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id da página: 8879 Ascetismo e Ascética

Ascetismo e Ascética

ASCETISMO E MISTICISMO — ASCETISMO E ASCÉTICA


René Guénon: ASCESE

Há outra palavra derivada de «ascesis», a de «ascetismo», que se presta quiçá mais ainda às confusões, porque foi claramente desviada do seu sentido primitivo, a tal ponto que, na linguagem corrente, mal chegou a ser mais do que um pseudónimo de «austeridade». Ora, é evidente que a maior parte dos místicos se entregam a austeridades, às vezes inclusive excessivas, embora não sejam, ademais, os únicos, já que isto é um carácter assaz geral da «vida religiosa» tal como se concebe no ocidente, em virtude da ideia mui espalhada que atribui ao sofrimento, e sobretudo ao sofrimento voluntário, um valor próprio em si mesmo; é certo também que, de um modo geral, esta ideia, que nada tem em comum com o sentido original da ascese e que de modo algum é solidária dela, é ainda mais particularmente acentuada nos místicos, mas, repita-se, está longe de lhes pertencer exclusivamente1 . Por outro lado, e é isto, sem dúvida, o que permite compreender que o ascetismo tenha tomado comumente uma tal significação, é natural que toda ascese, ou toda regra de vida que visa a uma meta espiritual, revista aos olhos dos «mundanos» uma aparência de austeridade, mesmo se não implica de nenhuma maneira a ideia de sofrimento, e simplesmente porque descarta ou desdenha forçosamente as coisas que eles mesmos consideram como as mais importantes, quando não inclusive como completamente essenciais para a vida humana, e cuja busca preenche toda a sua existência.

Quando se fala de ascetismo como se faz habitualmente, isto parece implicar também outra coisa: é que o que não deveria ser normalmente mais do que um simples meio que tem um caráter preparatório é tomado mui frequentemente por um verdadeiro fim; não se crê exagerar nada ao dizer que, para muitos espíritos religiosos, o ascetismo não tende à realização efetiva de estados espirituais, mas tem como único móbil a esperança de uma «salvação» que só se alcançará na «outra vida». Não se deseja insistir mais nisto, mas parece que, em semelhante caso, o desvio já não está só no sentido da palavra, mas na coisa mesma que designa; desvio, diz-se, não certamente porque haja algo mais ou menos ilegítimo no desejo da «salvação», mas porque uma verdadeira ascese deve propor a si resultados mais diretos e mais precisos. Tais resultados, qualquer que seja, ademais, o grau até onde podem chegar, são, na ordem exotérica e religiosa mesma, a verdadeira meta da «ascética»; mas quantos são, em nossos dias ao menos, aqueles que suspeitam que esses resultados podem ser alcançados também por uma via ativa, e portanto mui diferente da via passiva dos místicos?


Doutrina do Despertar

  • Para concluir esta seção, referiremos novamente a atitude da Doutrina do Despertar em relação à forma de ascese que está unilateralmente conectada com práticas de mortificação e penitência.
    • O Budismo opõe-se a todas as formas de ascese dolorosa.
    • Tendo considerado as "muitas espécies de disciplinas corporais intensivas e dolorosas", o Budismo mantém que aqueles que as praticam, "na dissolução do corpo após a morte, descem por caminhos maus para o sofrimento e a perdição", uma vez que este é um "modo de vida que traz mal presente e mal futuro".
    • Os métodos de "dolorosa auto-mortificação", de acordo com a doutrina do Buda, são inúteis, não apenas para o propósito de "extinção", mas também para aquele que aspira a alcançar alguma forma de existência "celestial".
    • Há esboços impressionantes de tipos de ascetas e de monges não diferentes daqueles que se encontram no ascetismo e monasticismo ocidentais: "Homens encolhidos, áridos, feios, pálidos, emaciados, que não apresentam atrativos para o olho que os vê". Eles são afligidos pela "doença da constrição", uma vez que levam esta vida, na verdade, contra a sua vontade, através de uma falsa vocação, carecendo do apoio de uma consciência superior.
    • O jejum, a mortificação, os sacrifícios, as orações e as oblações, nenhum destes purifica um mortal que não conquistou a dúvida e que não superou o desejo.
    • Dois extremos são evitados por aqueles que se desapegam do mundo: "o prazer do desejo, baixo, vulgar, indigno da natureza do Ariya, prejudicial; a auto-mortificação, dolorosa, indigna da natureza do Ariya, prejudicial. Evitando estes dois extremos, o caminho do meio foi descoberto pelo Realizado, o caminho que dá insight, que dá sabedoria, que conduz à calma, à consciência supernormal, à iluminação, à extinção".
    • Ao distinguir o que é louvável do que é digno de repreensão, mesmo nos casos em que o conhecimento sagrado foi atingido, o facto de o ter atingido por meio de auto-tormento é declarado repreensível.