Escrituras
Expressei minha visão que posto que não temos Mestres completamente despertos disponíveis para nos manobrar na correta orientação, devemos proceder via compreensão objetiva. Enfim, não temos Mestres vivos disponíveis no Ocidente atualmente, até onde saiba, mas temos os grandes Mestres despertos do passado cujas palavras foram preservadas, e temos os sutras, e, particularmente os supremos sutras Prajnaparamita. Ora, eles não são fáceis; ora, as traduções — pelas quais, no entanto deveríamos ser humildemente gratos — não são tão satisfatórias; e ora, não os estudamos como deveríamos. Minha visão, se vale alguma coisa, é que para todos os fins e intenções nada mais temos que importe. É nosso infortúnio que os pictogramas chineses sejam destituídos de gramática e sintaxe, que a maioria das palavras tenham muitos significados, e que somente alguém que compreendeu totalmente o significado do texto possa realmente estar qualificada para traduzi-lo. Além disso, muitos Mestres falaram em dialetos locais, seu próprio método tendia ao uso de gíria e linguagem coloquial cujo sentido só pode ser suposto, e eles sem dúvida usavam muitas palavras comuns em um sentido técnico especial que é difícil de recuperar. Tudo isso é nossa carga, e devemos suportá-la o melhor possível.
Não somos ajudados por nossas próprias tendência deploráveis de mal usar nossas próprias palavras. Tome, por exemplo, «meditação». Exatamente o que as pessoas mais qualificadas que a usam significam por ela não sei, mas todos sabemos o que o homem normal significa por ela. Juan de la Cruz, o cristão iluminado cuja compreensão está em perfeita conformidade com aquela dos Mestres orientais, a definia claramente: dizia, «meditação, que é atividade mental discursiva por meio de imagens, formas e figuras que são produzidas imaginativamente», e prossegue dizendo que é a primeira coisa a se livrar. Os grandes Mestres diziam exatamente o mesmo, com efeito isso pode ser afirmado ser o ponto focal de seu ensinamento, e, mesmo se não tivesse afirmado isto, qualquer um que compreenda o que eles requerem de nós deve rapidamente ver isto por si mesmo. No entanto, presumivelmente porque é um dos significados encontrados em um dicionário para a palavra Dhyana, nos defrontamos com praticamente nada senão esse «método» de «alcançar» iluminação. Naturalmente qualquer um pode tomar qualquer palavra e declarar que a usa para significar o oposto, mas realmente isso não parece ser uma boa ideia, nem uma que é calculada para ajudar o peregrino lutador. O significado real de Dhyana é muito bem conhecido, embora nenhuma única palavra o cubra em nossas línguas; destas «consciência» (ing. awareness) é o mais próximo, implicando um estado vívido de consciência livre de todo «apego» ou mentação de qualquer tipo1 .
Enfim, há muitas outras tais palavras, sem esquecer a infortunada «Zen». Pode-se ter a mais alta consideração pelo desenvolvimento japonês do Chan, mas Zen é isso, nada além disso. Além do mais Chan não está morto, não morreu quando a doutrina foi levada para o Japão; esta peça de propaganda não é mais sustentável agora que sabemos dos grandes Mestres Chan, incluindo Han Shan que restaurou os monastérios, até o grande velho Mestre — Ancestral, como o chamam — Hsu Yun que morreu ano passado com a idade de 119 anos. Eles preservaram em grande pureza o ensinamento e métodos dos Mestres Tang, e quando nos voltamos para eles descobrimos neles uma revelação, e é certamente tão impreciso quanto é absurdo aplicar a eles e seu ensinamento o termo japonês «Zen» que representa uma tradição consideravelmente diferente. O que possa querer qualquer propaganda e comércio, os estudantes sérios e os acadêmicos deveriam usar palavras em seu sentido próprio.
Quanto a termos como «natureza-de-si» que raramente tem, se jamais, qualquer coisa a ver com o que pensamos como «si», pois nada indica de pessoal, mas mente subjetiva no sentido não-dual de subjetividade; as palavras «mente», «Mente Una», etc., raramente têm o sentido objetivo que normalmente os damos, e assim como wu nien não significa apenas «nenhum pensamento», wu wei não implica «inação» mas, ao invés, «espontaneidade», assim «chih» não significa usualmente «conhecimento», e «prajna» não sempre ou até talvez frequentemente signifique o que entendemos como «sabedoria».
Se isto é mantido em mente o verdadeiro sentido das palavras dos Mestres Despertos rapidamente se tornarão mais claros, e se os relermos a cada seis meses ou mais, colheremos uma colheita ainda mais rica de compreensão, até, finalmente, nós também termos inteira e perfeitamente compreendido.
NOTAS: