Jean-Louis Michon: GLOSSÁRIO DA MÍSTICA MUÇULMANA
A «lei» [religiosa] (al-sharia) é a responsabilidade (taklif) que incumbe aos órgãos externos; a «via» [espiritual] (al-tariqa) é a purificação das consciências; quanto à «verdade» (al-haqiqa) é o fato de ver Deus (Al-Haqq) nas irradiações epifânicas.
A lei consiste a servi-lO; a via a ir para Ele; a verdade a contemplá-lO.
Desde o instante que Deus — Al-Haqq — manifestou sua luz (tajalla) entre os dois polos [da manifestação: diddan, seja: o mundo dos Nomes e Qualidades e aquele das formas], iluminando os lugares epifânicos da Magnificência senhorial [e fazendo descer Sua radiação até] nos receptáculos da obediência, a «lei» e a «verdade» se tornaram manifestas. Assim a contemplação da Magnificência enquanto tal é «verdade» enquanto o respeito das normas que convêm aos receptáculos, pela observância (ibada) e obediência (ubudiyya) é «lei». Quanto à «via», ela visa apurar as consciências para prepará-las a receber a iluminação das realidades divinas.
A lei visa portanto a apurar os órgãos externos, a via à apurar as consciências, enquanto a verdade embelece o fundo dos corações.
Alguns dizem que a lei é a essência da verdade, posto que ela é a obrigação divina, e que a verdade é a essência da lei, tendo sido prescrita antes desta.
Para os sufis, entende-se por sharia tudo aquilo que conduz a uma coisa, ou todos os meios de obter uma coisa. Assim, todos os meios (asbab) são «leis» e todas as metas são verdades; neste caso, o sensível é a «lei» do inteligível posto que este último é apreendido pela interpretação da primeira; o combate interior é a «lei» da contemplação; a humildade é a «lei» da grandeza; a pobreza é a «lei» da riqueza, etc. Assim, o trabalho e a plantação são a «lei» da colheita, donde o dito: «Quem planta as leis colhe as verdades e quem planta as verdades colhe as leis». O segundo membro da frase significa que as verdades [quando elas se implantam no coração do homem] o fazem voltar às leis. Como o exprime o poeta: «Os frutos que colhes são aqueles que plantastes; assim o quer o costume do tempo a lei ordinária dos encadeamentos de causa e efeito» (v. karma).