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Pedra Filosofal

ALQUIMIA — PEDRA FILOSOFAL


VIDE: PEDRA ANGULAR

Julius Evola: Tradição Hermética

Estes mesmos autores têm insistido insaciavelmente em que «o objeto da nossa preciosa arte é desconhecido»; em que as operações a que se referem não se realizam com as mãos; em que os seus «elementos» são invisíveis e não aqueles que toda a gente conhece. Por outro lado, são eles próprios que alcunham de «assopradores» e «queimadores de carvão» que «arruinaram a Ciência» e de cujas manipulações «não se deve esperar senão fumo», todos os alquimistas ingênuos que na sua incompreensão se entregaram a experiencias do gênero daquelas que os modernos julgam terem sido as da ciência hermética. Aqueles outros autores sempre anunciaram, no respeitante à Obra, condições éticas e espirituais, e, ao referirem-se ao sentido vivo da natureza, o seu mundo ideal apresenta-se inseparável daquele — de modo algum o «químico» — que é o do gnosticismo, do neoplatonismo, da Cabala e da teurgia. Deste modo, através de meias palavras, deram a entender, «a quem possa entender», por exemplo: que o Enxofre alquímico representa a vontade: (Basílio Valentim e Pernety); que o «fumo» é «a alma separada do corpo» (Geber); que na «virilidade» se revela o mistério do «Arsénico» (Zózimo); e assim por diante. Desta forma, através de uma variedade desconcertante de símbolos, os «Filhos de Hermes» conseguem dizer todos o mesmo e repetir orgulhosamente o quod ubique, quod ab omnibus et quod semperi. O objetivo real sobre que gravita este conhecimento único, esta tradição que reivindica para si caracteres de universalidade e de primordialidade, é-nos declarado por Jacob Boehme: «Não há diferença alguma entre o nascimento eterno, a reintegração e a descoberta da Pedra Filosofal.»
De tudo isto deriva uma série de expressões simbólicas, dirigidas com o fim de indicar a absoluta auto-suficiência do único princípio em qualquer «operação»: pai e mãe para si mesmo, de si mesmo é o filho, por si se dissolve, por si se mata e por si mesmo ganha a vida. «Coisa única que contém em si os quatro Elementos e domina sobre eles», «a matéria dos Sábios», chamada também a sua «Pedra», «contém em si qualquer coisa de que temos necessidade. Mata-se por si e logo por si ressuscita. Casa-se consigo mesma, impregna-se de si mesma e resolve-se por si mesma no seu próprio sangue».
E esta «via interior», esta «via sacra» que parte da «pedra negra hierática», desta «pedra que não é pedra», mas sim «imagem do cosmos», do «nosso chumbo negro», (sob este ponto de vista, trata-se de vários símbolos do corpo humano), esta via ao longo da qual surgiram Heróis e Deuses, «céus» e «planetas», homens elementares, metálicos e sidéreos, está enigmaticamente encerrada nas siglas VITRIOL, explicadas assim por Basílio Valentim: «Visita Interiora Terrae (Terra = o corpo), Retificando Invenies Occultum Lapidem (percorre as entranhas da terra (do Corpo) e retificando encontrarás a pedra oculta).» Ao longo dessa via, o conhecimento de si mesmo e o conhecimento do mundo intercondicionam-se, até se tornarem em uma só e mesma coisa maravilhosa, verdadeiro objetivo da Grande Obra ou Opera Magna: pois que aqui fora (como em cima assim também em baixo, como no espírito na natureza), tal como no organismo humano, se encontram presentes os Três, os Quatro, os Sete, os Doze; Enxofre, Mercúrio, Sal; Terra, Água, Ar, Fogo; os Planetas; o Zodíaco. «O forno é único — dizem enigmaticamente os Filhos de Hermes — , único o caminho e única também é a Obra.» «Há uma só Natureza e uma só Arte... A operação é única, e fora dela não há nem existem outras verdadeiras.».
Podemos ainda fazer notar que a escolha do símbolo da Pedra para significar o corpo humano adquire uma justificação complementar: o corpo, como acabada e estável natureza organizada, é um «fixo» face à instabilidade dos princípios psíquicos e à volatilidade atribuída aos «espíritos»; assim não só é frequente a relacionação de Ouro, Sol e Fogo com o corpo (diretamente ou por intermédio dos símbolos equivalentes), como também se verifica que, quando o próprio interior espiritual, adquirida a estabilidade sobrenatural dos regenerados, tenha elevado a um plano superior os princípios da corporeidade, e os «dois sejam um» numa «corporeidade espiritual», então o termo para exprimir esta última será ainda «Pedra»: a Pedra Filosofal.
Convém recordar que os romanos puseram ritualmente uma pedra negra — lapis niger — no começo da via sacra. A obra hermética nos textos gregos denomina-se às vezes «mistério de Mitra»; e Mitra foi concebido como um Deus ou Herói nascido da pedra que subjugará o Sol. Sobre «esta pedra» — evangelicamente — se edificará o «templo»; e «senhores do templo», como já vimos, foram chamados os Mestres herméticos. Poderíamos chegar bastante mais longe com associações igualmente significativas.