VIDE: ASCETISMO, AGON; PRAKTIKE; PRAXIS; Citações dos Padres
Perenialistas: ASCESE E ASCETISMO
Evagrio: "um trabalho bem ordenado sobre si-mesmo".
Vida de St. Antão: a versão latina da Vida de St. Antão traduz askesis por studio deifico.
Ysabel de Andia: MYSTIQUES D'ORIENT ET D'OCCIDENT
As três qualidades que caracterizam a santidade de Santo Antão são: igualdade d'alma, hegemonia da razão (logistikon) e ser "segundo a natureza", expressão que se repete na VIDA DE SANTO ANTÃO para indicar a perfeição (katartismos) como retorno ao estado original do homem. Segundo G. Couilleau, deve-se interpretar a oposição natureza-cultura ou natureza-lei segundo uma tripla oposição: "natureza (physis), ensinamento (mathesis) e exercício (askesis), que se tornou lugar comum na Grécia clássica.
Mario Satz:
Entre os gregos, askesis significava exercício e controle de si mesmo com vistas à obtenção de força, habilidade e maestria nos jogos atléticos. Os estoicos foram os primeiros a usar esta palavra em sentido moral, tendo-a passado aos cristãos. Mais adiante, nos primeiros séculos de nossa era, ascese veio a significar, para um cristão, principalmente abstenção de vinho e de vida conjugal, exatamente como faziam os antigos nazarenos bíblicos (Samuel, Sansão, Jesus), embriagados e casados com o si-mesmo de seus corações, abandonando todo bem quantitativo para percorrer o caminho do qualitativo. Embora fracassassem vez por outra, por serem as tentações muitas e variadas, o exercício ascético lhes parecia indispensável ao armazenamento e direcionamento de energia para um fim tão inescrutável e numinoso. Os primeiros ascetas cristãos foram os anacoretas ou ermitões do deserto, que se abstinham de quaisquer relações pessoais ou sociais, imaginando, desta forma, poderem ligar-se mais a Deus. O corpo, considerado pelos gregos quase sempre como matéria de orgulho e instrumento de prazer, foi tido pelos ascetas cristãos como desprezível e corrompido, devendo assim ser humilhado e reprimido. Pensou-se, durante cerca de duzentos anos, que este tipo humano, o asceta de vida austera, capaz de submeter-se as mais severas penitências, fosse o verdadeiro servo de Deus. No entanto, hoje, o fakir muçulmano, o “pobre”, despojado e mendicante, busca através da ascese um contato com o divino, com um plenum somente acessível após um esvaziamento prévio, após atingir deliberada e conscientemente o vacuum tão bem expresso por São João da Cruz: “Deve-se, pois, ter a boca da vontade sempre aberta para Deus, vazia, sem nenhum resquício de apetite, para que Deus a encha com seu amor e doçura, tendo-se fome e sede somente de Deus.”
- Com base nestes fundamentos (Ariya), podemos falar, em conexão com a realização budista, de uma vontade não apenas para a Liberatio, mas também para a liberdade, incondicionalidade e inquebrantabilidade.
- Uma das descrições mais comuns de um asceta é que ele é um homem que, tendo quebrado cada e todo o vínculo, é livre.
- O asceta é aquele que evita a armadilha, como um animal selvagem, e assim não cai no poder do caçador, mas "pode ir para onde quiser" — enquanto os outros, aqueles que estão sujeitos ao desejo, "podem ser chamados perdidos, arruinados, caídos no poder do mal".
- O asceta é aquele que ganhou domínio sobre si mesmo, que "tem o seu coração no seu poder, e não está ele mesmo no poder do seu coração".
- Ele é o mestre dos seus pensamentos.
- "Qualquer pensamento que ele deseje, esse pensamento ele pensará, qualquer pensamento que ele não deseje, esse pensamento ele não pensará".
- Como um elefante perfeitamente domado, conduzido pelo seu mahout, irá em qualquer direção; como um cocheiro perito, com uma carruagem pronta em bom terreno num cruzamento e atrelada a uma equipa de puro-sangue, pode guiar a carruagem para onde deseja; ou como um rei ou um príncipe com um baú cheio de roupas, pode livremente escolher a vestimenta que mais lhe agrada para a manhã, a tarde ou a noite — assim o asceta pode dirigir a sua mente e o seu ser para um estado ou outro com perfeita liberdade.
- Eis mais algumas analogias: o asceta é como um homem sobrecarregado de dívidas, no entanto ele não só as paga como consegue ganhar um excedente com o qual construir a sua própria vida; ou ele é como um homem enfraquecido por doença, o seu corpo sem força, mas que consegue remover a doença e recuperar a sua força; ou, ele é como um escravo, dependente de outros, mas que é capaz de se libertar da sua escravidão e sentir-se senhor de si mesmo, independente de outros, um homem livre que pode ir para onde quiser; ou, novamente, ele é como um homem viajando por lugares desertos, cheios de armadilhas e perigos, que ainda assim chega são e salvo ao seu destino sem perder nada.
- Para completar a lista do que um espírito nobre considera valioso, lembremos estes outros epítetos do Desperto: "aquele que depôs o fardo", o "desalgemado", o "desenganchado", o "escapado", o "desenganador", o "removedor da flecha", o "nivelador do fosso", "aquele que escapa do turbilhão".
- O turbilhão é um sinónimo para as faculdades do desejo; a flecha deve ser entendida como a ardência, a sede de viver, que feriu profundamente e envenenou o princípio superior; o fosso é samsara, que aparece aqui com o mesmo significado que "devir" e "matéria" possuíam no conceito helénico antigo: Penia, insuficiência perene e "privação", incapacidade de auto-realização, ou, no simbolismo de Oknos: uma corda que enquanto está a ser tecida é continuamente consumida.