CATEGORIAS SIMBÓLICAS
Pretende-se pensar o simbólico em todas as suas dimensões. Por símbolo, entende-se aqui um acontecimento de caráter verbal, em virtude do qual "lançam-se conjuntamente" duas peças: fragmentos de uma medalha ou moeda, partida pela metade. Trata-se, pois, de determinar as condições que fazem possível esse evento simbólico em virtude do qual ambas as partes possam chegar a coincidir. Uma intervém como a parte simbolizante do símbolo (o fragmento disponível); a outra, como aquela (subtraída do âmbito do aparecer) à qual remete essa parte disponível, intervém para preencher seu sentido: a parte na qual pode se determinar o sentido do fragmento disponível, ou que proporciona os instrumentos, ou chaves hermenêuticas, que dotam a primeira de sentido, permitindo-lhe, assim, atingir a finalidade que a define, a simbolização.
Portanto, símbolo não é uma coisa ou um objeto, ou não o é preferencialmente. Mais do que este ou aquele símbolo, deve-se falar aqui deste ou daquele acontecimento simbólico. Nele deve-se provar e experimentar se os dois fragmentos da moeda ou medalha, no princípio separadas, podem encaixar-se ou desencaixar-se. Caso se encaixem, então realiza-se o acontecimento simbólico.
As dimensões do símbolo são aquelas condições que fazem possível o acontecimento de tal evento, ou a coincidência das duas partes, juntando o que estava anteriormente cindido. Tais condições intervêm como genuínas categorias simbólicas (entendendo categoria no rigoroso sentido kantiano).
Trata-se, portanto, de determinar as distintas categorias a partir das quais o ato ou acontecimento no qual se unificam as duas partes do símbolo possa se realizar. Tais categorias podem se estabelecer apenas seguindo o curso desse movimento que se consuma na coincidência entre ambas as partes. Portanto, são as diferentes escalas ou graus que conduzem a essa prova ou experimento decisivo no qual "se lançam conjuntamente" a parte simbolizante e a parte simbolizada. Tais são as próprias etapas, ou escalas, desse processo simbólico: limites distintos de um argumento que termina ou se resolve na prova simbólica final, a qual constitui o ato simbólico em si.
Esse caráter escalonado permite formalizar as categorias em termos musicais, na forma de distintas claves que cobrem o espaço simbólico: aquele âmbito que deve ser percorrido para que tenha lugar o ato ou acontecer simbólico. Deve-se entender, em primeiro lugar, as condições que fazem possível a parte simbolizante; em segundo, as condições do que esta simboliza; e em terceiro, as condições relativas ao encaixe ou coincidência. A análise dessas condições permite desgrumar as distintas e escalonadas categorias simbólicas.
Aqui as categorias não derivam de uma analítica relativa às formas de enlace dos juízos, como em Kant, nem procedem de um exame, consciente ou inconsciente, das formas genéricas da linguagem, como em Aristóteles. O que permite estabelecer aqui uma tábua categorial é a análise do processo em virtude do qual tem lugar o acontecimento simbólico (ou encaixe unificador das partes, simbolizante e simbolizada].
Para que se possa constituir a parte simbolizante, necessita-se de quatro condições:
1) Que essa parte possua um substrato material.
2) Que, não obstante, tenha sido ordenada e disposta num âmbito de exposição a que se deve chamar cosmos, mundo.
3) Que esse cosmos possa, então, estabelecer-se como o cenário que torna possível um encontro entre determinada presença (sagrada) que sai das sombras e determinada testemunha (humana) que possa comprová-la.
4) Que esse encontro, ou relação presencial, possa consumar-se por meio da comunicação (por palavra, por escrito).
Estas quatro condições determinam a parte simbolizante, disponível e manifesta, mas esta a envia ou remete à parte simbolizada, que não está disponível. Em conseqüência disso:
1) O símbolo manifesto deve enviar a determinadas chaves hermenêuticas aquilo que permita determinar as figuras (ideais) em virtude das quais se possa fixar o sentido do símbolo manifesto.
2) As chaves exegéticas têm, necessariamente, que se chocar com um limite maior que aniquile toda procura de sentido, de forma que apenas sob forma mística possa consumar-se a remissão.
Uma vez determinadas as condições simbolizantes (matéria, cosmo, presença, lógos) e as condições relativas ao simbolizado (chaves do sentido, substrato místico), foram fixados todos os requisitos indispensáveis para que se possa produzir o acontecimento simbólico. Resta apenas determinar as condições da unificação ulterior das partes do símbolo. Surge, portanto, a última e decisiva categoria, a qual estabelece a necessidade desse restabelecimento do distante e separado.
Eis aqui a tábua das categorias simbólicas:
1. Matéria
2. Cosmos
3. Relação presencial (entre presença e testemunha)
4. Comunicação (verbal, escrita)
5. Chaves (exegéticas) do sentido
6. Substrato sagrado e santo (ou místico)
7. Conjunção das partes do símbolo