não cessam de elevar ao mais alto a ação desta palavra, de estender ao mais longe sua capacidade de nos fazer ouvir o indizível.
Com efeito, o homem descobriu cedo que a palavra – e a linguagem que não é senão uma parte dela – é meio de conhecimento e de ação.
Sistema simbólico, a linguagem é um meio de conhecimento na medida em que auxilia a representar o mundo, a organizar, estruturar, dar forma a esta representação, tornando, portanto, o universo pensável e inteligível. « A língua, notava Benveniste, fornece a configuração fundamental das propriedades reconhecidas pelo espírito às coisas ». Sem dúvida, é dizer menos do que escrevia há pouco. Mas dizia ele também: « pensar é manejar os signos da língua », – ainda que haja um pensamento sem palavra, mas é talvez um além ou um aquém da língua: veremos isto mais adiante.
Seja como for quanto a este ponto, a palavra é igualmente meio de ação: a comunicação é uma ação e serve à ação. Mas, pelas palavras, age-se também – ou deseja-se agir – não somente sobre os homens, mas sobre as coisas, sobre o universo, sobre os deuses. A palavra, desde então, é eficaz; quer se pense que as palavras não têm jamais outro poder senão aquele que a sociedade lhes reconhece (assim do discurso ritual, a despeito de J.-L. Austin), quer este poder se reduza à eficácia simbólica. Ou ainda que se creia, como a India, que a palavra sagrada, ritual, mágica, possui uma eficácia direta, real. Donde o interesse, a importância, a fascinação talvez, dos problemas suscitados.
Acrescentemos que esta porção da palavra que é a linguagem, mesmo quando serve à comunicação, pode ser utilizada segundo diversas práticas significantes, das quais algumas colocam em relevo não a troca de informação, mas o « jogo dos significantes », o « texto », como se diz hoje com frequência. Tal é o caso, notadamente, da obra poética, em que o acento recai, se não sobre a própria matéria da língua, ao menos sobre os significantes; sobre a « mensagem » em si, se se quiser, enquanto formada indissoluvelmente desta matéria linguística e da diversidade de sentidos que aí nascem do jogo das palavras e dos sons « pelo choque de sua desigualdade mobilizados ». Jogo voluntário, visível, do poeta, ou jogo inconsciente, subliminar, dos anagramas. Jogo fundamental em todo caso, na medida em que testemunha de um ultrapassamento da linguagem na própria linguagem, em que mostra a eficácia própria à matéria fônica (ponto ao qual se retornará a propósito dos mantras); em que, enfim, faz aparecer a palavra como tradutora do indizível e via para o que a ultrapassa: expressão de uma intencionalidade profunda, afloramento de um discurso ou de um diálogo mais profundo, ou ainda tensão para o silêncio de onde nasceu e para onde retorna. Vê-se por que aqui falo da poesia, embora não seja ela o objeto principal destas páginas: é que este livro é consagrado aos poderes da palavra, à sua origem e ao seu fim. Certamente, o plano em que o veremos não é o do poema. Mas talvez o poeta tenha uma intuição dos outros planos, ele que, no Veda, é o kavi, « o poeta mensurador, o poeta do agenciamento que promove o cosmos ao cantá-lo »?
Há aí muitas questões que se encontram na ordem do dia no período de crise que atravessa hoje nossa civilização, em que a linguagem, tão frequentemente desviada, é explorada e explorada em todos os seus recursos e possibilidades como jamais o fora até então. Em que, ao mesmo tempo, tornou-se objeto de ciência; em que, por fim, é mais do que nunca posta em questão, examinada e interrogada de modo crítico, inquieto – « inquietude no véu do Templo »!...
Em um momento assim, pode ser instrutivo voltar-se para outras culturas que não a nossa, para ver como abordaram, ou ignoraram, tal ou qual dos problemas que nos preocupam. A India, precisamente, especula há milênios sobre a palavra. Começou a fazê-lo antes de nós e prosseguiu sua reflexão com uma coerência e uma continuidade bastante notáveis. Certamente, se muito cedo – após as grandes especulações cósmicas do Veda – elaborou observações singularmente exatas sobre a fonética ou sobre a gramática, sobre a psicologia ou sobre a psicogênese da linguagem, não chegou, em contrapartida, como nós, a desembocar em um estudo realmente científico dos problemas. É necessário, a este respeito, acautelar-se de lhe atribuir visões proféticas, que não teve, por mais justas que tenham sido certas de suas intuições. Mas, por ter permanecido no domínio da magia verbal, da metafísica linguística ou das cosmogonias fônicas, não deixou por isso de ter ideias interessantes, que podem trazer à nossa reflexão atual não apenas fatos exteriores e curiosos, mas também elementos nada negligenciáveis de enriquecimento ou, ao menos, de comparação. Donde este livro, que, aliás, se limitará, como direi, apenas a algumas das noções indianas sobre a palavra: aquelas às quais me interessei, mas que são também, creio, as mais curiosas. Ter-se-ia podido, certamente, escolher outras; ao menos era impossível considerá-las todas nestas poucas páginas.