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Literatura

Quanto mais palavras...

Essa postura mental tão arguta quanto ao que está próximo e tão cega para o todo tem sua mais importante expressão num ideal que se poderia chamar ideal da obra de uma vida que não conste de mais de três tratados. Há atividades intelectuais em que não são os grandes livros que fazem o orgulho de um homem, mas os pequenos tratados. Se, por exemplo, alguém descobrisse que em circunstâncias ainda não observadas as pedras podem falar, não precisaria senão de poucas páginas para descrever e explicar um fenômeno tão revolucionário. Em contrapartida, sobre as justas concepções morais se podem escrever livros e mais livros, e não se trata apenas de erudição, mas de um método, com o qual nunca conseguimos ter clareza quanto às questões mais importantes da vida. Poderíamos dividir as atividades humanas segundo a quantidade de palavras de que precisam; quanto mais palavras, tanto pior o caráter das atividades. Todos os conhecimentos através dos quais nossa espécie passou, das roupas de pele de animais até a aviação, não ocupariam, com suas provas acabadas, mais do que uma biblioteca de bolso; mas um armário de livros do tamanho da Terra não bastaria nem de longe para conter todo o resto, sem falar naquela discussão vastíssima que não se realizou com a pena mas com espadas e correntes. É de se pensar que conduzimos muito irracionalmente nossos assuntos humanos, se não os atacamos conforme a ciência, que teve um progresso tão exemplar.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)