O homem fala, sente, pensa a partir de si próprio. Todas as coisas são também vistas e consideradas como estando nelas mesmas. De fato, porém, nenhum ente está em si como em seu absoluto. Tudo vive de um fundamento que se retrai ao poder dos entes concretos e individuados. Tome-se o exemplo de alguém que esteja na alegria. O coração é alegre porque se colocou na correspondência da alegria, i. é, de um fundamento que não pertence ao coração. Viver alegremente é dialogar com o que não é meu nem seu: a alegria. A alegria está em nós como visita, emergindo de uma profundidade, cujo acesso se esquiva ao nosso poder. O sujeito alegre acena para uma profundidade que não lhe pertence. Ele está entregue a essa profundidade que em tempo oportuno o visitou. Quando o coração é visitado pela alegria vê tudo como estando na alegria, cada coisa se lhe afigura estar na existência, no vigor daquela profundidade. O texto de
Chuang Tzu, «A alegria dos peixes», mostra como no eu se dá a visita da alegria e a partir dessa visita o coração vê tudo como estando na alegria:
«Chuang Tzu e Hui Tzu
Atravessavam o rio Hao
Pelo açude.
Disse Chuang:
«Veja como os peixes
Pulam e correm tão livremente:
Isto é a sua felicidade».
Responde Hui:
«Desde que você não é um peixe
Como sabe
O que torna os peixes felizes?»
Chuang respondeu:
«Desde que você não é eu,
Como é possível que saiba
Que eu não sei
O que torna os peixes felizes?»
Hui argumentou:
«Se eu, não sendo você,
Não posso saber o que você sabe,
Daí se conclui que você,
Não sendo peixe,
Não pode saber o que eles sabem».
Disse Chuang: «Um momento:
Vamos retornar
À pergunta primitiva.
O que você me perguntou foi
«Como você sabe
O que torna os peixes felizes?»
Dos termos da pergunta
Você sabe evidentemente que eu sei
O que torna os peixes felizes.
Conheço as alegrias dos peixes
No rio
Através de minha própria alegria, à medida
Que vou caminhando à beira do mesmo rio»
(A via de Chuang-Tzu, Thomas Merton, Petrópolis, 1969, pp. 126-127).