JAMAL, Mahmood. Islamic mystical poetry: Sufi verse from the mystics to Rumi. London: Penguin Books, 2009.
Vinho e Beleza
O vinho, o archote e a beleza são epifanias da Verdade,
Pois é Ela que se revela sob todas as formas.
O vinho e o archote são o transporte e a luz do 'Conhecedor',
Contemplai 'A Beleza' pois ela não está oculta de ninguém.
Aqui o vinho é o quebra-luz, o archote a lâmpada,
E a Beleza o raio da luz dos espíritos.
Pela Beleza foram acesas faíscas no coração de Moisés,
Seu vinho era o fogo e seu archote a sarça ardente.
O vinho e o archote são a alma daquela luz fulgurante,
A Beleza significa aquele 'maior dos sinais'.
Vinho, archote e beleza, todos estão presentes,
Não negligencieis abraçar essa Beleza.
Bebei o vinho da morte para o Eu, e por uma temporada
Porventura sereis libertos do domínio do Eu.
Bebei vinho para que ele vos liberte de vós mesmos,
E conduza o ser da gota ao oceano.
Bebei vinho, pois sua taça é o rosto do 'Amigo',
A taça é Seu olho ébrio e exaltado com vinho.
Buscai vinho sem taça nem copo,
Vinho é bebedor de vinho, copeiro é taça de vinho.
Bebei vinho da taça do 'rosto que perdura',
O texto 'seu Senhor lhes deu de beber' é seu copeiro.
Vinho puro é aquele que vos dá purificação
Da mancha da existência no momento da intoxicação.
Bebei vinho e livrai-vos da frieza de coração,
Pois um bêbado é melhor que o presunçoso.
O homem que habita longe dos portais d'A Verdade,
Para ele o véu das trevas é melhor que o véu da luz.
Assim Adão encontrou cem bênçãos das trevas,
E Iblis foi eternamente amaldiçoado através da luz.
Embora o espelho do coração esteja polido,
Que proveito tem quando apenas o Eu é visto em sua face?
Quando um raio de Sua face incide sobre o vinho,
Muitas formas são vistas nele como que bolhas.
Mundo e mundo espiritual são vistos nele como bolhas,
Suas bolhas são para os santos como véus.
A Razão Universal está atordoada e fora de si com isto,
A Alma Universal é reduzida à escravidão.
O universo inteiro é como Sua taverna,
O coração de cada átomo como Sua taça de vinho.
A razão está ébria, os anjos ébrios, a alma ébria,
O ar ébrio, a terra ébria, o céu ébrio.
Os céus, tontos com este vinho, cambaleiam de um lado para outro,
Desejando em seu coração cheirar seu perfume.
Os anjos, bebendo-o puro de vasos puros,
Derramam as fezes de seu trago sobre este mundo.
Os elementos, ficando tonto daquele trago,
Caem ora no fogo, ora na água.
Do aroma de suas fezes que caíram sobre a terra
O homem ascende até alcançar o céu.
De seu reflexo o corpo murcho torna-se uma alma vivente,
De seu calor a alma congelada é aquecida à vida e movimento.
O mundo criatural está sempre tonto com isso,
De casa e lar sempre vagando extraviado.
Um, do aroma de suas fezes, torna-se um filósofo,
Um, de ver a cor do vinho puro, um tradicionalista.
Um, de meio trago, torna-se virtuoso,
Um, de beber um copo cheio, torna-se um amante.
Ainda outro engole de um só trago
Taça, taverna, copeiro e bebedor de vinho.
Ele engole todos, ainda sua boca permanece aberta.
Bem feito, ó coração oceânico, ó poderoso beberrão!
Ele bebe a existência de um só trago,
E obtém libertação das afirmações e negações.
Livre de devoções secas e ritos vazios,
Ele agarra a barra do ancião da taverna.
E. H. Whinfield