Tradução em grande parte feita a partir da versão inglesa da Philokalia, mas eventualmente utilizando a versão francesa.
PRIMEIRA CENTÚRIA — CAPÍTULOS PRÁTICOS: DA PRÁTICA DAS VIRTUDES: CEM TEXTOS
1. Há, penso, na tríade perfeita das virtudes (fé, esperança e caridade), quatro causas portando aquele que superou agora o meio do noviciado e que alcançou à tríade da teologia mística, para escrever o que é bom. A primeira é a liberdade, quero dizer a impassibilidade (apatheia) da alma, que, pelas penas da ação (praktike) leva à contemplação (theoria) natural da criação, e daí penetra nas treva da teologia (theologia). A segunda, que vem das lágrimas e da oração, é a pura da inteligência (nous), donde nasce a palavra da graça e brotam os fluxos dos pensamentos. A terceira é a habitação da Santa Trindade em nós. Dela, as efusões luminosas do Espírito se espalham para seu bem em cada um dos purificados, manifestando os mistérios do Reino dos Céus e revelando os tesouros de Deus ocultos na alma. A quarta, em todo homem que recebeu o talento da palavra do conhecimento, é a urgente necessidade da ameaça de Deus que diz: “Servidor mau e preguiçoso, deverias pôr o meu dinheiro nos cambistas, e em meu retorno teria retirado o que é meu com juros” (Mt 25, 27) (Parabola dos Talentos). É bem esta necessidade que fazia Davi também dizer cheio de temor: “Eis, fecharei meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não ocultei tua justiça no meu coração. Não disse tua verdade e tua salvação. Não ocultei teu amor e tua verdade à grande assembleia” (Sal 40, 10-11).
2 O começo da vida segundo Deus é fugir completamente do mundo. Uma tal fuga é a renúncia da alma às vontades e a transposição da preocupação terrestre, pela qual, nos pressionam de retornar à preocupação de Deus, de carnais nos tornamos espirituais (pneumatikos). Estamos mortos para a carne (sarx) e para o mundo (kosmos). Mas nossa alma é levada à vida, em Cristo e no Espírito.
3 A verdadeira crença da alma tocando Deus, a fé interior aliada ao desprezo das coisas visíveis, a prática da virtude desapegada de todo egoísmo, são os três filhos da corda de que fala Salomão1 . Para rompê-la, é necessário tempo aos espíritos de malícia.
4 Em fé esperamos receber recompensa por nossos trabalhos, e por conta disto prontamente suportamos as durezas da prática das virtudes. Mas quando experimentamos a garantia do Espírito Santo, alçamos voo com amor para Deus.
5 Estar perturbado por pensamentos impuros não significa que já somos da parte do diabo. Mas quando a alma se torna desleixada, quando o intelecto, por causa de nossa vida dissoluta e desregrada, fica cheio de imagens turvas e obscuras, e quando nossa prática das virtudes negligencia, por causa de nosso desleixo na meditação e na oração, então, mesmo não engajados no mal, somos nivelados entre aqueles que deliberadamente rastejam em prazeres sensuais.
6 Tão logo o bridão dos sentidos superiores é removido, nossas paixões imediatamente revoltam-se e os sentidos mais baixos, mais escravos são agitados para ação; pois quando estes últimos em sua desrazão são soltos das amarras do auto-controle, seus hábitos devem acender as fontes das paixões e alimentar-se delas como sementes venenosas. E enquanto prossiga o desleixo, mais fazem isto. Pois tal sendo seu apetite natural não podem refrear-se da indulgência nisto uma vez livres para assim fazer.
7 Entre os sentidos, visão e audição possuem uma certa qualidade noética e são mais inteligentes e mestres que os outros três sentidos, paladar, olfato e tato, que são irracionais e grosseiros, e dependem dos sentidos superiores. Pois primeiro vemos e ouvimos, e então, através do agenciamento da mente , apreendemos o que está diante de nós, e o cheirando, finalmente o saboreamos. Assim o paladar, o olfato e o tato são mais animalescos ou, simplesmente, mais baixos e mais dependentes que a visão e a audição. Os animais mais gulosos e lascivos, ambos domésticos e selvagens, são especialmente afligidos por eles, e dia e noite ou se enchem de comida ou se viciam em copulação.
8 Se referes as atividades dos sentidos exteriores às suas contrapartes interiores — expondo tua visão ao intelecto, o recipiente da luz da vida, tua audição ao juízo da alma, teu paladar à discriminação da inteligência, teu olfato à compreensão do intelecto, e relacionando teu tato à vigilância do coração — levarás uma vida angélica na terra; enquanto sendo e aparecendo como um homem entre homens, serás também um anjo coexistindo com anjos e espiritualmente consciente da mesma maneira que eles são.
9. Através do intelecto, sustentador da luz da vida divina, recebemos o conhecimento dos mistérios ocultos de Deus. Através da faculdade de julgamento da alma peneiramos na luz deste conhecimento os pensamentos que levantam-se dentro do coração, distinguindo o bom do mau. Através da discriminação da inteligência saboreamos nossas imagens conceituais. Aqueles que brotam de uma raiz amarga transformamos em doce alimento para a alma, ou então as rejeitamos inteiramente; aquelas que brotam de um estoque vigoroso e virtuoso aceitamos. Desta maneira tomamos cada pensamento cativo e o fazemos obedecer Cristo (cf. 2Cor. 10,5). Através da compreensão do intelecto cheiramos o unguento espiritual da graça do Espírito Santo, nossos corações cheios de alegria e júbilo. Através da vigilância do coração conscientemente percebemos o Espírito, que refresca a chama de nosso desejo para bençãos supernais e aquece nossos poderes espirituais, embotados como foram pela frieza das paixões.
10. Assim como no corpo existem cinco sentidos — visão, audição, paladar, olfato e tato — assim na alma existem cinco sentidos: intelecto, razão, percepção noética, conhecimento intuitivo e insight cognitivo. Esses estão unidos em três atividades psíquicas: intelecção, raciocínio e percepção noética. Por meio da intelecção apreendemos as intenções espirituais, por meio do raciocínio as interpretamos, e através da percepção noética apreendemos as imagens do insight divino e conhecimento espiritual.
11. Se teu intelecto claramente distingue as intenções de seus pensamentos e em sua pureza dá seu assentimento somente àqueles que são divinos; se tua razão pode interpretar os movimento físicos da totalidade da criação divina — ou seja, pode claramente elucidar as essências interiores das coisas; se noeticamente podes perceber a sabedoria celestial e o conhecimento espiritual: então através da luz do Sol da retidão transcendes toda a percepção dos sentidos e alcanças o que jaz além dela, e saboreias o deleite das coisas invisíveis.
12. O intelecto compreende quatro faculdades principais: juízo, sagacidade, apreensão noética, perspicácia. Se conjugas estas com as quatro principais virtudes da alma, ligando restrição da alma ao juízo do intelecto, compreensão robusta à sagacidade, retidão à apreensão noética e coragem à perspicácia, constróis para ti um carro celestial duplamente ardente que irá te proteger contra as três principais principalidades e poderes das paixões convocadas: avareza, auto-indulgência e amor do elogio.
13. Para dominar a vontade mundana do si mesmo decadente tens de preencher três condições. Primeiro, tens de superar a avareza pela adoção da lei da retidão, que consiste na paixão misericordiosa por seus companheiros; segundo,tens de conquistar a auto-indulgência através da auto-restrição prudente, quer dizer, através do auto-controle abarcante; e, terceiro, tens de prevalecer sobre teu amor do elogio através da sagacidade e compreensão robusta, em outras palavras através da discriminação exata em coisas humanas e divinas, atropelando tal amor sob os pés como algo tosco e sem valor. Tudo isto tens de fazer até que a vontade mundana é convertida na lei do espírito de vida e liberada da dominação pela lei do si mesmo exteriormente decadente. Então podes dizer, «Agradeço a Deu que a lei do espírito de vido tem me liberado da lei e domínio da morte» (cf. Rom 8,2).
14. Se aspiras ao espúrio louvor humano como se fosse algo autêntico, chafurdas em auto-indulgência por causa da insaciabilidade de tua alma, e através de tua cobiça entrelaças-te com a avareza, ou te farás a ti mesmo demoníaco através da auto-pretensão e arrogância, ou degenerarás em bestialidade através da gratificação da barriga e dos genitais, e te tornarás selvagem para outros por causa de tua vulgar avareza desumana. Desta maneira tua fé em Deus irá falhar, como Cristo disse que iria quando aceitasses louvor humano (cf. Jo 5,44); abandonarás a auto-restrição e pureza porque teus órgãos inferiores estão insaciavelmente acesos e sucumbirás ao apetite sem rédeas; e estarás apartado do amor porque ministras sozinho para ti mesmo e não socorres teus companheiros quando estão em necessidade. Como alguns monstros polifórmicos compostos assim de partes auto-antagonistas diversificadas, será o inimigo implacável de Deus, do homem e dos animais.
15. Se quanto elevados e ativos os poderes inteligente, apetitivo e irascível espontaneamente operam de acordo com a natureza, eles o fazem integralmente semelhante a deus e divino, firme em suas ações e nunca de maneira alguma deslocados do fundamento da natureza. Mas se, traindo sua própria natureza, segue um curso que é contrário à natureza, estes mesmos poderes o tornarão, como dissemos, em um mostro polimórfico, composto de muitas partes auto-antagonistas.
16. Nosso pode irascível jaz entre os aspectos inteligente e apetitivo de nossa alma; pois a ambos serve como uma arma, seja agindo de uma maneira que está de acordo com ou é contrária à natureza. Quando nosso desejo e inteligência, de uma maneira que está de acordo com a natureza, aspira ao que é divino, então nossa irascibilidade é para ambos os dois uma arma de retidão aplicada somente contra a silvante serpente que os persuadiria à indulgência em prazeres carnais e a valorizar o louvor dos homens. Mas quando falhamos em agir de acordo com a natureza e dirigimos nosso desejo e inteligência para o que é contrário à natureza, transferimos a atenção do que é divino às questões puramente humanas, então nosso poder irascível se torna uma arma de iniquidade a serviço do pecado, e a usamos para atacar e lutar contra aqueles que restringiriam as paixões e apetites dos outros poderes de nossa alma. Assim, seja estejamos engajados na prática ascética ou estejamos contemplativos e teólogos, quando agimos de acordo com a natureza provamos nós mesmos estar entre os membros fiéis da Igreja, e quando agimos contrariamente à natureza nos tornamos bestiais, selvagens e demoníacos.
17. Somente através do trabalho do arrependimento e da prática ascética assídua achamos restauração dos poderes da alma ao estado no qual estavam quando Deus originalmente formou Adão e nele soprou o sopro de vida (c. Gen 2,7), nunca seremos capazes de nos conhecer; nem seremos capazes de adquirir uma disposição que seja mestre das paixões, livre da arrogância, não super-curiosa, ardilosa, simples, humilde, sem inveja ou malícia, e que tome cada pensamento cativo e o faça obedecer Cristo (Cf. 2Co2Cor. 10,5). Nem será nossa alma acesa com o amor de Deus, nunca transgredindo os limites do auto-controle, mas contente com o que lhe é dado e ansiando pela serenidade dos santos. E se não alcançamos tal estado, nunca podemos adquirir um coração que é gentil, pacífico, livre da raiva, generoso, não-contencioso e pleno de misericórdia e alegria; pois nossa alma estará dividida contra si mesma e por causa da turbulência de seus poderes permanecerá impermeável aos raios do Espírito.
18. Se não reganhamos a beleza de nosso estado original, continuamente renovando a impressão da imagem nEle, que nos criou em sua semelhança (cf. Gen 1,26), mas ao invés nos distanciamos dEle através da disparidade de nossas qualidade, como podemos sequer entrar em união com Ele? Como podemos entrar em união com Ele que é luz quando bloqueamos a luz e adotamos seu oposto? E se não estamos unidos a Ele de quem recebemos a fonte de nosso ser, e através de quem viemos à existência de coisas que não são e foram feitas preeminentes sobre as coisas que são; e se, por causa de nossa dessemelhança com nosso Criador somos separados dEle, onde seremos lançados? Isto estará claro para aqueles que podem ver, mesmo se silencio.
19 Enquanto tivermos os material bruto das paixões dentro de nós mesmos e, ao invés de repudiá-lo, deliberadamente o alimentamos, as paixões prevalecerão sobre nós, derivando sua força de nós. Mas quando lançarmos fora este material bruto, limpando nossos corações com as lágrimas do arrependimento e execrando a ilusão das coisas visíveis, então compartilhamos da presença do Paracleto: vemos Deus na luz eterna e somos vistos por Ele.
20. Aqueles que romperam as cadeias da percepção dos sentidos estão livres de toda servidão aos sentidos: vivem somente no Espírito, comungando com Ele, impelidos por Ele, e levados através dEle em certa medida à união com o Pai e o Logos que são um em essência com Ele; e assim se tornam um único espírito com Deus, como diz São Paulo (cf. 1Co 6,17). Não somente estão isentos do domínio dos demônios mas verdadeiramente os enchem de terror, posto que compartilham do fogo divino e são de fato chamados fogo.
21. Nosso sentido de tato não é parcial no sentido que sua atividade é restrita a uma parte do corpo, como é aquela dos outros sentidos; é em geral, sentido englobante pertencendo ao todo do corpo. Assim se enquanto ainda apegados à lubricidade das coisas tocamos algum objeto desnecessariamente, pensamentos carregados de paixão perturbam o intelecto, mas se, depois de renunciar tal apego e elevando-se acima do reino do sensível, tocamos algo de acordo com uma necessidade inerente em nossa natureza, então nosso sentido de tato não tem tendência a seduzir os órgãos de percepção da alma.
22. Quando o intelecto está estabelecido no reino do que está além da natureza, os sentidos, assumindo seu papel natural, comunga impassivelmente com as fontes de paixões; buscam somente suas atividades e qualidades enquanto não estando apegadas a elas ou acidentalmente atraída por eles em uma maneira que é contrária à natureza.
23. As lutas e trabalhos espirituais geram satisfação na alma, na medida que as paixões tenham sido acalmadas; pois o que é difícil para aqueles que ainda estão dominados pelos sentidos é fácil e mesmo deleitoso para uma alma aspirante que através de suas santas exerções adquiriu um anseio por Deus e está ferida com desejo pelo conhecimento divino. Para os dominados pelos sentidos, os trabalhos e esforços por virtude, opostos como são à facilidade e indulgência corporais em prazeres sensuais, são difíceis e parecem muito duros, pois em tais pessoas o salobro gosto do prazer ainda não foi lavado pelo fluxo das lágrimas. Mas a alma que abomina o prazer indutor de dor e rejeitou o conforto juntamente com o amor-próprio do corpo, sente a necessidade e abraça tal trabalho e esforço. Uma coisa apenas a perturba: relaxamento em seus trabalhos e indolência em seus esforços. Assim o que para aqueles ainda dominados pelos sentidos é a fonte da satisfação corporal é para a alma que aspira ao que é divino uma causa de perturbação. E o que para a alma aspirante é a uma causa de alegria espiritual é para os dominados pelos sentidos a causa de dor e angústia.
24. Labuta ascética é inicialmente dolorosa para todos aqueles recém engajados no combate espiritual; mas para aqueles exercitados no crescimento da virtude e que alcançaram o ponto médio de seu caminho, tal labuta é prazerosa e produz uma estranha sensação de alívio. Quando a vontade mortal da carne é tragada pela vida imortal (Cf. 2Co 5,4) conferida através da morada do Espírito Santo naqueles verdadeiramente esforçando-se pela perfeição da virtude, eles são plenificados com alegria e satisfação inefáveis, pois uma fonte de lágrimas abriu-se dentro deles, e correntes de doce compunção fluem sobre eles do alto.
25. Se queres avançar às fronteiras da virtude e encontrar um caminho sem erro que leve a Deus, não permita teus dormir ou suas pálpebras fechar ou dar repouso a sua fronte (Cf. Sal 132,4) até que, com tua alma fendida por labuta e lágrimas, tenhas alcançado a terra da apatheia e tenhas entrado no santuário do conhecimento de Deus. Pois então, desprendido de tudo que está abaixo, em tua grande sede terás subido como um varão às altas montanhas da contemplação e através da Sabedoria personalizada de Deus terás afirmado o alcance supremo da vida humana.
26. Para aqueles recentemente engajados no combate espiritual o caminho rápido para a recuperação da virtude consiste no silêncio dos lábios, o fechamento dos olhos e cerramento dos ouvidos; pois então o intelecto alcançou esta espécie de intermissão e selou-se das entradas externas a si mesmo, ele começa a compreender a si mesmo e suas próprias atividades. Imediatamente se põe a interrogar as ideias nadando no mar noético de seu pensamento, tentando discernir se os conceitos que irrompem na cadinho da mente são puros, misturados com nenhuma semente amarga, e concedidos por um anjo de luz, ou se são taras, híbridos, lixos, emanando do diabo. Assim mantendo-se como um soberano mestre no meio de seus pensamentos, os julgando e separando o melhor do pior, o intelecto aceita aqueles que são bem-testados no fogo do Espírito e saturados com água divina, os absorvendo em suas ações e prática e os armazenando em seu tesouro espiritual; pois por estes pensamentos é alimentado, fortalecido e plenificado de luz. Os outros pensamentos lança nas profundezas do esquecimento, erradicando sua amargura. Isto é o trabalho somente de alguém que espiritualmente embarcou no caminho que leva sem erro aos céus e a Deus, e que rasgou o manto lúgubre das paixões obscuras.
27. Uma vez que a alma tenha desviado a si mesma da malícia e de sua fútil propensão a arrogância barata, e através da morada do Paracleto tenha adornado o coração com simplicidade e inocência, imediatamente irá ser restaurada para Deus e para si mesma. E posto que agora passou além dos poços infernais da incredulidade e da malevolência, aceitará sem hesitação o que ouve e vê como confiável e verdadeiro.
28. A fé enraizada profundamente é preeminente entre as virtudes, posto que tal fé retira a alma da dúvida e a livra completamente do amor-próprio. Pois nada previne mais alguém recém engajado no combate espiritual da prática dos mandamentos como este vício pernicioso do amor-próprio. Previne mesmo o progresso daqueles bem adiantados no caminho espiritual, pois sugere doenças a eles e ferimentos corporais malignos, de modo que seu ardor esvanece e eles são persuadidos a desistir da labuta ascética com base em que seu estado susceptível é perigoso. Amor-próprio é amizade inana pelo corpo, que acaba por fazer o monge um amante dele mesmo — de sua própria alma e corpo — e assim o estranha para Deus e para com o Reino de Deus, de acordo com a frase do evangelho «Aquele que ama sua vida a destruirá» (Jo 12,25).
29. Aquele que diligentemente pratica os mandamentos de Deus, e com desejo ardente respalda o jugo de luz do ascetismo (cf. Mt 11,30), não poupa sua saúde corporal, ou esquiva-se das demandas da virtude, ou recolhe-se da exerção, ou aceita a preguiça e a negligência de outros. Ao invés, qualquer que seja a dureza, fervorosamente cultiva as virtudes, atendendo somente a si mesmo e aos mandamentos de Deus. Cada dia, com lágrimas trabalha e semeia a terra da vida (Cf. Sal 126,5) até que os primeiros brotos da apatheia germinem dentro dele, misturados com divino conhecimento, sustentem o grão do Logos e frutifiquem, em Sua retidão.
30. Nada, penso, assim promove a progresso rápido da alma como a fé — não apenas a fé em Deus e em Seu unigênito Filho, mas fé que é profundamente enraizada. Com esta fé acreditamos na verdade das promessas do Cristo, feitas e mantidas em prontidão para aqueles que O amam (Cf. 1Co 2,19), assim como também acreditamos na verdade das ameaças e das punições infernais preparadas para o diabo e seus cúmplices (cf. Mt 25,41). Esta fé inspira a alma esforçada com a esperança que atingirá o estado dos santos, sua bendita apatheia, subindo às alturas de sua santidade e se tornando um co-herdeiro com eles do reino de Deus. Com tal certeza a alma assiduamente e sem titubear aumenta sua prática dos mandamentos, imitando os trabalhos dos santos e perseguindo sua perfeição por meio de esforços similares.
31. A aparência externa da face muda de acordo com o estado interior da alma: qualquer que seja a atividade noética da alma, estará refletida na face. Disposta e modificada de acordo com os pensamentos dentro da alma, a face brilha quando o coração rejubila na emergência de bons pensamentos e em sua meditação sobre Deus, mas desaba e se torna sombria quando o coração é amargurado pelos pensamentos inaturais. Em ambos os casos, o que está acontecendo é bastante evidente àqueles nos quais os órgãos de percepção da alma estão bem treinados. Ou é uma mudança trazida pela «mão direita do Altíssimo» (Sal 77,10, LXX), e isto é óbvio a eles porque é algo familiar e querido a eles pelos quais nascem no Espírito e se tornam luz e sal para outros próximos a eles (cf. Mt 5,13-14); ou então é uma mudança trazida pela discórdia dos poderes do mal e o tumulto de nossos pensamentos, e isto também é evidente a eles, posto que resistem a tal mudança, a marca da imagem do Filho de Deus dentro deles tendo sido polida ao mais alto grau pelos rais da graça divina.
32. A alma recebe seja bençãos ou penalidades e punição de acordo com suas atividades interiores. Se se ocupa a si mesma com coisas divinas e trabalha o chão da humildade, lágrimas caem sobre ela como a chuva dos céus, e cultiva o amor por Deus, fé e compaixão pelos outros. E quando nesta maneira a alma é renovada na beleza da imagem de Cristo, se torna uma luz para outros; atraindo sua atenção com os raios de sua virtude, as inspira a glorificar Deus. Mas se a alma devota a si mesma a matéria mundanas e meramente humanas, mexendo e agitando as águas fétidas do pecado, alimenta ódio e repele o que é bom e belo. Deformada desta maneira de acordo com a imagem mundana e feia do homem decaído, se torna uma coisa de escuridão para outros; e através de sua conversa maligna e depravação corrompe as almas imaturas e frágeis, induzindo-as a blasfemar Deus. Assim a alma recebe sua recompensa de acordo com o estado que está quando a morte a toma.
33. Se acalentas pensamentos maus tua face será rabugenta e mal-humorada; sua língua será incapaz de louvar Deus e serás amargo para com os outros. Mas se acalentas em teu coração o que é imortal e santo, tua face radiará alegria e satisfação, levantarás tua voz em oração e serás muito gentil na fala. Assim será bastante claro para todos se ainda estás sujeito às paixões impuras e à lei da vontade mundana, ou se estais livre de tal servidão e vivendo de acordo com a lei do Espírito. Nas palavra de Salomão, «Um coração alegre faz a face radiante; mas um coração doloso faz o coração mal-humorado» (Cf. Prov. 15,13).
34. As paixões atuadas podem ser curadas pela ação. Dissipação, sensualidade, glutonia e uma vida dissoluta e devassa produz um estado de alma carregado de paixão e a impele a ações inaturais. Por outro lado, restrição e autocontrole, trabalho ascético e esforço espiritual transladam a alma de seu estado carregado de paixão ao estado de apatheia.
35. Se após um extenuante trabalho ascético receberes grandes dons de Deus por causa de tua humildade, mas fores então arrastado e entregue às paixões e ao castigo dos demônios, deves saber que te exaltaste, pensaste muito de ti e desprezaste os outros. E não encontrarás cura ou libertação das paixões e demônios que te afligem a menos que utilizes um bom mediador e, através da humildade e da consciência de tuas limitações, te arrependas e retornes ao teu estado original. Tal humildade e autoconhecimento levam todos os que estão firmemente enraizados na virtude a considerarem-se como os mais baixos de todos os seres criados.
36. Aos olhos de Deus e daqueles que vivem uma vida semelhante à de Cristo, agir com paixão por causa do próprio caráter dissoluto e orgulhar-se das próprias virtudes através de um espírito de presunção são cada um tão maus quanto o outro. No primeiro caso, é vergonhoso até mesmo falar das coisas que aqueles escravizados às paixões fazem em segredo (cf. Ef 5:12); no segundo caso, a jactância do coração é uma abominação para Deus. A pessoa dissoluta se aliena de Deus, pois é ‘carne’ (cf. Gên 6:3), enquanto a pessoa que se orgulha de sua virtude é impura à vista de Deus por causa de sua presunção.
37. Uma paixão não é a mesma coisa que um ato pecaminoso: eles são bem distintos. Uma paixão opera na alma, um ato pecaminoso envolve o corpo. Por exemplo, o amor ao prazer, a avareza e o amor ao louvor são três paixões particularmente nocivas da alma; mas a impureza, a ganância e a maldade são atos pecaminosos da carne. A luxúria, a raiva e a arrogância são paixões da alma produzidas quando os poderes da alma operam de uma forma que é contrária à natureza. O adultério, o assassinato, o roubo, a embriaguez e tudo o mais que é feito através do corpo são ações pecaminosas e nocivas da carne.
38. As três paixões mais gerais são a autocomplacência, a avareza e o amor ao louvor; e três são os escalões de homens que lutam contra eles e os superam: aqueles que recém-embarcaram no caminho espiritual, aqueles que estão a meio do percurso e aqueles que atingiram seu objetivo.
39. A batalha travada por aqueles nos três estágios do caminho espiritual contra esses três princípios e poderes do príncipe deste mundo não é uma e a mesma, mas em cada estágio a batalha é diferente. Em cada estágio, há uma maneira diferente de lutar contra essas paixões, e cada maneira faz uso lícito e natural do poder da justa indignação.
40. Se há pouco tempo embarcaste na luta pela santidade e te alistaste contra as paixões, deves lutar incessantemente e através de todo tipo de dificuldade ascética contra o espírito de autocomplacência. Deves definhar tua carne através do jejum, dormindo no chão, vigílias e orações noturnas; deves levar tua alma a um estado de contrição através do pensamento sobre os tormentos do inferno e através da meditação sobre a morte; e deves através de lágrimas de arrependimento purgar teu coração de toda a impureza que vem do acoplamento com pensamentos impuros e dando teu consentimento a eles.
41. Quando te aproximares do ponto médio do estágio inicial do caminho espiritual, experimentarás a primeira forma de impassibilidade, e através dela o esforço de teus trabalhos contra o espírito de autocomplacência será aliviado. Teus olhos abertos, começarás a perceber a natureza interior das coisas, e agora pegarás as armas da fé contra o espírito da avareza pérfida. Exaltarás teu intelecto através da meditação sobre as coisas divinas e acelerarás teu pensamento com as essências interiores do mundo criado, elucidando sua verdadeira natureza. Na fé, levarás tua alma do que é visível para as alturas do invisível, assegurado de que Deus, que traz todas as coisas da não-existência para a existência, provê para tudo o que Ele criou. Desta forma, tua aspiração total será direcionada para a vida em Deus.
42. Quando através da contemplação e da impassibilidade tiveres passado da metade do caminho espiritual e tiveres transcendido o engano da percepção sensorial mundana, agora entrarás na escuridão divina da teologia, guiado pela consciência do conhecimento espiritual e pela Sabedoria personalizada de Deus. É neste ponto que com a força da humildade levantaste tuas armas contra o espírito da vanglória e do amor ao louvor. Tua alma será estimulada por santas revelações e sem dor derramarás lágrimas; serás humilhado em tua vontade através do reconhecimento da fraqueza humana e exaltado por intimações do conhecimento divino.
43. Por meio do jejum, vigílias, oração, dormir no chão, trabalhos corporais e a amputação de nossos desejos através da humildade da alma, inativamos o espírito de autocomplacência. Nós o superamos através de lágrimas de arrependimento e, algemando-o com o autocontrole, o tornamos imóvel e ineficaz; pois agora estamos entre aqueles proficientes na guerra espiritual.
44. Repelindo e finalmente matando o espírito da avareza com as armas da fé e 'a espada do Espírito, que é a palavra de Deus' (Ef 6:17), agora nos aproximamos, graças à consciência da Sabedoria, da contemplação das essências interiores dos seres criados. Iluminados com a consciência do conhecimento espiritual, passamos além da região humilde das coisas visíveis e alcançamos os reinos do amor, ricos em esperança inspirada por Deus.
45. Alados pela impassibilidade e humildade, e inspirados pelo Espírito Santo, entramos na esfera da teologia mística e no abismo do conhecimento dos mistérios de Deus. O espírito da vanglória é agora consumido no relâmpago do pensamento e da doutrina divinos. Chorando e cheios de compunção, percebemos a consumação das coisas humanas, e dispersamos os asseclas desse espírito, que nos atacam através da presunção, da autoestima e da arrogância.
46. Aquele que odeia e renuncia de todo o coração 'o desejo do eu caído, o desejo dos olhos e as falsas pretensões desta vida' (1 Jo 2:16) — aquele 'mundo de iniquidade' inteiro (Tg 3:6) através do amor pelo qual nos tornamos inimigos de Deus (cf. Tg 4:4) — crucificou o mundo para si e a si para o mundo: destruiu em sua carne a inimizade entre Deus e sua alma, e fez a paz entre os dois (cf. Ef 2:15). Pois aquele que morreu para essas coisas através da anulação da vontade da carne reconciliou-se com Deus. Ele erradicou a inimizade deste mundo ao obliterar o prazer sensual através de uma vida crucificada para o mundo, e abraçou a amizade com Jesus. Ele não é mais inimigo de Deus por causa de seu amor pelo mundo, mas é amigo de Deus, crucificado para o mundo e capaz de dizer: 'O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo' (Gl 6:14).
47. Deus abandona aqueles que estão engajados na guerra espiritual por três razões: por causa de sua arrogância, porque censuram os outros e porque são tão vaidosos sobre sua própria virtude. A presença de qualquer um desses vícios na alma leva Deus a se retirar; e até que eles sejam expulsos e substituídos por uma humildade radical, a alma não escapará do castigo justo.
48. Não são apenas os pensamentos carregados de paixão que sujam o coração e contaminam a alma. Exaltar-se sobre as próprias muitas realizações, inflar-se sobre a própria virtude, ter uma alta ideia da própria sabedoria e conhecimento espiritual, e criticar aqueles que são preguiçosos e negligentes, tudo isso tem o mesmo efeito, como fica claro na parábola do publicano e do fariseu (cf. Lc 18:10-14).
49. Não imagines que serás libertado de tuas paixões, ou escaparás da contaminação dos pensamentos carregados de paixão que elas geram, enquanto tua mente ainda estiver inchada de orgulho por causa de tuas virtudes. Não verás os pátios da paz, teus pensamentos cheios de benevolência, nem, generoso e calmo de coração, entrarás alegremente no templo do amor, enquanto presumires de ti mesmo e de tuas próprias obras.
50. Se tua alma é seduzida pela beleza do corpo e usurpada pelos pensamentos imbuídos de paixão que ela parece evocar, não assumas que tal beleza é a causa de teu estado agitado e apaixonado. A causa está escondida em tua alma, e é a disposição apaixonada e os maus hábitos de tua alma que, como um ímã atrai o ferro, atrai para si tal impureza da beleza que percebe. Pois todas as coisas são criadas por Deus e todas, como Ele mesmo diz, são 'inteiramente boas e belas' (Gen 1:31), não dando motivo algum para impugnar Sua criação.
51. Assim como o enjoo é devido, não à natureza do mar, mas ao distúrbio já existente dos humores do corpo, assim a confusão e a turbulência da alma são devidas, não à beleza da fisionomia na pessoa que ela percebe, mas à sua má disposição preexistente.
52. A apreensão da alma sobre a natureza das coisas muda de acordo com seu próprio estado interior. Assim, quando seus órgãos espirituais de percepção operam de uma forma que concorda com a natureza e o intelecto penetra sem erro nas essências interiores das coisas, elucidando clara e convincentemente sua natureza e função, então ele percebe as coisas e as pessoas e cada corpo material como eles são de acordo com a natureza, e está ciente de que nenhuma semente de impureza ou viciação está escondida dentro deles. Mas quando seus poderes operam de uma forma que é contrária à natureza, e estão em um estado de autoantagonismo, ele percebe as coisas da mesma forma de uma maneira que não está de acordo com a natureza; sua beleza natural não o exalta a uma compreensão de seu Criador, mas por causa de suas próprias proclividades apaixonadas o engolfa em autodestruição.
53. Se enquanto estiveres engajado no trabalho ascético e na dificuldade Deus se afastar de ti por causa de algum lapso corporal, ou lapso de língua ou pensamento, não consideres isso estranho ou inoportuno. O lapso é teu e devido a ti mesmo. Se tu mesmo não tivesses primeiro te entregado a algum pensamento novo, arrogante e nocivo sobre ti, ou se não tivesses em arrogância tratado alguém com desdém ou o criticado por sua fraqueza humana, tu terias reconhecido tua própria falibilidade e Deus em Seu justo julgamento não teria se afastado de ti. Aprende com isso a não julgar (cf. Mt 7:1), a não pensar muito bem de ti (cf. Rm 12:3), e a não desprezar os outros (cf. 1 Cor 4:6).
54. Quando tiveres caído nas profundezas da maldade, não desesperes de teu retorno, mesmo que tenhas sido levado aos recônditos mais profundos do inferno. Pois se através da prática das virtudes já estabeleceste tua vida ascética em uma base firme, Deus não esquecerá teus trabalhos e dificuldades anteriores, mesmo que as pedras da virtude que colocaste sejam abaladas até o chão pelos mais apaixonados dos vícios. Apenas deves trazer a Ele um coração cheio de contrição por teu lapso, e deves 'lembrar dos dias de antigamente' (cf. Sl 143:5), recordando tua queda com profunda tristeza diante Dele. Ele então rapidamente te visitará enquanto tu tremeres com Suas palavras (cf. Is 66:2), e invisivelmente tocará os olhos de teu coração em luto, reconhecendo a base da virtude que já estabeleceste através de teus trabalhos; e junto com o fervor do espírito Ele te dará força que é maior e mais perfeita do que tua força anterior. Desta forma, a casa da virtude, pacientemente construída, mas depois destruída através da malícia do diabo, será em um espírito de humildade restaurada mais esplendidamente do que antes como Sua eterna morada.
55. Tudo o que nos traz desgraça, seja provocado por homens ou demônios, ocorre através do justo julgamento de Deus a fim de humilhar a arrogante vaidade de nossa alma. Pois Deus, o leme de nossas vidas, deseja que sejamos sempre humildes e que não tenhamos uma visão exagerada, mas modesta de nós mesmos (cf. Rm 12:3); que não tenhamos grandes ideias sobre nós mesmos, mas que olhemos para Cristo e imitemos, na medida do possível, Sua bendita humildade; pois Ele era 'manso e humilde de coração' (Mt 11:29). Aquele que por nossa causa suportou uma morte vergonhosa e injusta deseja que sejamos assim, pois não há nada tão caro a Ele ou que em sua verdadeira virtude tão plenamente concorde com Ele, nada tão apto para nos levantar do monturo das paixões como a mansidão e a humildade e o amor pelos nossos semelhantes. Se estes não estiverem presentes conosco enquanto cultivamos as virtudes, todo o nosso trabalho é em vão e todos os nossos esforços ascéticos são inúteis e inaceitáveis.
56. Aqueles que recém embarcaram na vida ascética são assistidos na prática dos mandamentos e em sua fuga do mal pelo medo do castigo. Mas naqueles que através da virtude avançaram para a contemplação da glória de Deus, este medo é seguido por outro medo, um medo puro (cf. Sl 19:9) que, porque é causado pelo amor, os enche de grande pavor. Isso os ajuda a permanecerem inabaláveis em seu amor por Deus, instilando neles o terror de se afastarem de tal amor. Se os iniciantes na guerra espiritual caem, mas depois se arrependem e se recuperam, eles são novamente cheios do primeiro medo, acompanhado agora de esperança auspiciosa. Mas quando aqueles que atingiram as alturas da contemplação caem delas como resultado da malícia do diabo, eles não recuperam de imediato o segundo tipo de medo. Uma névoa cinzenta e uma escuridão palpável (cf. Ex 10:21) os envolvem, e eles são cheios de desânimo, dor e amargura, juntamente com seu medo anterior de castigo. E se o Senhor dos Exércitos não encurtasse aqueles dias de dor insuportável, nenhum daqueles que caem das alturas da contemplação seria resgatado (cf. Mt 24:22).
57. Quando nossa alma é libertada das importunações persistentes de pensamentos apaixonados, e a chama que atormenta a carne se apaga, devemos reconhecer que o Espírito Santo está ativamente presente dentro de nós, revelando que nossos pecados passados são perdoados e concedendo-nos a impassibilidade. Mas enquanto ainda estivermos cientes da constante importunação de tais pensamentos e nossos órgãos inferiores estiverem acesos como resultado, podemos ter certeza de que a doce fragrância do Espírito está longe de nossa alma, e que nossa alma está totalmente sujeita aos laços ininterruptos das paixões e dos sentidos.
58. 'Vi debaixo do sol', observou o sábio (cf. Ecl 1:3; 9:11), 'um homem que se julgava inteligente, que embora mortal presumia de suas próprias obras e tinha uma alta opinião de sua própria sabedoria humana, mundana e psíquica. Por causa disso, não apenas desprezava os homens simples, mas ridicularizava os mestres cristãos divinamente nomeados e zombava deles por causa de sua forma peculiar de falar, sua deliberada evitação da dicção polida dos acadêmicos e a falta de destreza rítmica em seus escritos. A tal homem, ignorante de que Deus prefere a clareza do pensamento a frases bem elaboradas ou palavras sonoras, eu recomendaria as máximas: "Melhor um cão vivo do que um leão morto" (Ecl 9:4), e "Melhor uma criança pobre e sábia do que um rei velho e tolo, que não mais sabe prestar atenção"' (Ecl 4:13. LXX).
59. A blasfêmia é uma paixão terrível, difícil de combater, pois sua origem reside na mente arrogante de Satanás. Ela perturba todos os que vivem na virtude e de acordo com Deus, mas especialmente aqueles que avançam na oração e na contemplação das coisas divinas. Assim, devemos guardar os sentidos com grande diligência e reverenciar todos os mistérios inspiradores de Deus, as santas imagens e as santas palavras, e estar atentos aos ataques desse espírito. Pois ele nos espreita enquanto oramos e cantamos, e quando estamos desatentos, ele descarrega através de nossos lábios maldições contra nós mesmos e estranhas blasfêmias contra Deus, o Altíssimo, introduzindo-as nos versículos dos salmos e nas palavras de nossas orações. Quando ele trouxer algo assim aos nossos lábios ou semear em nossas mentes, devemos nos voltar contra ele com as palavras de Cristo e dizer: 'Afasta-te de mim, Satanás, cheio de todo odor fétido e condenado ao fogo eterno; que tua blasfêmia caia sobre a tua própria cabeça' (cf. Lc 4:8; Mt 25:41). Então, concentrando nossos pensamentos, devemos de imediato ocupar nosso intelecto com alguma outra matéria, seja divina ou humana, e com lágrimas elevá-lo em direção a Deus; e assim, com a assistência de Deus, seremos aliviados do fardo da blasfêmia.
60. O desânimo é uma paixão que corrompe a alma e o corpo, afetando até mesmo a medula dos ossos — refiro-me a esse desânimo cósmico induzido pela transitoriedade das coisas e que muitas vezes resulta na morte. A tristeza provocada por Deus, no entanto, é extremamente salutar, permitindo que se suporte pacientemente as dificuldades e provações. É uma fonte de compunção para aqueles que lutam e têm sede da retidão de Deus (cf. Mt 5:6), e nutre seu coração com lágrimas. Em tais pessoas, a palavra de Davi se cumpre: 'Tu nos alimentarás com o pão de lágrimas e nos darás lágrimas para beber em grande medida' (Sl 80:5) — o vinho da compunção.
61. A tristeza provocada por Deus é um excelente tônico para aquelas partes da alma corrompidas por más ações, e as restaura ao seu estado natural. Ela dissolve através das lágrimas as nuvens de tempestade da paixão e do pecado e as dissipa do firmamento espiritual da alma, de modo que imediatamente um céu claro aparece nos pensamentos de nosso intelecto, o mar da mente se acalma, a alegria surge no coração e uma mudança ocorre em nossa face. Quando isso é visto por aqueles hábeis em discernir nosso estado interior a partir de nossa aparência exterior, eles exclamarão, como Davi: 'Esta mudança vem da mão direita do Altíssimo' (Sl 77:10. LXX).
62. Não te associes com aqueles que acendem em ti suspeitas sobre teus semelhantes, pois tais suspeitas são falsas, destrutivas e totalmente enganosas. Elas são artimanhas através das quais os demônios tentam engolfar as almas daqueles que progridem na virtude. Pois há apenas uma maneira pela qual os demônios podem empurrá-los para o poço da perdição e do pecado ativo, e é persuadindo-os a abrigar suspeitas malignas sobre o comportamento exterior e o estado interior de seu próximo. Por este meio, os demônios conseguem tê-los condenados junto com o mundo, da maneira indicada pela frase de São Paulo: 'Se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas quando somos julgados, somos castigados pelo Senhor, para que não sejamos condenados com o mundo' (1 Cor 11:31-32).
63. Quando, por causa de nossa negligência, permitimos que os demônios nos seduzam com pensamentos suspeitos sobre outras pessoas — isto é, quando falhamos em controlar o sequestro de nossos olhos — então eles nos incitam a pronunciar julgamento sobre os outros, às vezes até aqueles que são perfeitos na virtude. Se alguém é afável, com um rosto alegre e sorridente, pensamos que ele é propenso ao prazer e às paixões; e assumimos que qualquer um que pareça desanimado e mal-humorado está cheio de arrogância e raiva. Mas não devemos nos preocupar com a aparência das pessoas. É provável que todos julguem mal a esse respeito; pois os homens têm vários caracteres, temperamentos e características corporais, cuja verdadeira avaliação e estudo pertencem apenas àqueles em quem o olho espiritual da alma foi limpo através de profunda compunção, que estão cheios da luz ilimitada da vida divina, e a quem foi dado a conhecer os mistérios do reino de Deus (cf. Mt 13:11).
64. Quando agimos de forma vil em obediência ao nosso eu caído, servimos aos poderes apetitivos e incisivos da alma de uma maneira que é contrária à natureza. Contaminamos a carne com o fluxo nocivo do pecado, escurecemos a alma com a raiva amargurada e nos afastamos do Filho de Deus. Devemos, portanto, limpar a mancha que deriva da serosidade intrínseca do corpo com inundações de lágrimas sinceras. Desta forma, o corpo sujo pela indulgência sensual por causa de sua serosidade natural, por causa de nosso remorso, será, por sua vez, purificado através do fluxo natural de lágrimas; e dissiparemos com a luminosidade da compunção e a doçura de um amor semelhante a Deus a nuvem que escurece nossa alma por causa de nossa raiva amargurada. Assim, seremos mais uma vez unidos com Aquele de quem nos afastamos.
65. Assim como a mancha produzida pela indulgência sensual pressupõe um desejo satânico de cumprir o ato sórdido que ela envolve, assim a purificação que vem de nosso remorso pressupõe um anseio sincero pelo luto e pelas lágrimas que a purificação exige. De acordo com a bondade e a providência supernas de Deus, expelimos e purificamos a indulgência sensual através do luto, e a serosidade funesta da carne através do fluxo de lágrimas. Desta forma, apagamos a impressão de ações aviltantes do intelecto e de imagens sórdidas da alma, revelando cada vez mais plenamente o esplendor de sua beleza natural.
66. Provocado pelo diabo, o libertino colhe o prazer carnal, e suas ações feias induzem a autopoluição. Provocado pelo Espírito Santo, o homem de Deus colhe a alegria da alma, e seus atos de beleza induzem a purificação através de lágrimas, o renascimento e a união com Deus.
67. Há em nós dois fluidos naturais que vêm da mesma fonte em nosso ser: o sêmen e nossas lágrimas. Através do primeiro, podemos sujar a vestimenta de nossa alma, através do segundo, podemos limpá-la novamente. A mancha que vem de nosso ser tem que ser lavada com as lágrimas que vêm da mesma fonte. Caso contrário, é impossível para nós limpar esta contaminação autogerada.
68. A alma discordante, impulsionada pelo que é vil, sempre age de uma maneira que termina em algum prazer fugaz; mas a alma purgada de hábitos viciosos trabalha para alcançar a bem-aventurança duradoura. É maravilhoso como a segunda forma de prazer restringe a primeira, suavizando a dor gerada pela autocomplacência.
69. Às vezes, o fluxo de lágrimas produz um sentimento acre e doloroso no órgão de percepção espiritual do coração, às vezes induz deleite e uma sensação de júbilo. Assim, quando através do arrependimento estamos no processo de nos limpar do veneno e da mancha do pecado e, acesos pelo fogo divino, as lágrimas quentes do arrependimento fluem de nós, e quando nossa consciência é, por assim dizer, atingida pela angústia do coração, então experimentamos esse sentimento acre e doloroso tanto espiritual quanto perceptivelmente. Mas quando fomos em grande parte limpos por tais lágrimas e alcançamos a liberdade das paixões, então, revigorados pelo Espírito divino, nosso coração puro e tranquilo, somos cheios de inefável ternura e deleite pelas lágrimas alegres provocadas pela compunção.
70. Lágrimas de arrependimento são uma coisa, lágrimas que fluem por causa da compunção divina, outra. As primeiras são como um rio em cheia que varre todos os bastiões do pecado; as segundas são para a alma como a chuva ou a neve para um campo, fazendo-o produzir uma colheita abundante de conhecimento espiritual.
71. Lágrimas não são a mesma coisa que compunção, e há uma grande diferença entre elas. As lágrimas vêm da transformação de nossa maneira de viver e da lembrança de nossos lapsos passados, como se fogo e água fervente estivessem purificando o coração. A compunção desce de cima como o orvalho divino do Espírito, confortando e revigorando a alma que recém entrou com fervor nas profundezas da humildade e atingiu a contemplação da luz inabordável, clamando de alegria como Davi clamou: 'Passamos pelo fogo e pela água; e tu nos trouxeste para um lugar onde a alma é revigorada' (Sl 66:12. LXX).
72. Ouvi pessoas dizerem que não se pode alcançar um estado persistente de virtude sem se retirar para o deserto, e fiquei admirado que eles pensem que o ilimitável poderia ser confinado a um local particular. Pois o estado de virtude é a restituição dos poderes da alma à sua antiga nobreza e a convergência das virtudes principais em uma atividade que concorda com a natureza. Tal estado não é alcançado adventiciamente, por influências externas; ele é implantado em nós em nossa criação em virtude de nossa consciência divina e espiritual endêmica; e quando somos impulsionados por esta consciência interior de acordo com nossa verdadeira natureza, somos levados para o reino dos céus que, nas palavras de nosso Senhor, está 'dentro de nós' (cf. Lc 17:21). Assim, o deserto é de fato supérfluo, visto que podemos entrar no reino simplesmente através do arrependimento e da guarda estrita dos mandamentos de Deus. A entrada no reino pode ocorrer, como Davi afirma, 'em todos os lugares de Seu domínio'; pois ele diz: 'Em todos os lugares de Seu domínio, bendize o Senhor, ó minha alma' (Sl 103:22).
73. Se estiveres nas fileiras do exército imperial, lutando junto com outros sob o comando de generais e capitães, e ainda assim falhares em fazer algo nobre ou ousado na batalha contra o inimigo ou mesmo em pôr um único deles para fugir, como serás capaz de lutar sozinho entre tantos inimigos ou de realizar qualquer feito de estratégia brilhante, inexperiente como és na guerra? E se isso é impossível em assuntos humanos, é ainda mais assim onde as coisas divinas estão em questão. Se fugires para o deserto, como reconhecerás os ataques dos demônios, os assaltos abertos e secretos das paixões? Como serás capaz de atacá-los tu mesmo, a menos que tenhas sido primeiro bem treinado em frustrar tua própria vontade, habitando com um grupo de irmãos sob um líder experiente em tal guerra invisível e espiritual? E se fores incapaz de lutar mesmo em teu próprio nome, então é claramente inconcebível que o faças em nome de outros e os ensines a derrotar seus inimigos invisíveis.
74. Expulsa de ti a desgraça da negligência e a ignomínia de desdenhar os mandamentos de Deus. Dissipa o amor-próprio e batalha com teu eu caído sem poupar. Busca os julgamentos do Senhor e Seus testemunhos. Despreza a glória e a desonra. Odeia os apetites excitantes do corpo. Evita a gula, porque isso acende teus órgãos inferiores. Abraça a pobreza e a dificuldade. Resiste às paixões. Introverte teus sentidos em direção à tua alma. Interiormente assente em fazer o que é mais nobre. Seja surdo para os assuntos humanos. Gasta toda a tua força na prática dos mandamentos. Chora, dorme no chão, jejua, suporta dificuldades, fica em silêncio e, por último, conhece, não as coisas ao teu redor, mas a ti mesmo. Transcende o estado humilde das coisas visíveis. Abre teu olho espiritual para a contemplação de Deus e reconhece a delícia do Senhor a partir da beleza da criação. E quando desceres dessas alturas de contemplação, fala a teus irmãos sobre a vida eterna e os mistérios do reino de Deus. Este é o propósito da fuga dos homens através do asceticismo mais estrito, e o objetivo final da vida de solidão.
75. Se desejares ver as bênçãos 'que Deus preparou para aqueles que O amam' (1 Cor 2:9), então toma tua morada no deserto da renúncia de tua própria vontade e foge do mundo. Que mundo? O mundo da concupiscência dos olhos, de teu eu caído (cf. 1 Jo 2:16), da presunção de teus próprios pensamentos, do engano das coisas visíveis. Se fugires deste mundo, então a luz raiará para ti, verás a vida que está em Deus, e o remédio de tua alma, isto é, as lágrimas, rapidamente brotarão em ti. Experimentarás a mudança realizada pela mão direita do Altíssimo (Sl 77:10), e a partir desse momento a 'praga' das paixões não 'se aproximará de tua morada' (Sl 91:10). Desta forma, vivendo no mundo e entre as pessoas, serás como um homem que vive no deserto e não vê ninguém. Se não fugires do mundo de tal maneira, não ganharás nada no que diz respeito ao aperfeiçoamento da virtude e à união com Deus simplesmente pela fuga do mundo visível.
76. Tornar-se um monge não significa abandonar os homens e o mundo, mas renunciar à vontade da carne, ser desprovido das paixões. Se foi dito a um grande mestre espiritual, 'Foge dos homens e serás salvo', foi dito precisamente neste espírito; pois mesmo depois de fugir, ele habitou entre os homens e viveu em regiões habitadas junto com seus discípulos. Mas como ele fugia de forma tão assídua em um sentido espiritual ao mesmo tempo em que fugia visivelmente, ele não sofreu nenhum dano por estar com outros homens. E outro grande monge gritou ao sair de uma reunião: 'Fugis, meus irmãos!' E quando perguntado o que ele queria dizer com isso, ele apontou para a boca.
77. Viver juntos em um só lugar é mais seguro do que viver sozinho. As sagradas palavras de Jesus nosso Deus dão testemunho da necessidade de viver juntos; pois Ele diz: 'Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, eu estou no meio deles' (Mt 18:20). Da mesma forma, Salomão fala sobre o perigo de viver sozinho quando diz: 'Ai daquele que está sozinho quando cai; pois ele não tem ninguém para ajudá-lo a se levantar' (Ecl 4:10). E Davi chama aqueles que louvam a Deus em amor e concórdia de benditos quando diz: 'Bendito é o povo que canta em voz alta junto' (Sl 89:15); e ele recomenda a vida em comunidade, dizendo: 'Vejam, quão bom e quão agradável é para os irmãos habitarem juntos' (Sl 133:1). E entre os discípulos de nosso Senhor havia apenas uma única alma e um único coração (cf. At 4:32); e mesmo a encarnação de Deus não ocorreu no deserto, mas em áreas habitadas e entre homens pecadores. Assim, temos necessidade da concórdia da vida comunitária. O isolamento é traiçoeiro e cheio de perigo.
78. 'É necessário que venham as provocações ofensivas', disse o Senhor, 'mas ai daquele por meio de quem tal provocação vem!' (Mt 18:7). O monge que perde seu senso de reverência e se comporta insolentemente, sem temor a Deus, na companhia de seus irmãos escandaliza muitos dos mais simples entre eles. Ele faz isso por seus atos, comportamento e maus hábitos, e por suas palavras e conversa viciosa. Ele corrompe suas almas e mina sua probidade.
79. Se guardares os mandamentos de Deus, não te tornarás um tropeço para os outros, pois não haverá nada ofensivo ou provocador em ti. 'Grande paz têm aqueles que amam a tua lei, e para eles não há tropeço' (Sl 119:165. LXX). Ao contrário, eles são luz, sal e vida, em conformidade com as palavras do Senhor: 'Vós sois a luz do mundo e o sal da terra' (cf. Mt 5:13-14). Luz, porque eles são virtuosos na vida, lúcidos na fala e sábios no pensamento; sal, porque são ricos em conhecimento divino e fortes na sabedoria de Deus; vida, porque através de suas palavras eles trazem à vida aqueles mortos pelas paixões, levantando-os do poço do desespero. Através da luz de suas obras justas, eles brilham diante dos homens e os iluminam; com a doce adstringência de suas palavras, eles revigoram aqueles amolecidos pela lentidão e os libertam da putrescência das paixões; e pela vida presente no que eles dizem, eles dão vida a almas mortas pelo pecado.
80. A paixão da autoestima é um dardo de três pontas aquecido e forjado pelos demônios a partir da vaidade, da presunção e da arrogância. No entanto, aqueles que habitam sob a proteção do Deus do céu (cf. Sl 91:1) o detectam facilmente e quebram suas pontas; pois através de sua humildade, eles se elevam acima de tais vícios e encontram repouso na árvore da vida.
81. Enquanto estiveres progredindo na virtude, este demônio impuro e astuto da autoestima pode te atacar e prever que terás um trono no céu, lembrando-te de todo o teu trabalho, exaltando-o acima do dos outros e até mesmo sugerindo que és capaz de guiar almas. Se isso acontecer, e te tiver sido dado poder do alto para te capacitar a fazê-lo, agarra-te espiritualmente a ele e não o deixes escapar. Uma vez que o tenhas pegado, considera que ato indigno teu provocou seu ataque; e confrontando-o com este ato, diz-lhe: 'Aqueles que se comportam desta forma são dignos de ascender a tais alturas privilegiadas, e tu os consideras qualificados para guiar almas e levá-las à salvação em Cristo? Dize-me, pois eu ficarei em silêncio.' Como ele não terá nada a dizer em resposta, por vergonha ele desaparecerá como fumaça e não te perturbará mais grandemente. E mesmo que não tenhas feito ou dito nada indigno da vida transcendente que abraçaste, ainda assim compara com os mandamentos e os sofrimentos do Senhor, e verás que ficas tão aquém da perfeição quanto uma bacia cheia de água fica aquém do mar. Pois a retidão do homem está tão longe da retidão de Deus quanto a terra está em tamanho dos céus ou uma pulga de um leão.
82. Aquele que foi profundamente atingido pelo amor de Deus descobrirá que sua força corporal não é igual ao seu desejo, pois não há limites para o trabalho ascético em que ele anseia por se engajar. Ele é como alguém consumido pela sede, e o fogo de seu desejo é insaciável. Ele anseia por trabalhar dia e noite, mas é frustrado pela falta de força de seu corpo. Penso que os mártires de Cristo não estavam cientes da dor que sofriam precisamente porque estavam dominados por uma paixão tão enorme. Dominando a si mesmos através de seu amor ardente por Deus, eles não podiam se saciar dos tormentos infligidos a eles, e sentiam que seu desejo de sofrer nunca era aplacado.
83. Aquele que de alguma forma se compara com seus companheiros ascetas ou com os irmãos que vivem com ele não está ciente de que ele se engana e pisa em um caminho alheio a Deus. Ou ele não conhece a si mesmo ou se desviou do caminho que leva aos céus. Mas seguindo este caminho em modéstia de mente, aqueles mais espiritualmente avançados superam as artimanhas do diabo e, alados pela impassibilidade e adornados com a humildade, eles alcançam as alturas da iluminação espiritual.
84. Se fores inflado e cheio de presunção, nunca serás iluminado pela compunção ou alcançarás a graça da humildade. É através disso que a luz da sabedoria de Deus é concedida àqueles com corações contritos, de acordo com as palavras: 'Em tua luz veremos a luz' (Sl 36:9). Pelo contrário, serás envolto na noite das paixões, na qual todas as feras na floresta da natureza do homem andam por aí, e na qual os filhotes ruidosos da presunção — e com isso quero dizer os demônios da autoestima e da impureza — buscam a quem possam devorar e despachar para a boca do desespero (cf. Sl 104:20-21; 1 Ped 5:8).
85. Para o homem que vive como a maioria dos homens, impulsionado pelo espírito de presunção, esta vida presente se torna um mar envolvido pelos poderes do mal; o aspecto noético de sua alma é inundado com a salmoura do prazer sensual, seus poderes triplos assaltados pelas ondas ferozes das paixões. O navio de sua alma, e seu leme, são estilhaçados pela autocomplacência carnal; o intelecto, seu piloto, afunda nas profundezas do pecado e da morte espiritual; e ele é engolfado em um pântano de desânimo. Apenas a calma profunda da humildade pode acalmar aquelas ondas malignas, e apenas sob o fluxo suave de lágrimas a salmoura dos prazeres sensuais pode ser transformada na luminosidade da compunção.
86. Se te escravizaste ao prazer corporal e à indulgência a ponto de estares repleto, precisarás de uma medida correspondente de trabalho ascético e de dificuldade. Assim, uma forma de repleção contra-atacará a outra, a dor contra-atacará o prazer, o trabalho corporal contra-atacará a facilidade corporal, e gozarás de uma felicidade e de um repouso imensuráveis, deleitando-te na fragrância da pureza e da castidade, e saboreando o sabor indescritível dos frutos imortais do Espírito. De maneira semelhante, aplicamos ungüentos de limpeza às manchas em nossas roupas quando elas penetraram tão profundamente que não podemos mais usá-las.
87. Para aqueles que recém se engajaram na guerra espiritual, a doença é salutar, pois contribui para reduzir e subjugar a efervescência da carne. Ela debilita grandemente a carne e atenua as propensões materialistas da alma, enquanto ao mesmo tempo revigora e fortalece a alma, de acordo com as palavras de São Paulo: 'Quando estou fraco, então sou forte' (2 Cor 12:10). No entanto, os benefícios que ela traz aos iniciantes são igualados pelo dano que ela faz àqueles que progrediram nos trabalhos da virtude e agora transcenderam o mundo dos sentidos e entraram no reino da contemplação espiritual. Ela dificulta sua devoção a coisas divinas e endurece a consciência de sua alma com angústia e aflição, escurecendo-a com desânimo e secando sua compunção na seca de seu sofrimento. Paulo sabia disso bem quando, atento a si mesmo em conformidade com a lei do discernimento, disse: 'Eu disciplino meu corpo através da dificuldade e o trago à sujeição através de remédios curativos, para que depois de pregar aos outros, eu mesmo não seja rejeitado' (cf. 1 Cor 9:27).
88. Muitas vezes acontece que a doença ocorre como resultado de um regime irregular e desequilibrado, como quando aqueles proficientes na guerra espiritual jejuam ou estendem seus trabalhos ascéticos excessiva e indiscretamente, ou quando se tornam propensos à gula e à excessiva ingestão, os inimigos da natureza. Assim, o autocontrole é necessário tanto para aqueles que recém-embarcaram no caminho espiritual quanto para aqueles que, agora além do meio do caminho, aspiram às alturas mais elevadas da contemplação; pois o autocontrole é a mãe da saúde, a amiga da pureza e a amada consorte da humildade.
89. A impassibilidade é de dois tipos e assume duas formas principais naqueles bem avançados no caminho espiritual. Eles atingem o primeiro tipo de impassibilidade quando se tornam adeptos na prática das virtudes. Esta impassibilidade, surgindo de várias maneiras como resultado de seu trabalho na prática dos mandamentos, mortifica imediatamente as paixões e corta os impulsos do eu caído; ao mesmo tempo, induz os poderes da alma a agirem de uma maneira que concorda com a natureza, e restaura o intelecto à meditação consciente sobre as coisas divinas. Posteriormente, quando eles embarcam na contemplação das essências interiores dos seres criados, eles atingem em sua sabedoria o segundo e mais perfeito tipo de impassibilidade. Trazendo quietude interior aos seus pensamentos, esta impassibilidade os eleva a um estado de paz intelectual, tornando seu intelecto visionário e profético no mais alto grau: visionário em assuntos divinos, em percepção de realidades supernas e na revelação dos mistérios de Deus; profético em assuntos humanos, destinados a acontecer no futuro distante. Em ambas as formas de impassibilidade, um e o mesmo Espírito está em ação (cf. 1 Cor 12:11): através da primeira, Ele controla e sustenta, através da segunda, Ele dispensa a liberdade da vida eterna.
90. Quando te aproximares das fronteiras da impassibilidade — atingindo uma visão correta de Deus e da natureza das coisas, e de acordo com teu crescimento em pureza ascendendo ao Criador através da beleza de Suas criaturas — serás iluminado pelo Espírito Santo. Nutrindo sentimentos de bondade sobre todos os homens e sempre pensando bem de todos, olharás para todos como puros e santos e estimarás corretamente as coisas humanas e divinas. Não desejarás nenhuma das coisas materiais que os homens buscam, mas, despindo-te da percepção sensorial mundana por meio do intelecto, ascenderás em direção ao céu e em direção a Deus, livre de toda impureza e de toda forma de servidão, ciente em espírito apenas das bênçãos de Deus e de Sua beleza. Assim, cheio de reverência e alegria, e em silêncio indescritível, habitarás no reino divino da abençoada glória de Deus, todos os teus sentidos transformados, e ao mesmo tempo viverás espiritualmente entre os homens como um anjo em um corpo material.
91. Cinco sentidos caracterizam a vida ascética: vigilância, meditação, oração, autocontrole e quietude. Uma vez que tenhas ligado teus cinco sentidos externos a eles, unindo a visão à vigilância, a audição à meditação, o olfato à oração, o paladar ao autocontrole e o tato à quietude, purificarás rapidamente o intelecto de tua alma: refinando-o por meio deles, tu o tornarás impassível e visionário.
92. Um intelecto impassível é aquele que ganhou controle sobre suas próprias paixões e se elevou acima do desânimo e da alegria. Não está sujeito a crises de depressão nem efervescente com altos espíritos, mas é alegre na aflição, contido quando animado e temperado em todas as coisas.
93. Os demônios se enfurecem violentamente contra aqueles que progridem na contemplação, espreitando-os noite e dia. Através de companheiros ascetas, eles provocam provações formidáveis, enquanto através de sua própria ação direta, eles os aterrorizam com ruídos. Mesmo quando estão dormindo, eles os atacam, invejando-lhes qualquer descanso. Eles os assediam de várias maneiras, mesmo que não possam ferir aqueles que se entregaram a Deus. Se um anjo do Senhor Deus não os protegesse, eles não poderiam escapar do ataque dos demônios e das armadilhas da morte.
94. Se estiveres lutando energicamente para praticar as virtudes, fica atento às artimanhas dos demônios perniciosos. Quanto mais avançares em direção às alturas da virtude e mais a luz divina aumentar em tuas orações, e quanto mais perto chegares de revelações e visões inefáveis através do Espírito, mais eles rangerão os dentes ao te verem subindo em direção ao céu, e astuciosamente espalharão suas muitas redes de iniquidade através do firmamento intelectual. Pois não apenas os demônios da luxúria e da raiva, ávidos por carne e bestiais, soprarão sobre ti, mas com malícia acre os demônios da blasfêmia também se levantarão contra ti. Além disso, os poderes e principados visíveis e invisíveis que voam pelo ar, em fantasias nuas, transformando-se em formas estranhas e assustadoras, se agarrarão a ti e te farão tanto mal quanto puderem. Mas se, com o olho de teu intelecto vigilante, te dedicares ao trabalho espiritual da oração e à contemplação das essências interiores da criação de Deus, não serás assustado por sua 'flecha que voa de dia' (Sl 91:5), nem eles serão capazes de invadir teu santuário interior; pois como a escuridão, eles serão repelidos pela luz que está em ti e consumidos em fogo divino.
95. Os espíritos do mal estão extremamente assustados com a graça do Espírito divino, especialmente quando ela está abundantemente presente em nós ou quando fomos purificados através da meditação e da oração pura. Não se atrevendo a invadir nosso santuário interior quando somos iluminados por essa fonte, eles tentam nos assustar e nos perturbar por meio de fantasias, ruídos assustadores e gritos sem sentido, para nos desviar da vigília e da oração. Eles não nos poupam mesmo quando permitimos um pouco de sono no chão: invejando-nos o menor descanso de nossos trabalhos, eles nos atacam e nos tiram o sono dos olhos com alguma comoção ou outra, pensando por tais meios tornar nossa vida mais difícil e dolorosa.
96. Como podemos aprender por experiência, os espíritos das trevas parecem assumir uma forma corporal sutil. Isso pode ser uma ilusão que eles produzem enganando nossos sentidos, ou pode ser que eles sejam condenados a assumir tal forma como resultado de sua queda milenar. Em qualquer caso, eles se entrelaçam impetuosamente com a alma que luta enquanto nosso corpo servil a atrai para o sono. Isso me parece ser um tipo de teste para uma alma que recém-transcendeu a baixa condição do corpo: ele fornece uma oportunidade para o aspecto incisivo e viril da alma provar seu valor, reagindo com ira e violência contra os demônios que a ameaçam de forma tão formidável. A alma atingida por um amor intenso por Deus e fortalecida pelas virtudes principais não apenas se oporá aos demônios com justa indignação, mas na verdade revidará se, isto é, tendo se tornado tão completamente presos à terra como resultado de sua queda da luz divina primordial, eles realmente tiverem uma aparência perceptível.
97. Antes de se entrelaçarem com a alma e a derrotarem, os demônios muitas vezes perturbam os órgãos de percepção da alma e tiram o sono de nossos olhos. No entanto, a alma cheia de coragem viril pelo Espírito Santo não prestará atenção à fúria amarga de seu ataque, mas dissipará suas fantasias e os porá em fuga apenas por meio do sinal vivificador da cruz e da invocação de Jesus nosso Deus.
98. Se embarcaste na tarefa de despojar os espíritos hostis através da prática das virtudes, assegura-te de que estás completamente armado com as armas do Espírito. Estás ciente de quem é que tu queres despojar? Eles são inimigos, com certeza, mas noéticos e sem carne, enquanto tu ainda estás batalhando com o corpo sob o Rei dos espíritos e nosso Deus. Deves perceber que eles lutarão contra ti mais amargamente do que antes e que haverá muitos que usarão seus truques contra ti. Se, então, não os notares e não os despojares de seus espólios, eles te farão prisioneiro, enchendo tua alma de grande amargura; ou então eles te sujeitarão a tentações malignas e angustiantes, agindo como um espinho grave em tua carne (cf. 2 Cor 12:7).
99. Uma boa fonte não produz água turva e com cheiro fétido, que exala a matéria mundana; nem um coração que está fora do reino dos céus pode jorrar rios de vida divina, emitindo o doce sabor de mirra espiritual. 'Uma fonte da mesma abertura jorra água doce e amarga? Pode a figueira dar azeitonas, ou uma oliveira, bolotas?' (cf. Tg 3:11-12). Da mesma forma, uma única fonte no coração não pode produzir simultaneamente imagens boas e más. Pelo contrário, 'o homem bom do bom tesouro de seu coração tira o que é bom; e o homem mau do mau tesouro de seu coração tira o que é mau', como disse o Senhor (Lc 6:45).
100. Assim como é impossível sem óleo e chama para uma lâmpada queimar e assim dar luz àqueles na casa, assim é impossível sem o fogo divino e o Espírito para uma alma falar claramente sobre assuntos divinos e iluminar os outros. Pois todo dom perfeito concedido à alma devota 'é de cima . . . do Pai das luzes, em quem não há variabilidade ou sombra devida à mudança' (Tg 1:17).
NOTAS: