É impossível resumir num apanhado tão sucinto, e a partir de tais documentos, o tom moral de uma sociedade tão vasta, tão diversificada e tão pouco conhecida por nós em sua vida cotidiana quanto o foi o Império Romano em seu auge. Estamos abordando uma sociedade entre cujas classes superiores algumas áreas de extremo rigor coexistiram com áreas que logo se afiguram ao leitor moderno marcadas por uma graça, uma tolerância e uma despretensão que desapareceram da Bizâncio medieval e do Ocidente católico. Essa justaposição singular de severidade e tolerância fazia sentido para os pagãos pensantes, em termos de uma imagem da pessoa humana baseada no que melhor chamaríamos de "dualismo benevolente". A alma deparava com o corpo como o "outro" inferior ao eu. O corpo era tão diferente da alma e tão intratável quanto as mulheres, os escravos e a plebe obscura e irrequieta das cidades. Nem mesmo os deuses podiam alterar esse fato:
Que diz Zeus? "Epíteto, fora isso possível, eu teria feito esse reles corpo, essa tua pequena propriedade, livre e desembaraçada. Mas, nas circunstâncias — e que isso não te escape -, esse corpo não te pertence, mas é apenas barro habilmente misturado."
Era um barro a que a idade, a doença e a morte se agarravam inexoravelmente. Ao final de tão prolongada dor, o melhor para a alma era ir-se embora, talvez rumo às estrelas, "purgada do corpo", com a carne adoecida enfim separada da mente.
Contudo, a alma fora enviada dos céus, durante algum tempo, para atuar como administradora da província murmurejante e fértil do corpo. A relação que o homem culto mantinha com seu corpo era de um interesse benevolente. Seu domínio exigia uma sprezzatura requintada. As necessidades físicas observadas no corpo não podiam ser tiranicamente subjugadas por um "controle excessivamente meticuloso e rígido". A alma tinha de aprender a exercer uma violência branda sobre o corpo, tal como o marido treinava sua jovem esposa: "penetrando em seus sentimentos e ligando-se a ele pela boa vontade".
A simbiose genuína do corpo e da alma era a meta da medicina e da exortação filosófica. Não se devia permitir que o corpo impusesse suas necessidades à mente tranquila: era preciso mantê-lo bem ajustado, segundo suas próprias leis intrínsecas. A mente, por sua vez, devia aprimorar-se constantemente, para que, por fraqueza e insegurança, não viesse a participar da labilidade da carne. O homem indevidamente preocupado com seu corpo era uma visão indigna. Gastar tempo "com muitos exercícios, muita comida e bebida, muita evacuação dos intestinos e muita copulação", era, pura e simplesmente, "um sinal de falta de refinamento". Partindo de um grego bem-nascido, nenhum juízo poderia ser mais esmagador do que esse. Mas o asceta exibicionista era igualmente desagradável. O rapaz podia optar por não ter relacionamentos amorosos antes do casamento: "Mas não te tornes ofensivo ou recriminador para com os que assim se gratificam, e não faças menções frequentes ao fato de que tu mesmo não te satisfazes."
O corpo tinha um lugar legítimo na imensa cadeia de seres que ligava o homem aos deuses e às feras. Ele se elevava em direção à alma, como a crista mais alta de uma onda oscilante vinda do poderoso oceano de uma Natureza eterna. Nem mesmo a terra obscura, que dava e reclamava o corpo, era neutra: era lícito chamá-la divina, presença majestosa a palpitar eternamente com a nova vida. Os homens com que deparamos na literatura do século II ainda pertenciam ao universo dinâmico do politeísmo clássico mais recente. Sabiam ter sido ligados pela astúcia dos deuses ao mundo animal. Sentiam pulsar no corpo o mesmo espírito flamejante que todos os anos cobria as colinas de cordeiros recém-nascidos e amadurecia as plantações, num jogo amoroso sazonal, enquanto a brisa da primavera envolvia as espigas férteis. Acima deles, o mesmo fogo brilhava nas estrelas tremeluzentes. Seu corpo e seus impulsos sexuais partilhavam diretamente da perpetuidade inabalável de um universo imenso pelo qual os deuses brincavam exuberantemente.
Como coisa do mundo natural, esperava-se que o corpo falasse de suas necessidades num tom ancestral e autoritário. Só era prudente dar-lhe ouvidos vez por outra. A tolerância que se estendeu ao corpo no final da era clássica baseou-se num sentimento de que a antítese do mundo animal, a cidade, era tão forte que, uma vez formuladas, as exigências da sociedade eram inexoráveis. A família e a cidade determinavam em que grau os resultados da ligação do corpo com o mundo natural seriam aceitáveis na sociedade organizada.