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Hermetismo

Citações recolhidas por Françoise Bonardel, Philosopher par le Feu.

Converter e transmutar

Deste modo, converter e transmutar, nesses autores, significa conferir um corpo aos incorpóreos, isto é, às matérias movediças. Por sua transformação obtém-se o molybdochalque1 , o chumbo escuro, aquele que deve ser trabalhado com o mercúrio e tornar-se o corpo da magnetia2 . Não pretendem significar, como alguns, que a mutação se relaciona ao ato de converter e transmutar o mercúrio. Quando, porém, as matérias movediças adquiriram um corpo, a conversão ocorre para todos os corpos, mediante sua tintura em branco ou em amarelo. Com efeito, essa conversão é chamada transmutação, depois que os incorpóreos receberam um corpo, pelo efeito da arte. Na conversão retroativa efetuada pelo fogo, isto é, no processo de embranquecimento ou amarelecimento, as matérias intensamente diluídas e associadas pelo fogo tornam-se novamente movediças e retornam ao estado incorpóreo. Nessa etapa estão reduzidas ao grau extremo de divisão. O vapor sublimado, a primeira das matérias incorpóreas, conduz assim à arte suprema.

Zosime, Sur le corps de la Magnésie, in M. Berthelot, Collection des anciens Alchimistes grecs (1888), t. III, p. 191.

Em ti está oculto todo o mistério...

Ostanes e seus companheiros disseram a Cleópatra: «Em ti está oculto todo o mistério estranho e terrível. Ilumina-nos, derramando tua luz ao longe sobre os elementos. Dize-nos como o mais alto desce ao mais baixo, e como o mais baixo sobe ao mais alto; como o elemento médio se aproxima do mais elevado, para lograr unificar-se com ele, e qual é o elemento que atua sobre eles; como as águas benditas descem do alto para visitar os mortos estendidos, encadeados, oprimidos nas trevas e na sombra, no interior do Hades; como o remédio da vida lhes chega e os desperta, tirando-os de seu sono, em sua morada particular; como penetram as águas novas, produzidas no princípio do acamamento e durante sua duração, e vindas pela ação do fogo. A nuvem as sustém: eleva-se do mar, sustentando as águas.

Ora, os filósofos, considerando as coisas assim manifestadas, enchem-se de alegria. E Cleópatra lhes disse: «As águas, ao chegarem, despertam os corpos e os espíritos aprisionados e impotentes.» Pois, disse ela, são de novo oprimidos; e de novo serão encerrados no Hades. Mas, pouco a pouco, desenvolvem-se, remontam, revestem-se de cores variadas e gloriosas, como as flores na primavera; a própria primavera é alegre e regozija-se de sua beleza.

Ora, digo-vos a vós, que sois gente sensata: as plantas, os elementos, as pedras, quando as removeis de seus lugares [naturais], parecem em estado de maturidade. Não o estão, no entanto, antes que tudo tenha sofrido a prova do fogo. Quando tiverem revestido a glória que vem do fogo, e a cor esplendorosa [que daí resulta], então manifestar-se-á sua glória oculta, a beleza tão buscada e a transformação divina produzida pela fusão. Pois são nutridos no fogo, como o embrião, nutrido no ventre da mãe, cresce pouco a pouco. Quando o mês regulamentar se aproxima, [o embrião] não é impedido de vir à luz. É assim que procede esta arte admirável. As ondas e os fluxos sucessivos desagregam os produtos no Hades, no túmulo, onde estão depositados. Mas, quando o túmulo tiver sido aberto, remontarão do Hades, como o embrião sai do ventre [de sua mãe].

Os filósofos, contemplando a beleza de sua obra como a terna mãe [contempla] o fruto de suas entranhas, buscam então [como a nutrirão]; assim como a mãe, por seu filho. Isto é o que esta arte realiza, empregando, em lugar de leite, as águas [que prepara]. Imita o desenvolvimento da criança, o modo como é formada e conduzida à perfeição. Tal é o mistério oculto sob o selo.

Le Livre de Comarius, in M. Berthelot, Collection des anciens Alchimistes grecs (1888), t. III, p. 281-282.

Pomandres

Um dia, enquanto meditava sobre a natureza dos seres, com a mente mais sutil e os sentidos corporais totalmente adormecidos, senti um sono cair sobre mim, comparável ao abatimento daqueles que estão pesados por excesso de comida ou fadiga devido ao trabalho físico; pareceu-me então ver uma estátua muito grande, de dimensão infinita, e ouvi-la chamar-me pelo meu nome e dizer-me: O que você quer ouvir e ver? E, pela concepção intelectual, aprender e conhecer? E eu lhe perguntei: E você, quem é você na verdade? Eu sou Poimandres, certamente, ele me respondeu, o Espírito daquele que é o mestre de todas as coisas. Eu sei o que você quer, e estou com você em todos os lugares. Eu lhe disse: Quero aprender a conhecer os seres, adquirir a inteligência de suas naturezas e, acima de tudo, compreender Deus. Mas como, ele me perguntou? Desejo ouvir, respondi. Então, lembra-te de mim, respondeu ele, e tudo o que desejares aprender, eu te ensinarei. Tendo dito essas palavras, ele mudou de forma e, naquele instante, todas as coisas me foram reveladas em um instante.

Paroles d’Hermès dans le Poimandrès (1,1-4), Aureliam Occultam Philosophorum, in Manget, t. II, p. 213.