VIDE: FILHO DO HOMEM
O nome de Iéshoua‘ bèn Iosseph repete-se cento e cinquenta vezes sob a pena de Mateus e oitenta e uma vezes sob as de Marcos e de Lucas. Significa em hebraico Yah salvará; ele é aquele que salvará seu povo de suas faltas (Mt 1,21). Mas Iéshoua‘ é também, para o evangelista, o Rabi e o Adôn, repetindo-se este nome oitenta vezes em Mateus. Filho do homem, salvador anunciado da humanidade e de Israel, a cristandade nascente, após os evangelistas, vê nele o filho de Elohíms. Esta expressão em hebraico (Bèn Elohíms) não tem e não pode ter o mesmo significado que em grego (huios tou theou). Em hebraico, a palavra bèn exprime uma dependência que muitas vezes não é a de uma filiação biológica. Além disso, no universo bíblico, Elohíms é o pai não apenas de todo homem, mas de toda criatura, de todo objeto.
Para o grego, ao contrário, os deuses não são criadores, mas procriadores, e huios designa unicamente um lado de filiação biológica, do filho a seu genitor. Assim, por trás de questões de semântica, é necessário perceber as diferenças do pensamento e de sua expressão na cultura hebraica e na grega: uma mesma palavra pronunciada nestes dois universos culturais tão violentamente contrastantes pode ter, aqui e lá, um significado radicalmente diferente. Daí, às vezes, as irredutíveis divergências. Mas toda leitura do Novo Testamento, inclusive do corpus paulino, destaca bem a unidade do universo espiritual e cultural dos hebreus, e apaga fronteiras que as rivalidades religiosas, agravadas pelas grandes tragédias da história, tinham edificado entre o mundo judeu e o mundo cristão.
HANEGRAAFF, Wouter Jacobus. Hermetic spirituality and the historical imagination: altered states of knowledge in late antiquity. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge University Press, 2022
Para ilustrar a gravidade desta situação, consideremos o caso do Corpus Hermeticum I 6 (um trecho de grande importância, como se verá). Uma entidade divina que se denomina Poimandres apareceu ao autor anônimo em uma visão e identifica-se como a luz divina, “o nous, teu Deus”. Ele prossegue afirmando que “o logos luminoso que provém do nous é o filho de Deus (huios theou)” — uma formulação que seria, obviamente, congenial às crenças cristãs em Cristo como o Logos divino.
O trecho continua afirmando que a faculdade interna do vidente de ver e ouvir é “o logos do Senhor (logos Kyriou)” e assinala que “o nous é Deus Pai (ho de nous pater theos)”. O resultado é um quadro bastante coerente, congenial aos sentimentos teológicos cristãos, no qual o nous é Deus Pai e o logos é Deus Filho. Mas deveríamos confiar nessa versão?
A suspeita de um revisor foi despertada por um erro gramatical: logos Kyriou, sem o artigo, é um “barbarismo” conhecido apenas a partir da Septuaginta e não atestado de outro modo na literatura grega pagã. Ele concluiu que “o filho de Deus”, “do Senhor” e “o nous é Deus Pai” devem ser todas interpolações de um escriba bizantino. Se as eliminarmos, obtemos um texto diferente. Poimandres parece então dizer: “Eu sou aquela luz... o nous, teu Deus... o logos luminoso que provém do nous” (isto é, ele agora se identifica simultaneamente com o nous e com o logos) e prossegue afirmando que “aquela entidade em ti que vê e ouve é o logos.”
De acordo com a sentença que se segue, “eles não são separados um do outro, pois a sua união é vida”, o que significa, presumivelmente, que luz, vida, nous e logos são, em última análise, todos um (ou, se se preferir, que a vida = a unidade de luz, nous e logos). Por outro lado, se não quisermos ver aqui interpolações cristãs, pareceria então que o autor hermético faz uma declaração bastante clara de ortodoxia cristã: Pai e Filho (Deus e seu Logos) não são separados um do outro, porque a sua unidade é vida.