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id da página: 8714 IBN ARABI – ENGASTES DE SABEDORIA – NO VERBO DE SHUAIB Ibn Arabi

Ibn Arabi Fusus Shuaib


VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS

A SABEDORIA DO CORAÇÃO NO VERBO DE SHUAIB

Como o título sugere, Ibn Arabi retorna, neste capítulo, ao assunto do Coração, particularmente o Coração do gnóstico. Este conceito do Coração é talvez, no contexto humano, o mais importante de seus conceitos, na medida em que ele corresponde, no homem, como já mencionado, ao conceito da própria Realidade. Se, de uma maneira geral, o Homem Perfeito simboliza a síntese de todos os aspectos do ser, é o Coração do Homem Perfeito que particularmente simboliza essa síntese. Ele ilustra dramaticamente a totalidade do Coração dizendo que ele é capaz de abarcar a Realidade, enquanto a Misericórdia não é, ainda que em outros lugares ele conceda ao princípio da Misericórdia uma capacidade aparentemente similar. A razão para a maior capacidade do Coração é que, enquanto a Misericórdia está exclusivamente preocupada com os processos complementares da manifestação criativa e sua resolução em unidade, o Coração simboliza a experiência inteira da Unidade do Ser, como incluindo não apenas o processo criativo e sua resolução, mas também aquele aspecto inalienável e inalterável da Realidade que não sabe nada do devir cósmico. Essa totalidade sintética do Coração, no entanto, é realizada plenamente apenas no Homem Perfeito, permanecendo potencial e latente na maioria dos seres humanos. Para eles, o Coração é capaz de conter geralmente nada mais do que o Senhor particular como o determinador essencial de sua existência particular, de acordo com a predisposição de suas próprias essências latentes. É apenas pela gnose, ou pela gradual visão além da multiplicidade formal, que o Coração é capacitado a cumprir sua verdadeira função. Em outras palavras, para a maioria dos homens, a função do Coração permanece confinada ao contexto da bipolaridade criativa.

Isso leva Ibn Arabi a discutir uma de suas ideias mais interessantes, o «deus criado na crença», o que, é claro, traz à tona a questão da diversidade de abordagens à verdade e à salvação. Esse assunto o capacita, à sua maneira característica, a relacionar sua discussão ao profeta Shu’aib, após o qual o capítulo é nomeado, uma vez que a raiz da qual este nome é derivado é sha’aba, que significa «divergir». Assim, uma vez que a Realidade como Deus, o Nome Supremo, transcende todos os seus Nomes ou aspectos, o Coração do homem ordinário não pode ver Deus ou conhecer Deus como tal, mas apenas o Deus de sua crença credal, que está em conformidade com a automanifestação de «seu Senhor» para ele, o que, é claro, por sua vez, está em conformidade com o que sua própria essência latente determina que deve ser o conteúdo de sua crença. Dessa forma, a crença de cada homem a respeito da natureza de Deus não apenas difere da crença particular de outros homens, mas é também, inevitavelmente, apenas uma minúscula faceta do que Deus é em Si mesmo. Cada crença, determinada como ela é pela predisposição essencial, não pode ser outra senão o que Deus é, mas, paradoxalmente, também não pode ser inteiramente fiel à Verdade divina. É apenas através da aquisição da gnose que o Coração pode se tornar receptivo, não apenas ao Senhor particular, mas também à universalidade de «Deus», e, em última análise, à própria Realidade. No entanto, uma vez que o conhecimento do Senhor, conforme refletido na crença particular de alguém, é parte do conhecimento de Deus e, em última análise, da Realidade, e uma vez que nenhum homem jamais deixa de ser a criatura particular e existente de seu Senhor de acordo com a predeterminação essencial, o gnóstico, ao experimentar a visão maior da divindade universal, não pode negar sua natureza criatural nem recusar as obrigações de sua determinação particular, uma vez que a verdadeira gnose revela ao gnóstico a necessidade ontológica da servidão particular como parte da natureza das coisas. Para o gnóstico, a única alternativa à natureza criatural, por mais iluminada que seja, é precisamente a aniquilação em Deus, e não alguma falsa inflação pessoal.

Ibn Arabi conclui o capítulo tratando de um outro dos conceitos pelos quais ele é famoso, o da «renovação da criação por Sopros». Ele vê a criação do Cosmo nem como um ato único e definitivo, nem como um processo contínuo e em desenvolvimento, mas sim como atos de criação e de resolução que recorrem constantemente de instante em instante. O símbolo humano aqui é o processo de respiração, que consiste em uma inalação seguida por uma exalação. Em uma escala divina, no caso do Sopro do Misericordioso, cada inalação representa a resolução do Cosmo na Essência, enquanto cada exalação representa a criação do Cosmo, representando as duas correntes da Misericórdia divina, uma libertando o desejo arquetípico de existência, a outra reafirmando a integridade exclusiva do Um Absoluto. Na realidade, no entanto, não há sequência temporal aqui, mas uma simultaneidade eterna, uma vez que em cada instante o Cosmo é e não é, é manifesto e latente, criado e não criado, é outro e não-outro em um pulso divino atemporal, ao mesmo tempo criativo e não criativo. Em outras palavras, todo o devir do Cosmo através do sopro da Misericórdia divina não é visto por Ibn Arabi como uma longa exalação criativa no tempo, seguida por uma inalação de resolução correspondente, mas sim como uma situação em que cada exalação instantânea anuncia e inclui a inalação e vice-versa.

Como Ibn Arabi aponta neste capítulo, os teólogos Ash’aritas também tinham uma teoria da criação e recriação instantâneas, ao mesmo tempo que mantinham, ao contrário de Ibn Arabi, uma descontinuidade absoluta entre Deus e a criação. O principal propósito por trás da teoria Ash’arita parece ter sido a remoção de qualquer restrição à capacidade de Deus de fazer o que Ele deseja, assim como minar a estrutura de causa e efeito sem a qual a razão e a lógica não podem funcionar. A importante diferença entre os Ash’aritas e Ibn Arabi é que este último insiste que o Cosmo, por mais aparentemente outro que Deus, não pode, na realidade, ser outro senão Ele, e que, como essencialmente latente em divinis, misteriosamente não é outro senão seu próprio Criador.