PÉTREMENT, Simone. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Os Sete Anjos Criadores
Nenhum mito gnóstico fez mais para induzir a pesquisa moderna ao erro do que o mito dos sete anjos criadores, anjos que os gnósticos também chamavam Arcontes e que frequentemente eram considerados como correspondentes aos sete planetas. Aqui, para os estudiosos modernos, havia um sinal evidente de que, ao menos em certo aspecto, o gnosticismo provinha de algo distinto do cristianismo. Com efeito, esse mito parecia estar relacionado à astrologia e, por meio da astrologia, à religião caldeia. Teria a antiga religião caldeia ainda força suficiente, na época em que o gnosticismo deve ter nascido, para desempenhar um papel em sua formação? Não é absolutamente certo. Mas ela sobreviveu na superstição popular, na moda da astrologia, no fim da Antiguidade. Em todo caso, o mito dos sete anjos, ligado aos sete planetas, não parece, à primeira vista, ter qualquer relação com o cristianismo. Até onde se sabe, ele sempre foi explicado por influências pagãs.
Penso, contudo, que se pode demonstrar que esse mito possui conexões com a história do cristianismo, conexões talvez mais estreitas do que aquelas com a astrologia. Sua conexão com a história do cristianismo poderia ser essencial; sua conexão com a astrologia, acidental e secundária.
A ideia de que os planetas (ou as almas dos planetas) ajudaram o Demiurgo a criar o mundo e a humanidade é algo difícil de deduzir da astrologia. Influenciar o destino dos seres humanos não é o mesmo que criar o mundo. Os sete Arcontes dos gnósticos têm uma relação mais direta com a criação e com o Criador do que com os planetas. Quando os gnósticos lhes davam nomes, esses nomes eram na maioria das vezes aqueles do Deus do Antigo Testamento. Cumpre recordar também que o número sete é importante não apenas na astrologia antiga e na religião caldeia, mas igualmente no judaísmo. É no judaísmo que esse número se relaciona à criação, pelo relato dos sete dias no Gênesis. Finalmente, é digno de nota que, segundo o Catálogo de Irineu, a doutrina gnóstica mais antiga que menciona sete anjos criadores é a de Saturnilo. Ora, o resumo de Irineu não menciona os planetas. Por outro lado, o que Irineu afirma mostra que Saturnilo era um inimigo ardoroso do Antigo Testamento.
A primeira pergunta que cumpre fazer é esta: como vieram os anjos a ser descritos como poderes cegos e, em geral, maléficos? Não são os anjos, no uso cristão, seres celestes e puros? Mas os Arcontes dos gnósticos são figuras sombrias e temíveis. São oponentes da parte superior da alma humana. Não apenas encerram a alma no corpo, mas, quando uma pessoa morre, podem fechar os portões do mundo para impedir que a alma saia. Certamente o cristianismo conhece anjos maus, que são demônios. Mas os anjos criadores, no gnosticismo, não são exatamente demônios. Em todo caso, não são os pequenos demônios dos Evangelhos Sinópticos, aqueles espíritos malignos que podiam penetrar nos seres humanos para causar doença ou loucura, mas que podiam ser conjurados e expulsos. Eles são os grandes poderes cósmicos. São os companheiros do Criador, e este não é a mesma pessoa que o diabo. Para compreender essa ideia é necessário considerar a teoria das "potências" em Paulo e no Novo Testamento em geral.