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Puritas Cordis

Thomas Merton — A Vida Silenciosa


Puritas Cordis (cont.)

A luz de Deus que brilha na alma humilde, vazia de si, é o que os antigos Padres chamavam puritas cordis, pureza de coração. Cassiano ensinava que o escopo, todo, da vida monástica consistia em levar o monge a essa pureza interior. Todas as observâncias e virtudes monásticas têm isso por objeto.

São estas as palavras de Cassiano: «Por causa dessa pureza de coração é que devemos realizar tudo que fazemos, procurar tudo que procuramos. Por causa da pureza de coração buscamos a solidão, os jejuns, as vigílias, os trabalhos, o vestuário pobre, a leitura e todas as outras virtudes monásticas. Por esses exercícios, esperamos conservar nosso coração livre dos assaltos das paixões, e por esses degraus esperamos atingir o perfeito amor».1

Continua fazendo uma profunda observação psicológica. Se, diz Cassiano, notamos que estamos sem vontade ou incapazes de renunciar a algum exercício particular ou alguma observância para cumprir alguma outra tarefa importante ou necessária, e se descobrimos que, não podendo manter a observância como havíamos planejado, ficamos tristes, zangados, irritados ou de qualquer forma perturbados, quer isso dizer que procuramos essas coisas para a nossa satisfação própria e, portanto, perdemos de vista nosso verdadeiro objetivo, a pureza de coração. Nesse caso, os exercícios que praticamos não estão purificando nosso coração das paixões egoístas, mas fortificando-as em nossa alma.

A pureza de coração descrita por Cassiano não é tanto um estado psicológico como um novo nível de realidade. É a condição de uma alma transformada pela caridade perfeita. Essa alma é elevada acima de si mesma e para fora de si. Não só pensa e age num mais alto nível, mas é ela própria um novo ser, nova criatura.

Os Padres da Igreja explicavam esse «novo ser» pela seguinte doutrina: o homem, criado à imagem de Deus, perdeu a semelhança com Deus porque, voltando-se para si, ficou centrado em si mesmo. Perdendo essa semelhança divina, mergulhou o homem na irrealidade, pois não está mais unido à fonte da sua realidade. Existe ainda. É ainda «imagem» de seu Criador. Não tem, entretanto, em si, a vida de caridade que é a vida do próprio Deus — uma vez que Deus é caridade. Já que não tem essa vida em si, é ele irreal, está morto. Não é o que deveria ser. É caricatura de si mesmo. Uma imagem que é dessemelhante daquilo que representa é, necessariamente, uma distorção. E essa distorção é, em verdade, uma completa oposição espiritual à vontade e ao amor de Deus. Criado para realizar-se pela perfeita semelhança a Deus que é perfeito amor, destrói o homem suas potencialidades centralizando em si mesmo todo o seu amor. Criado para dar testemunho da infinita verdade e do infinito poder, realidade e existência de Deus, em Quem todas as coisas vivem, se movem e têm o ser, nega o homem, a realidade e volta as costas à verdade, de maneira a fazer de si o centro e a razão de ser do universo.

Para voltar a ser «real», deve o homem purificar o coração da treva da irrealidade e da ilusão. Essa treva, porém, submerge-lhe o coração enquanto ele vive apoiado na vontade própria egoísta. A luz só pode brilhar em nossos corações quando nos decidimos a renunciar à nossa determinação de nos rebelar contra a vontade infinita de Deus, a aceitar a realidade tal como Ele a quis e a colocarmos nossa vontade a serviço da perfeita liberdade d'Ele. Quando amamos como Ele ama somos puros. Quando queremos o que Ele quer somos livres. Então, nossos olhos se abrem e vemos a realidade como Ele a vê e podemos nos alegrar com a alegria d'Ele porque todas as coisas são «muito boas» (Gn 1, 31).

O coração «impuro» do homem decaído não é apenas sujeito à paixão carnal. «Pureza» e «impureza», nesse contexto, significam algo mais que a castidade. O coração impuro é um coração repleto de temores, ansiedades, conflitos, ódios, invejas, necessidades e apegos apaixonados. Todas essas e mil outras «impurezas» obscurecem a luz interior da alma. Não são, contudo, sua impureza capital nem a causa dessas impurezas. A corrupção íntima, básica, metafísica do homem é sua convicção profunda e ilusória de que ele é um deus e de que o universo está centrado nele. Notai que essa convicção tem base na verdade, uma vez que o homem vê em si a imagem obscurecida de Deus. Que imagem é essa? São Bernardo diz que é a liberdade do homem sentindo, então, em si, esse profundo, inalienável poder de auto-determinação espiritual, essa liberdade de moldar o próprio destino pela livre escolha, sente-se o homem «deífico». Essa liberdade nos vem de Deus nosso Pai.

Mas, embora Deus, nosso Pai, nos tenha criado livres, não nos fez onipotentes. Não somos deuses de direito próprio, capazes de realizar tudo que desejamos. Não podemos criar e desmanchar mundos, nem de nos impor a adoração e o serviço de todos os outros espíritos! Somos capazes de nos tornar perfeitamente «deíficos», recebendo livremente de Deus o dom de sua Luz, de seu Amor e de sua Liberdade em Cristo, o Logos Encarnado. Mas, na medida em que estamos implicitamente convencidos de que devemos ser onipotentes, por nós mesmos, usurpamos uma semelhança com Deus que não nos pertence.

Não somos, é claro, bastante tolos para imaginarmos que devemos encontrar em nós mesmos a onipotência absoluta de Deus. Entretanto, em nosso desejo de sermos «como deuses» — uma deformidade que perdura, impressa em nossa natureza pelo pecado original — procuramos o que se poderia chamar uma onipotência relativa; isto é, o poder de possuir tudo que queremos, de gozar de tudo que desejamos, de exigir que todos os nossos desejos sejam satisfeitos e que nossa vontade nunca se veja frustrada ou contrariada. É a necessidade de ver toda gente se curvar à nossa opinião e acatar nossas declarações como lei. É a sede insaciável pelo reconhecimento de nossa própria excelência, que tanto precisamos achar em nós mesmos para evitar o desespero. Essa pretensão à onipotência, nosso mais profundo segredo e nossa mais íntima vergonha, é, de fato, a fonte de todos os desgostos, de toda a infelicidade, de toda a insatisfação, de todos os enganos e decepções que sofremos. É uma falsidade radical que faz apodrecer nossa vida moral em suas raízes, porque torna tudo que fazemos mais ou menos uma mentira. Só os pensamentos e atos que estão livres da contaminação dessa secreta pretensão possuem alguma verdade, nobreza e valor.


NOTAS:
1 Cassiano, Conferência 1, VII, Migne P. L. 49: 489.