No uso atual da palavra "cura" prevaleceu a noção de "sanar", em uma conotação eminentemente corporal, ou seja, a cura seria sanar o corpo do que quer que seja que o esteja afetando fisicamente, enquanto corpo. Mesmo quando esta afetação do corpo é devida a alguma afecção da mente, a cura ainda assim significa sanar esta afecção, por alguma terapia ou algum medicamento que atue sobre o cérebro, ou seja, o corpo.
Heidegger recuperou um sentido esquecido da palavra "cura", em alemão Sorge:
Heidegger relata uma antiga estória que ilustra perfeitamente o sentido de "cura":
Esse testemunho pré-ontológico adquire um significado especial não somente por ver a "cura" como aquilo a que pertence a presença humana "enquanto vive", mas porque essa primazia da "cura" emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito. Cura prima finxit esse ente possui a "origem" de seu ser na cura. Cura teneat, quamdiu vixerit: esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto "for e estiver no mundo". O "ser-no-mundo" tem a cunhagem da "cura", na medida do ser. Esse ente recebe o nome (homo) não em consideração ao seu ser mas por remeter ao elemento de que consiste (húmus). Em que se deve ver o ser "originário" dessa formação? É isso que Saturno, o "tempo", decide. A determinação pré-ontológica da essência do homem, expressa na fábula, visualizou, desde o início, o modo de ser em que predomina seu curso temporal no mundo. (ibid. p.266-267)
A análise da "cura" (Sorge) em Heidegger, deve respeitar sua profunda co-pertinência ao Dasein, entendido como abertura, clareira do ser, onde justamente a “cura” é uma espécie de convite permanente ao que somos nesta clareira, em que somos (como o ente “fulano”), em que entes são segundo modos de ser (ser-à-mão — Zuhandenheit, ser-subsistente — Vorhandenheit, co-presença — Mitdasein, objeto de arte e até ser-divino); em resumo “a clareira do ser, em que se é”. A constituição fundamental do Dasein é então ser-em-o-mundo, enquanto unidade de momentos estruturais, e jamais “ser” como “ente dentro de um mundo”. No Aí reflete-se o ser como ser-em, como ser-com, como ser-junto dando-se na mundanidade, reflexões que são e estão no mundo; brilho do ser na constituição fundamental ser-em-o-mundo. O “conhecimento” é dado, e não obtido ou adquirido, nesta mesma condição unitária e unitiva de ser-em-o-mundo. Não há qualquer relação sujeito-objeto em que se dê o conhecimento mas apenas seu dar-se nesta condição ser-em-o-mundo.
A partir dessa consideração de Heidegger, abre-se a possibilidade de uma nova compreensão da palavra "cura" em sua conotação mais profunda com soter, portanto com salvação, saúde e sanidade. Estar na mente sã, "ser o que se é", na "autenticidade" que Heidegger afirma, se dá o "curar em, por, a Si Mesmo". Quando se diz que o nome de Jesus significa "Deus salva" fica entendido Deus enquanto Jesus Cristo, Ungido de Deus, Salvador, Ser (em sentido verbal e substantivo) EM QUE aparecemos, COM QUE conhecemos, DE QUE somos feitos.