VIDE: GLÓRIA
CITAÇÕES DO EVANGELHO DE JESUS: 166 ocorrências no texto grego do NT.
Vladimir Lossky: Teologia Mística da Igreja do Oriente
Filosofia
Michel Henry: EU SOU A VERDADE
Esta fenomenalização original da Vida, a problemática joanica dela trata notadamente, se a indicou de passagem, sob o título de "glória". A interioridade recíproca do Pai e do Filho, a saber a Arque-geração do Filho como auto-geração do Pai, significa fenomenologicamente que cada um só tem sua glória daquela do outro — a auto-revelação do Pai se cumprindo na revelação do Verbo, a qual nada mais é no entanto que esta auto-revelação da Vida absoluta: «Glorifica teu Filho a fim de que teu Filho te glorifica» (Jo 17,1). Estas duas "glórias" interiores uma à outra, parecem se dispôr uma de fora da da outra na história transcendental da missão do Cristo sobre a terra e de sua paixão. É precisamente antes que começa o relato desta que é dito: «Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, Deus também o glorificará nele mesmo... (Jo 13,31).
Esta situação recíproca das duas glórias será retomada na última oração do Cristo: «Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.» (Jo 17,4-5). Que, em todos os casos, esta glória se refere à Vida e à essência fenomenológica desta em sua oposição radical à "glória" do mundo que só designa os lustres deste grande teatro onde os homens fazem parada de suas qualidades, lutam pelo prestígio, é isto que resulta imediatamente do fim do texto precitado e sublinhado por nós. Mas é também o conteúdo explícito desta outra passagem, de uma densidade exemplar, onde a oposição da glória que investigam apaixonadamente os homens àquele de Deus ele mesmo, remete às categorias fenomenológicas fundamentais sobre as quais todo o cristianismo é construído — à oposição decisiva da verdade do mundo e daquela da Vida. «Eu não recebo glória dos homens; Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis. Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?» (Jo 5,41-44). Que o Cristo se preocupe unicamente da glória do Pai e que como o Verbo ele dele seja a auto-revelação pura e absoluta, é o que destaca-se igualmente de dos numerosos textos onde, afirmando mais uma vez não falar "de si mesmo", revindicando de novo sua condição de Arque-Filho, o Cristo se identifica à verdade absoluta: «Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça» (Jo 7,17-18).