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id da página: 10176 Silesius Laporte Verbo Angelus Silesius

Silesius Laporte Verbo

O PEREGRINO QUERUBÍNICO – Roger Laporte


ANGELUS SILESIUS. L’errant chérubinique. Tradução: Roger Munier. Paris: Éditions Planète, 1970

Aqui se faz necessário detalhar a posição de Angelus Silesius em uma longa tradição espiritual da qual, no século XVII, ele foi herdeiro. Santo Inácio de Antioquia, contemporâneo do imperador Trajano, já escrevia: "Há somente um Deus, manifestado por Jesus Cristo seu Filho que é seu verbo saído do silêncio" (Epístola aos Magnésios, VIII, 2). Angelus Silesius não pôde conhecer diretamente Mestre Eckhart, cujas obras, condenadas, ainda não haviam sido reeditadas, mas ele assimilou sua lição ao ler Tauler: "Tu deves fazer silêncio: então o Verbo deste nascimento poderá falar em ti e ser ouvido em ti, mas certamente se tu queres falar, Ele terá que guardar silêncio. Não se pode bem servir o Verbo senão calando-se e escutando" (Sermão para a festa de Natal). De todos os místicos, Juan de la Cruz é aquele que, em uma fórmula justamente famosa, melhor evidenciou que a geração eterna da Palavra não pôs fim ao silêncio: "O Pai celeste disse uma só palavra: é seu Filho. Ele a disse eternamente e em um eterno silêncio. É no silêncio da alma que ela se faz ouvir" (Avisos e Máximas, 307). Qual é, então, a posição de Angelus Silesius? Mestre Eckhart foi condenado por ter escrito em seu sermão "Justi vivent in aeternum": "O Pai engendra seu Filho e eu digo mais ainda: Ele me engendra enquanto seu Filho e o mesmo Filho": é certo que toda mística de união é tentada por este supremo pecado de orgulho: o homem tomando-se por Deus, e, no entanto, Angelus Silesius, que não foi condenado, não ecoa sem o saber Mestre Eckhart ao escrever:

É preciso que em ti Deus nasça.
Cristo teria nascido mil vezes em Belém,
Se Ele não nasceu em ti, é tua perda para sempre (I, 61; cf. VI, 236).


Nós o dissemos frequentemente e o repetimos ainda: se Angelus Silesius insiste tanto na necessidade da interioridade: "Bebe a água de tua fonte", não é somente porque o recolhimento é necessário, mas porque o coração do homem, sob a condição de se fazer tão vazio e livre quanto a manjedoura, é o lugar onde se ouve a Palavra, isto é, onde nasce o Verbo, e é assim que o dístico, que nós começamos a citar, continua assim:

Que o homem é louco que vem beber na poça
E deixa a fonte no coração da casa! (I, 300)


(aqui como não se lembrar desta passagem dos Evangelhos onde o Cristo diz de si mesmo que Ele é fonte de água viva: João, IV, 14). O Verbo se fez carne: a encarnação se situa em um momento preciso da história, mas, e tal é o foco da mística de Angelus Silesius para o qual tudo converge, o nascimento do Verbo pode a qualquer momento se atualizar, pode ter lugar aqui, agora, em meu coração, se ele é suficientemente abandonado a Deus:

Só depende de ti.
Ah, se meu coração pudesse se tornar uma manjedoura!
De novo, aqui embaixo, Deus seria uma criança (II, 53).


Compreende-se agora por que Angelus Silesius dedica tal culto ao Menino Deus: o recém-nascido não é aquele que está mais perto deste nascimento pelo qual o homem é divinizado pelo Verbo:

Deus se faz pequena criança.
Deus passa na pequenez da criança.
Abismo! Pudesse eu nesta criança ser uma criança! (II, 50.)


Angelus Silesius cai neste orgulho desmedido pelo qual o homem se creria Deus, Filho de Deus, e mesmo, já que o coração do homem é necessário a este nascimento, Pai de Deus? Poder-se-ia crer ao ler este dístico mais audacioso que a fórmula, no entanto, condenada, de Mestre Eckhart:

O Pai é o Filho e o Filho é o Pai.
Eu sou criança e filho de Deus e Deus é minha criança.
Como pode cada um ser então um e o outro?
(I, 256; cf. V, 249 e 252.)


Se estes dísticos estivessem isolados, a Igreja teria talvez condenado Angelus Silesius, mas a união, longe de ser glorificação do homem, só é possível pela aniquilação do homem enquanto homem que deixa então o lugar a Deus somente: tal é a lição deste dístico:

O homem não é nada, Deus é tudo.
Eu não sou eu, nem tu. Tu és tu mesmo em mim.
É por isso que eu Te rendo, ó Deus, toda a glória (II, 180).