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Literatura

Utopia da exatidão

Vão objetar que isso é utopia! Certamente é. Utopias significam mais ou menos o mesmo que possibilidades; o fato de a possibilidade não ser realidade significa que as circunstâncias com as quais se entrelaça atualmente a impedem de se tornar real, caso contrário ela seria apenas uma impossibilidade; se a soltarmos dessas amarras, e permitirmos que se desenvolva, surgirá a utopia. É semelhante ao que acontece quando um pesquisador vê a mudança de um elemento num fenômeno complexo, e tira disso suas conclusões; utopia é a experiência na qual se observa a possível modificação de um elemento, e os efeitos que isso causa no fenômeno complexo que chamamos vida. Se o elemento observado é a própria exatidão, nós a destacamos e deixamos que se desenvolva, contemplamo-la como hábito de pensamento e postura de vida, e deixamos que exerça sua força exemplar sobre tudo que toca; e chegaremos a uma pessoa na qual se realiza uma paradoxal ligação entre exatidão e indeterminação. Ela possuirá aquele insubornável sangue-frio intencional que é o caráter da exatidão; mas além dessa qualidade, tudo o mais é indeterminado. As relações internas sólidas, garantidas por uma moral, têm pouco valor para um homem cuja fantasia anseia por mudanças; e quando a exigência de realização exata e suprema se transfere do terreno intelectual para o das paixões, vê-se completamente, como dissemos, um resultado singular: as paixões desaparecem, e surge em seu lugar uma bondade semelhante ao fogo original.

Isso é a utopia da exatidão. Não saberemos como esse homem passará o seu dia, já que não pode ficar o tempo todo flutuando no ato da criação, e ele terá talvez sacrificado o fogo doméstico das sensações limitadas em troca de labaredas imaginárias. Mas esse homem exato existe hoje em dia! Como homem dentro do homem, ele vive não só no pesquisador, mas no comerciante, no organizador, no esportista, no técnico, embora por enquanto apenas naquelas principais atividades do dia que não consideram sua vida, mas sua profissão. Pois quem encara tudo tão radical e imparcialmente tem um grande medo de ser radical consigo mesmo; e certamente consideraria a utopia de si próprio uma tentativa imoral contra uma pessoa de ocupação séria.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)