Jacques Bonnet
Excertos de "A Travessia das Águas" publicado em Études Traditionnelles 479, 1983
Mas é um suporte que se desloca, símbolo da divinização (theosis) que transforma o ser humano o fazendo passar do individual ao universal (no curso de um êxtase ou no momento da morte). Esta passagem é representada por um movimento ao longo de um eixo vibrante. No quadro da tradição judeu-cristã, é a subida e descida dos anjos na escada de Jacó, é a elevação da serpente de bronze sobre um mastro porta-bandeira (símbolo axial). O eixo pode ser representado por uma montanha (Sinai, Tabor, Monte das Oliveiras), por uma árvore (Árvore de Vida), uma ponte (arco-iris) e aquilo que se associa a nosso assunto, o rio ele mesmo.
Ainda essa pode ser visada sob três pontos de vista, como distingue René Guénon: pode-se subir a corrente até a fonte, descê-la até o oceano ou atravessar o rio de uma margem à outra por mergulho e subida; é o simbolismo do batismo. Este último caso é evidentemente aquele ao qual se relaciona a lenda de São Cristóvão, mas deve-se notar o traço comum as estas diferentes versões. A descida e a subida dos rios não se faz em linha reta, mas seguindo os meandros do rio, meandros assimilados, na Antiguidade a uma dança, tal qual a "dança das gruas" ou a cabeleira balançando da "deusa de belas tranças" (Bonnet, Artémis d'Ephèse et la Légende des Sept Dormants). E da mesma forma a travessia de um rio se faz com balanços seguindo os impulsos da corrente. Esta vibração, signo de uma "água viva", é como as danças extáticas, como os balanços do corpo dos sacerdotes judeus, como as respostas de um coro ao outro nos ofícios cristãos, a manifestação de uma démarche contemplativa, de um jubilação espiritual: aquela expressa pelo Salmo de Páscoa: "Que tiveste tu, ó mar, que fugiste, e tu, ó Jordão, que voltaste para trás? Montes, que saltastes como carneiros, e outeiros, como cordeiros? Treme, terra, na presença do Senhor, na presença do Deus de Jacó. O qual converteu o rochedo em lago de águas, e o seixo em fonte de água." (Sl 114:5-8)
Cristóvão recebeu por função fazer passar os viajantes de uma margem a outra através da corrente perigosa. Ele se ajuda para tal de um cajado imenso como ele, cajado que brota, logo cheio de seiva. Para interpretar este símbolo convém pesquisar paralelos, que podem ser encontrados na tradição judeu-cristã e depois indo-ariana.