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Alegria

ESTADOS — ALEGRIA

A alegria na linguagem religiosa tem um sentido forte que se aproxima da beatitude. Mas enquanto esta última noção conota a bendição recebida (Bem-aventurado sois...) e uma atitude mais passiva, a alegria conota de preferência o júbilo como resposta surgida do coração crente diante da revelação do divino (« Jesus tremeu de alegria sob a ação do Espírito Santo » (Lc 10,21). A alegria está frequentemente associada à paz nas fórmulas de saudação ou na liturgia, indicando assim as duas dimensões complementárias da vida com Deus, o apaziguamento de todo medo e de toda tensão, e a exaltação positiva dos poderes. Uma e outra são « um dom do Espírito » (Gal 5,22). Enfim a alegria é percebida como participação na vida mesma de Deus que é nela mesma alegria, tema ligado à relação intratrinitária, onde cada pessoa encontra sua alegria no amor das duas outras: « Eu vos digo isso para que minha alegria esteja convosco e que vossa alegria seja perfeita » (Jo 15,1). (Notions philosophiques)

Filosofia

Arcângelo Buzzi

O homem fala, sente, pensa a partir de si próprio. Todas as coisas são também vistas e consideradas como estando nelas mesmas. De fato, porém, nenhum ente está em si como em seu absoluto. Tudo vive de um fundamento que se retrai ao poder dos entes concretos e individuados. Tome-se o exemplo de alguém que esteja na alegria. O coração é alegre porque se colocou na correspondência da alegria, i. é, de um fundamento que não pertence ao coração. Viver alegremente é dialogar com o que não é meu nem seu: a alegria. A alegria está em nós como visita, emergindo de uma profundidade, cujo acesso se esquiva ao nosso poder. O sujeito alegre acena para uma profundidade que não lhe pertence. Ele está entregue a essa profundidade que em tempo oportuno o visitou. Quando o coração é visitado pela alegria vê tudo como estando na alegria, cada coisa se lhe afigura estar na existência, no vigor daquela profundidade. O texto de Chuang Tzu, «A alegria dos peixes», mostra como no eu se dá a visita da alegria e a partir dessa visita o coração vê tudo como estando na alegria:


«Chuang Tzu e Hui Tzu
Atravessavam o rio Hao
Pelo açude.
Disse Chuang:
«Veja como os peixes
Pulam e correm tão livremente:
Isto é a sua felicidade».
Responde Hui:
«Desde que você não é um peixe
Como sabe
O que torna os peixes felizes?»
Chuang respondeu:
«Desde que você não é eu,
Como é possível que saiba
Que eu não sei
O que torna os peixes felizes?»
Hui argumentou:
«Se eu, não sendo você,
Não posso saber o que você sabe,
Daí se conclui que você,
Não sendo peixe,
Não pode saber o que eles sabem».

Disse Chuang: «Um momento:
Vamos retornar
À pergunta primitiva.
O que você me perguntou foi
«Como você sabe
O que torna os peixes felizes?»
Dos termos da pergunta
Você sabe evidentemente que eu sei
O que torna os peixes felizes.
Conheço as alegrias dos peixes
No rio
Através de minha própria alegria, à medida
Que vou caminhando à beira do mesmo rio»

(A via de Chuang-Tzu, Thomas Merton, Petrópolis, 1969, pp. 126-127).


Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA

As sete alegrias e as sete dores de Maria expressam tanto o aspecto maternal quanto a ambiguidade, da Maya ou da Shakti; residindo a ambiguidade precisamente na oposição das dores e das alegrias.
É preciso que a musicalidade se combine com a geometria, pois a consciência do absoluto deve penetrar na alegria da infinitude, e aí está uma condição fundamental da arte.
A caridade não exclui a cólera santa, assim como a humildade não exclui a altivez santa, ou a dignidade não exclui a alegria santa.
Entretanto, mesmo o olhar de uma pessoa moralmente imperfeita pode ter beleza quando exprime a primavera da juventude, ou simplesmente a alegria, ou um bom sentimento, ou tristeza.