Ostanes e seus companheiros disseram a Cleópatra: «Em ti está oculto todo o mistério estranho e terrível. Ilumina-nos, derramando tua luz ao longe sobre os elementos. Dize-nos como o mais alto desce ao mais baixo, e como o mais baixo sobe ao mais alto; como o elemento médio se aproxima do mais elevado, para lograr unificar-se com ele, e qual é o elemento que atua sobre eles; como as águas benditas descem do alto para visitar os mortos estendidos, encadeados, oprimidos nas trevas e na sombra, no interior do Hades; como o remédio da vida lhes chega e os desperta, tirando-os de seu sono, em sua morada particular; como penetram as águas novas, produzidas no princípio do acamamento e durante sua duração, e vindas pela ação do fogo. A nuvem as sustém: eleva-se do mar, sustentando as águas.
Ora, os filósofos, considerando as coisas assim manifestadas, enchem-se de alegria. E Cleópatra lhes disse: «As águas, ao chegarem, despertam os corpos e os espíritos aprisionados e impotentes.» Pois, disse ela, são de novo oprimidos; e de novo serão encerrados no Hades. Mas, pouco a pouco, desenvolvem-se, remontam, revestem-se de cores variadas e gloriosas, como as flores na primavera; a própria primavera é alegre e regozija-se de sua beleza.
Ora, digo-vos a vós, que sois gente sensata: as plantas, os elementos, as pedras, quando as removeis de seus lugares [naturais], parecem em estado de maturidade. Não o estão, no entanto, antes que tudo tenha sofrido a prova do fogo. Quando tiverem revestido a glória que vem do fogo, e a cor esplendorosa [que daí resulta], então manifestar-se-á sua glória oculta, a beleza tão buscada e a transformação divina produzida pela fusão. Pois são nutridos no fogo, como o embrião, nutrido no ventre da mãe, cresce pouco a pouco. Quando o mês regulamentar se aproxima, [o embrião] não é impedido de vir à luz. É assim que procede esta arte admirável. As ondas e os fluxos sucessivos desagregam os produtos no Hades, no túmulo, onde estão depositados. Mas, quando o túmulo tiver sido aberto, remontarão do Hades, como o embrião sai do ventre [de sua mãe].
Os filósofos, contemplando a beleza de sua obra como a terna mãe [contempla] o fruto de suas entranhas, buscam então [como a nutrirão]; assim como a mãe, por seu filho. Isto é o que esta arte realiza, empregando, em lugar de leite, as águas [que prepara]. Imita o desenvolvimento da criança, o modo como é formada e conduzida à perfeição. Tal é o mistério oculto sob o selo.
Le Livre de Comarius, in M. Berthelot, Collection des anciens Alchimistes grecs (1888), t. III, p. 281-282.