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id da página: 11039 Boehme Hartmann XV

Vallin GVEI-415-443


VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959

Terceira parte — A estrutura temporal do instante negativo (individualidade e nada)


Capítulo II - A EXPERIÊNCIA DO NADA E DA INDIVIDUALIDADE NEGATIVA

Como a individualidade se revela para nós no instante negativo? Para responder a essa pergunta, primeiro teremos que determinar a natureza da experiência do nada que é oferecida à subjetividade negativa por ocasião de suas relações: 1° Com ela mesma, o que nos revelará, sobretudo, o aspecto de descontinuidade do nada; 2° Com o existente em geral, o que nos revelará seu aspecto de indeterminação da pobreza; 3° Com os outros, o que nos permitirá trazer à luz, ao lado de uma forma bastante "passiva" da experiência do nada (arrependimento, tédio), uma forma mais "ativa" (ódio, malícia etc.). ). Teremos então que determinar os limites dessa experiência, colocando o problema da sinceridade e da lucidez da consciência negativa.

A) Subjetividade e temporalidade negativas


  • Estrutura da temporalidade negativa
    • O primeiro aspecto do nada é a discontinuidade que separa ontologicamente a aparência abolida, rejeitada no passado, da realidade presente. Esta descontinuidade funda a indeterminação de pobreza do existente visado pela consciência.
    • A consciência negativa surge da tomada de consciência do fracasso da intencionalidade estética, que visava a singularidade sem mediação de essências, e da ilusão de uma temporalidade desessencializada.
    • Sua intencionalidade, embora ainda direcionada ao mundo, manifesta-se como o fracasso de um desejo impotente.

  • A Relação com o Passado e o Corpo
    • O passado negativo: A consciência negativa tenta seguir a aparência atual para o nada do passado. O passado não é enriquecedor, mas uma ausência irrevogável, fonte do sentimento de arrependimento.
    • A individuação pelo corpo: A consciência negativa tem consciência de ser seu corpo, mas se sente separada dele. O corpo não é fonte de plenitude, mas o instrumento que permite a apreensão da negatividade.
    • A dor física é a experiência fundamental que revela à subjetividade a sua individualidade, mas também a sua separação do seu próprio corpo.

  • O Tempo como Nada
    • O tempo é uma potência negativa e dispersiva que constitui o ser da consciência negativa. Sua direção é um movimento destrutivo em direção ao passado.
    • A temporalidade negativa é discontínua, pois separa a subjetividade do existente, e contínua, pois é um fluxo ininterrupto de um vazio que nivela o passado, o presente e o futuro.
    • O presente não é um momento de plenitude, mas um instante de passagem para o nada do passado.

  • Os Sentimentos da Consciência Negativa
    • A angústia (angoisse), embora um sentimento da consciência negativa, é secundária, pois pressupõe uma esperança implícita no futuro.
    • O desespero (désespoir) é o sentimento mais profundo e característico da consciência negativa. É a realização de que o nada do ser já é uma realidade presente, uma "morte espiritual" que torna a morte física um evento trivial.
    • A consciência negativa transcende o tempo, pois o tempo não traz conteúdo novo ou real, mas é apenas um movimento vazio e estéril.

  • Os Paradoxos da Subjetividade Negativa
    • Finitude e infinitude: A consciência negativa é a realização da pura limitação existencial que coincide com uma infinitude de pobreza, uma "infinitude ao contrário".
    • Liberdade e necessidade: A liberdade da consciência negativa é uma liberdade de indiferença, um movimento vazio não determinado por nenhum conteúdo. Esta liberdade coincide com a pura necessidade de um movimento sem fim.
    • Interioridade e exterioridade: A subjetividade negativa é pura interioridade, pois é um movimento espiritual. No entanto, ela é extrema exterioridade, pois está totalmente separada de qualquer conteúdo substancial, sendo apenas um movimento em direção ao mundo, que ela não pode possuir.

  • A Individuação e a Solidão
    • A individuação da consciência negativa é uma pura negatividade, uma singularidade vazia e sem conteúdo positivo.
    • Esta solidão radical e anônima é a raiz da despersonalização. A consciência negativa se identifica com o puro movimento de transdescendência para o mundo, o que a impede de retornar à sua intimidade singular.