VITRAY-MEYEROVITCH, Eva de. Mystique et poésie en Islam. Djalal-ud-dîn Rumî et l’Ordre des Derviches Tourneurs. Paris: Desclée de Brouwer, 1972
- A dança e a música como vias para Deus
- A crença de Djalal-ud-Din Rumi de que "vários caminhos levam a Deus" e que ele escolheu o da dança e da música.
- O Samâ como um ofício litúrgico: a resposta de Rumi a um amigo que o chamou para a oração da tarde, dizendo que a música também é uma forma de oração, "uma interiormente para Seu amor e Seu conhecimento".
- O Mathnawi e a música como meio de comunicação com o divino:
- A abertura do Mathnawi com o convite para ouvir a flauta de junco: "Escuta a flauta de junco... Ela se queixa da separação."
- A crença de que um segredo está escondido na música: "Nas cadências da música, ele diz ainda, está escondido um segredo; se eu o revelasse, ele abalaria o mundo."
- A voz do Amado que emerge do rebab, mesmo sendo feito de materiais "secos".
- A música como meio de despertar a alma e evocar a reminiscência
- A função da música em despertar a alma, criando um estado de waqt (instante inefável), pois a faz "se lembrar".
- A conexão entre a interpretação dos sufis do mithaq corânico e a tradição da anamnese.
- A observação de Jâmblico de que a música estabelece uma comunicação com o mundo divino, fazendo a alma reencontrar o eco das "músicas eternas".
- A interpretação de Junayd sobre a dança extática dos sufis:
- Quando Deus questionou as almas no Pacto primordial, dizendo "Não sou eu vosso Senhor?", uma doçura foi implantada nas almas, e ao ouvirem a música, "essa lembrança se desperta e as agita".
- O concerto espiritual como meio de conhecimento iluminativo e de reconhecimento, uma saída da agnosia.
- O alerta de Al-Hallaj contra a imitação sem compreensão: "O samâ do lado de fora, é uma comoção — e do lado de dentro é um aviso. Aquele que sabe captar a alusão (divina, isharah) tem o direito de beber no sama um aviso. Mas ao querer imitá-lo sem compreender, atrai sobre si uma comoção, se expõe à prova; entrega as rédeas a uma sugestão de deleite; é como aquele que se mata com a própria mão."
- A dança espiritual e a condenação do misticismo falso
- O conselho de Mawlana sobre a dança:
- "Dance apenas quando estiver mortificado: / É no campo de batalha (espiritual) que dançam e giram os homens (santos); é em seu próprio sangue que eles dançam."
- "Quando eles são libertados do império do eu, eles batem as mãos; quando eles escapam de sua própria imperfeição, eles dançam."
- A oposição do Islã ortodoxo às sessões de música e as advertências de grandes mestres do sufismo, como Juan de la Cruz, contra a "sensualidade espiritual" e a "idolatria de seu próprio 'estado' espiritual".
- As distinções sobre o nível de audição de acordo com o progresso espiritual:
- Aqueles que ouvem com sua natureza (tabc), com seus sentimentos espirituais (hal), ou por Deus (Haqq).
- A audição de noviços e iniciantes versus a dos místicos avançados (siddiqin) e dos gnósticos ('arifin).
- A visão de Algazel sobre a busca da êxtase: ele admite que a êxtase pode ser buscada artificialmente, desde que a intenção seja pura.
- A citação de um hadith por Al-Ghazali: "Que aquele que não consegue chorar ouvindo o Alcorão finja chorar e se entristecer, pois estes estados simulados no começo acabarão por se tornar reais."
- A aversão de Mawlana por qualquer sensualidade espiritual:
- Ele recomendava não amar o amor, mas o Amado, e em sua dança mawlawi, o dervixe deve parar instantaneamente ao ouvir um sinal, para evitar que a lucidez seja aniquilada.
- O conselho de Mawlana sobre a dança:
- A dança dos Mawlawis como representação do Cosmos
- A descrição das cerimônias do Samâ, onde os Mawlawis, ao som da flauta, giram em um movimento que representa o "turbilhonamento do Cosmos".
- O verso de Rumi que conecta a dança do dervixe ao movimento celestial: "Ó céu que giras em círculo em torno de nossas cabeças! No amor do sol, tu exerces o mesmo ofício que eu."
- A dança dos átomos no ar:
- "Ó dia, levanta-te! os átomos dançam, / As almas, enlouquecidas de êxtase, dançam, / Ao ouvido, eu te direi onde sua dança o leva. / Todos os átomos no ar e no deserto, / Sabei bem, são como insensatos, / Cada átomo, feliz ou miserável, / Está apaixonado por este Sol do qual nada pode ser dito."
- A natureza que se associa à alegria triunfal:
- "Eu vejo... as águas que jorram de suas nascentes... / Os galhos das árvores que dançam como penitentes, / As folhas que batem as mãos como menestréis."
- A simbologia de cada gesto e vestimenta na cerimônia do Samâ:
- As vestes brancas (o sudário), o manto preto (o túmulo), o chapéu alto de feltro (a lápide).
- O Sheikh como representante de Mawlana, o polo (qutb), o ponto de interseção do atemporal e do temporal.
- A progressão da cerimônia:
- O canto de louvor ao Profeta (na't-i-Sherif), a improvisação da flauta (taqsim), o bater das baquetas, e o início do "giro de Sultan-Walad".
- Os dervixes dando três voltas, simbolizando as três etapas em direção a Deus: shari'at (a via da ciência), tariqat (a que leva à visão), haqiqat (a que conduz à união).
- O ato triunfal de soltar o manto preto, simbolizando a "segunda nascimento".
- O pedido de permissão para dançar e a extensão dos braços, com uma mão voltada para o céu e a outra para a terra, para espalhar a graça.
- A simbologia do círculo dos dervixes:
- A união na pluralidade, o círculo da existência, a lei do universo (planetas girando em torno do sol).
- Os dois semicírculos representando os arcos de descida da alma na matéria (nuzul e min Allah) e de subida em direção a Deus (su'ud e il'Allah).
- A dança do Sheikh, que entra no quarto giro, representando o sol e seu resplendor.
- O momento supremo do tawhid (união realizada), seguido da recitação do Alcorão e do dhikr mawlawi: Hu (Ele).
- O simbolismo da flauta de junco
- A melancolia e a nostalgia da flauta de junco: "Inesquecível lamento da flauta, em sua melodia solitária!"
- A imagem de Rabindranath Tagore, que pede a Deus para ser um junco que Ele possa encher com Sua música, ecoada por Mawlana: "Nós somos a flauta, nossa música vem de ti..."
- O relato de Rumi sobre a tradição islâmica de que a "primeira coisa criada por Deus foi a pena de junco", para explicar a origem do ney.
- A história de 'Ali, que, incapaz de guardar os segredos revelados pelo Profeta, os conta a um poço.
- Um junco cresce do poço e um pastor faz dele uma flauta, cuja música encanta a todos.
- O Profeta reconhece na melodia o "comentário dos mistérios" que ele havia confidenciado a 'Ali.
- A citação de Rumi do prólogo do Mathnawi:
- "É do fogo, não do vento, o som do junco", e "É o fogo do amor que queima no junco, / É o fervilhar do amor que palpita no vinho."
- O lamento do junco por ter sido "separado da cana-de-açúcar".
- O ney como emblema do homem de Deus
- O comentário de um dervixe de Konya sobre a analogia entre o ney e o Insan-ul-kamil (o homem de Deus):
- Ambos "se queixam da separação", "têm feridas no peito" e "estão cercados de laços".
- Ambos são "secados" e "vazios", preenchidos apenas pelo "ar do músico" ou pela "Voz divina".
- O homem de Deus, ao ser trazido do "juncal da pré-eternidade", é esvaziado dos "desejos das coisas carnais" e se torna um instrumento para a vontade de Deus.
- A diversidade de compreensão da música do ney, que pode ser "veneno" ou "antídoto" dependendo do grau espiritual do ouvinte.
- O ney como emblema da alma do santo que lamenta estar longe do mundo espiritual e desperta em outros a mesma nostalgia da verdadeira pátria.
- O comentário de um dervixe de Konya sobre a analogia entre o ney e o Insan-ul-kamil (o homem de Deus):
- A dança de Rumi como manifestação espontânea
- Aflaki relata que o Samâ foi instituído na ordem dos Mawlawis após o desaparecimento de Shams-ud-Din de Tabriz.
- Mawlana, em sua dor, ordenou a criação de um violino de seis ângulos, simbolizando o mistério dos "seis ângulos do mundo".
- O Samâ como uma manifestação espontânea de emoção:
- Sultan-Walad conta que Rumi, após a morte de Shams, "quase não parava mais de dançar".
- O Samâ-raye, dança nas ruas, como manifestação de alegria.
- A dança de Mawlana em resposta a palavras ou situações banais, que adquirem um sentido místico.
- O episódio no bazar de Konya, onde um vendedor de peles de raposa gritava "Dilkou! Dilkou!", e Mawlana o interpretou como "Onde está o coração?".
- O episódio no moinho, onde Rumi dançou em frente à mó, ouvindo-a recitar "Subbuh! Quddus!".
- A dança de Mawlana ao som dos martelos do ourives, Sheikh Salah-ud-Din Zarkub.
- A participação mística em um universo cheio de "palavras confusas" que "fazem alusão a algo inefável".
- A percepção do divino por Rumi, não como Majestade (Djalal), mas como Beleza (Djamal), como em Leonardo da Vinci.
- A concepção neoplatônica do microcosmo, onde o homem está no centro do universo como um "eco sonoro".
- A superação da audição e a busca da visão
- A necessidade de transcender a dança e a música, e o Samâ deve terminar em silêncio.
- O Samâ, que simboliza a experiência mística do sensível ao suprassensível, deve ser ultrapassado.
- O fim do Mathnawi em silêncio: Ruysbroeck e São João da Cruz falam sobre "melodias mudas" e o "concerto silencioso".
- A busca da certeza da visão ('ayn-ul-yaqin) que vai além da audição (ilm-ul-yaqin), levando à união entre o sujeito e o objeto.
- O episódio de Ibrahim ibn Adham e a história da noz
- A conversão ao Sufismo de Ibrahim ibn Adham, narrada no Livro IV do Mathnawi, que ouve seus músicos para "se rememorar" da "alocução divina".
- A crença dos filósofos de que as melodias vêm da "revolução da esfera celeste".
- A crença dos crentes de que as melodias são "influências do Paraíso".
- "Todos nós fizemos parte de Adão, nós ouvimos estas melodias no Paraíso. / Embora a água e a argila de nossos corpos tenham feito cair sobre nós uma dúvida, algo destas melodias nos volta à memória."
- O Samâ como "alimento dos amantes de Deus", pois "contém a imagem da paz".
- A história do homem sedento que joga nozes em um riacho, não para as recuperar, mas para ouvir o som da água.
- "Meu objetivo é que o som da água me chegue; e também, que eu possa ver estas bolhas na superfície da água."
- O homem sedento, assim como o peregrino na Caaba, gira em torno do "som da Água".
- A revelação de Rumi a Husam-ud-Din, o seu "objeto" e "meta" na composição do Mathnawi, pois ao criá-lo, seu objetivo é ouvir a voz dele, "a voz de Deus".
- "Há uma união além de toda descrição ou analogia entre o Senhor do Homem e o espírito do homem."