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id da página: 1255 VERBO — PALAVRA

Verbo

DIVINO — VERBO — PALAVRA


VIDE: REALIDADE DAS REALIDADES; ARQUE-GERAÇÃO; THEOMERTMALOGOS

É preciso examinar o difícil termo grego logos, e conjecturas sobre um possível desvio na justa interpretação do Evangelho de João, ao se fazer a tradução latina de Logos como Verbum, que veio em seguida a ser traduzido nas línguas ocidentais por Palavra. Em nosso entendimento literal atual, supomos uma referência ao falar de Deus, até mesmo um comando verbal, como o Fiat Lux, o que dificulta ainda mais a compreensão de No princípio era o Verbo.


René Guénon: VERBO E SÍMBOLO

Si el Verbo es Pensamiento en lo interior y Palabra en lo exterior, y si el mundo es el efecto de la Palabra divina proferida en el origen de los tiempos, la naturaleza entera puede tomarse como un símbolo de la realidad sobrenatural. Todo lo que es, cualquiera sea su modo de ser, al tener su principio en el Intelecto divino, traduce o representa ese principio a su manera y según su orden de existencia; y así, de un orden en otro, todas las cosas se encadenan y corresponden para concurrir a la armonía universal y total, que es como un reflejo de la Unidad divina misma. Esta correspondencia es el verdadero fundamento del simbolismo, y por eso las leyes de un dominio inferior pueden siempre tomarse para simbolizar la realidad de orden superior, donde tienen su razón profunda, que es a la vez su principio y su fin.


Alleau: ASPECTS DE L'ALCHIMIE TRADITIONNELLE

O Prólogo do Evangelho de João testemunha da continuidade do ensinamento dos mistérios pela diferença estabelecida entre as três «Palavras», a saber entre as três hipóstases do Logos. A primeira Palavra equivale à «palavra interior ao Princípio» ou ao inconcebível pois ela enuncia, simultaneamente, a temporalidade, «No princípio» e a eternidade do Verbo, «era a Palavra». A segunda Palavra se refere à «Palavra concebível»: «e a Palavra estava com Deus». A terceira Palavra é a «Palavra concebida»: «e a Palavra era Deus». Esta tripla diferença é igualmente indicada nos «Provérbios»:

É pela Sabedoria que o Eterno fundou a Terra.

É pela Inteligência que afirmou os céus.
É por sua Ciência que os abismos se abriram.

E que as nuvens distilaram o orvalho.


No simbolismo cristão, a «Sabedoria» pertence ao «Pai», a «Inteligência» ao «Filho» e a «Ciência» é o dom do «Espírito Santo».

O esoterismo extremo-oriental observa distinções análogas entre o «Tao» inconcebível, o «Tao» manifestado ou o «Ming» que não é somente o «Nome» mas também a «Luz verbal» e a manifestação formal regida pelo «Khi» que se poderia traduzir, aproximadamente, pelo termo de «energia formadora».

Mais especialmente, o domínio próprio às «ciências tradicionais», no Oriente como no Ocidente, se refere constantemente à terceira hipóstase do Logos cuja dupla natureza é indicada pelo simbolismo das duas «Serpentes» e dos poderes da «chaves», do «solve et coagula», do manejo do «khi do yin» e do «khi do yang».

O termo «Logos», o verbo, a palavra, repousa provavelmente na raiz indo-europeia «Leuk», brilhar, ser luminoso, do qual derivam o nome de «Deus», o latin «dies», o dia, o sânscrito «divyah», celeste, o grego «dios», divino. A raiz «Leuk» se encontra em «lux», «luz», «luci», velho eslavo, luz, «loche», irlandês, clarão, «lug», gálico, brilhante. O «Logos» parece portanto a luz e o fogo, por excelência, o princípio da manifestação, em sua tri-unidade, «lógica» e «cosmo-lógica». Assim o conhecimento verdadeiro, a ciência verdadeira, são e não podem ser senão iluminativas, o que testemunha a tradição.


PADOUX, André. Comprendre le tantrisme: les sources hindoues. Paris: Albin Michel, 2010.

O poder e o papel cósmico da palavra, proclamados desde o Veda (o hino I.124 do Rigveda divide-a em quatro), são objeto, nos textos tântricos, de uma sistematização que especifica seus aspectos e função, pontos esses que foram particularmente desenvolvidos no xivaísmo não dualista da Caxemira. Independentemente de sua base textual, essas especulações têm, no entanto, quase sempre uma particularidade que pode confundir os ocidentais: a de considerar a palavra não apenas como uma força de natureza geralmente fônica, sonora ou verbal, mas mais especialmente como se expressando pelo alfabeto sânscrito ou por formas da língua sânscrita, portanto, como ligada à palavra falada erudita e, mais precisamente, a noções de fonética ou gramática — o que é, deve-se dizer, extremamente indiano.

“Aderir ao pensamento indiano, dizia Louis Renou, é antes de tudo pensar como um gramático” – mas um gramático, acrescentaria eu, que é ao mesmo tempo teólogo, metafísico e místico. Os aspectos cósmicos da palavra tântrica são muito numerosos. Eles são invocados em diferentes circunstâncias.

Um dos mais interessantes é aquele em que a palavra tem um papel de criador cósmico na forma da língua sânscrita. Ele é descrito tanto nas tradições vishnuitas quanto nas shivaítas, sendo a exposição mais complexa pela imbricação metafísica-gramatical a do shivaísmo não dualista: é o sistema da emanação fonêmica, que é apresentado em particular, com base em antigos tantras, por Abhinavagupta, nomeadamente no 3º capítulo do Tantrâloka. É demasiado complexo para poder ser resumido. Digamos apenas que a divindade é considerada como tendo como essência a Palavra, que é seu aspecto de energia, de shakti, e que essa energia-palavra tem como natureza e forma a língua sânscrita. É, portanto, a Palavra na forma do sânscrito que trará o mundo à existência e o sustentará com sua onipotência. Assim, a divindade suprema, Paramashiva129, que é Consciência absoluta, ao mesmo tempo Luz e Consciência (prakâsha e vimarsha) – seu aspecto de consciência sendo o de sua energia, portanto, da palavra –, tomará consciência da presença em si dos cinquenta fonemas do alfabeto sânscrito, na ordem da gramática tradicional, de A a KSHA130. Cada fonema corresponde a um aspecto diferente do poder criador da divindade e dá origem a um dos planos ou aspectos constitutivos da manifestação cósmica. Esse processo não é temporal, mas atemporal. Ele não cessa de ocorrer, formando a fonte e o substrato onipresentes e eternos, feitos de palavra, do universo. A divindade, de fato, não poderia deixar de criar e animar o universo, que, sem isso, desapareceria.

Shiva, detendo assim em si, na forma arquetípica, o alfabeto sânscrito e a manifestação cósmica que este dá origem, vai, por meio de uma série de tomadas de consciência gramaticalmente ordenadas, projeções luminosas e reflexos dos fonemas do sânscrito em diferentes níveis da energia cósmica, fazer aparecer, com quatro planos sucessivos da palavra, do mais alto, infinitamente sutil e supremo, ao mais baixo, concreto e manifesto, todos os níveis e todos os aspectos da manifestação cósmica, que se desdobra por etapas de acordo com o sistema classificatório dos tattva. infinitamente sutil e supremo, ao mais baixo, concreto e manifesto, todos os níveis e todos os aspectos da manifestação cósmica, que se desdobra por etapas de acordo com o sistema classificatório dos tattva132.

A mesma imbricação entre o linguístico e o cósmico se encontra, de forma menos sutil intelectualmente, mas mais integrada na visão teo-antropocósmica tântrica do corpo e da palavra, em outras descrições do nascimento tanto divino-cósmico quanto corporal dessa palavra, onde, sempre, o divino, o cósmico e o humano são inseparáveis. Citarei a seguinte, tirada de um antigo tantra shivaíta, o Tantrasadbhâva133, onde vemos entidades divinas nascerem no corpo humano: “Essa Energia suprema, sutil, cantada como transcendendo toda prática, está enrolada em torno do bindu do coração como uma serpente adormecida. Ela permanece lá, adormecida, sem pensamentos, ó Umâ! Essa Deusa contém em si os quatorze mundos, com a lua, o fogo, o sol e os astros, permanecendo inconsciente, como atordoada por um veneno. Ela então desperta com um som (nâda) muito puro feito de conhecimento, sendo agitada pelo bindu (Shiva) presente em seu seio, ó Bela! Desta agitação em seu corpo, com movimento circular e contínuo, nascem pontos (bindu) luminosos, produtos desta divisão [sexual]. Assim se eleva a Força (kalâ) sutil, a Kundalî. O Senhor é o bindu que se encontra em seu seio. Ele é quádruplo, ó Amada! Graças à conjunção da Agitada e do Agitador, ocorre uma retificação, sendo a potência que se mantém entre esses dois bindu (Shakti e Shiva) chamada de a Mais Velha (Jyeshthâ). Agitada pelo bindu, a Kundalî, formando uma linha reta, é chamada de Direita (Rekhinî), tendo os dois bindu em suas extremidades. Ela é então a força do caminho triplo e chamada de Raudrî. Mas também é cantada como Rodhinî, pois obstrui o caminho da libertação. Sua forma é a da lua. Ambikâ, por sua vez, tem a aparência de uma meia-lua. A Energia suprema assume assim três formas. Da união e da separação dessas energias procedem os nove grupos de fonemas, divididos em nove categorias. A Deusa entra sucessivamente nos cinco [brahma]mantra, sadyojâta e os outros. É por isso, ó Senhora dos Heróis, que se diz que ela é quíntupla. Ela é chamada de duodécima, pois há doze vogais. Dividida em cinquenta partes, ela reside nos fonemas de A a KSHA. No coração, diz-se que ela é dotada de um átomo, na garganta, de dois átomos, e de três quando está na ponta da língua. É na ponta da língua, certamente, que nascem todos os fonemas. Tal é o nascimento do som (shabda) que penetra tudo o que se move ou está imóvel.

Nessa visão mítica, portanto, a Energia divina nasce no coração humano e depois se torna a kundalinî, divina, erguida pela união sexual de duas divindades; depois disso, aparecem três energias divinizadas – estamos, portanto, no plano divino.

Intervêm então cinco mantras (que são ao mesmo tempo divindades e fórmulas rituais enunciáveis), depois vêm os fonemas constitutivos do alfabeto sânscrito, portanto a palavra, força cósmica. Mas é nos órgãos da fonação – no corpo humano – que nascem esses fonemas: os planos divino, cósmico e humano estão inextricavelmente entrelaçados.

Existem outras descrições análogas da manifestação cósmica pela palavra, mesmo em textos do Pâñcharâtra – no Ahirbudhnyasamhitâ (capítulos 16 e 17), por exemplo, ou no Lakshmîtantra (capítulos 18 a 20). Embora os processos criativos difiram nos detalhes, o princípio é sempre o mesmo: são cosmogonias baseadas na fonética, sendo a energia divina criadora do universo a da palavra na forma do alfabeto sânscrito. Pode-se considerar que se dá aqui demasiada importância a construções míticas ou intelectuais arbitrárias e bizarras. No entanto, elas merecem ser mencionadas porque são tão tipicamente tântricas em sua visão cósmica quanto tipicamente indianas em seu aspecto fonético e gramatical.