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Literatura

Lei dos grandes números

Chama-se isso, um pouco vagamente, lei dos grandes números. Significa que uma pessoa se mata por esse motivo, uma outra por aquele, mas, tomando-se um grande número de suicidas, o caráter casual e pessoal desses motivos se anula, e permanece... sim, o que permanece? É isso que quero lhe perguntar. Pois, como vê, sobra isso que qualquer um de nós leigos chamará simplesmente a média, e que não sabemos ao certo o que seja. Quero acrescentar que se tentou esclarecer de forma lógica e formal essa lei dos grandes números, por assim dizer como uma obviedade; também se afirmou o contrário, que essa regularidade de fenômenos sem ligação casual entre si não poderia ser esclarecida pelo pensamento comum; e, ao lado de muitas outras análises do fenômeno, afirmou-se que não se tratava apenas de fatos isolados, mas de leis gerais ainda desconhecidas. Não a quero aborrecer com detalhes, nem recordo todos, mas sem dúvida seria importante para mim saber se atrás disso há leis não compreendidas da sociedade, ou se simplesmente, por ironia da natureza, nasce daí a peculiaridade de que nada de peculiar aconteça, e o sentido mais alto seja atingível unicamente pela média da mais profunda absurdidade. Tanto um como o outro saber deveriam ter influência decisiva em nosso sentimento de vida! Pois seja como for, repousa nessa lei dos grandes números toda a possibilidade de uma vida ordenada; e se não existisse essa lei da compensação, num ano não aconteceria nada, e no outro nada estaria seguro, a fome se alternaria com a abundância, haveria crianças de menos ou em excesso, e a humanidade voaria de um lado para outro entre possibilidades infernais e celestiais como passarinhos quando nos aproximamos de sua gaiola.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)