O Touro na Emblemática Crística
Primeiro, baseando-se nas visões de Ezequiel e de São João, nossos primeiros simbolistas apresentaram o Touro, e os outros três Animais, o Homem, a Charbonneau-Lassay Aguia e o Leão como hieróglifos de Jesus Cristo, também nossos autores franceses da Idade Média, herdeiros de seus pensamentos, são tão formais quanto eles sobre este ponto: “Taurus, Christus”, escreve Raban-Maur; e depois dele, São Brunon de Asti, e São Ivo de Chartres falam da mesma forma. Eles, portanto, olharam para o touro como o emblema da Vítima Redentora que assegurou, pela efusão de todo o seu sangue, a purificação de nossa raça e sua reconciliação com a justiça do Alto. Mas um outro simbolismo menos conhecido, ligou a figura do touro emblemático à Pessoa de Cristo: Quando se estuda de perto a antiga iconografia de Jesus Cristo nos treze primeiros séculos, constata-se que duas grandes ideias mestras, entre outras, tiveram sobre ela uma influência considerável: uma o faz ver como fonte e foco da luz, e a outra o designa como fonte e foco da Vida: Ele é o Verbo iluminador, a Palavra que fez jorrar a primeira claridade sobre o caos do Mundo, o Verbo cuja doutrina ilumina as almas; Ele é também o Verbo criador da vida, e o Principio primeiro cuja potência fecundante espalha e perpetua sobre a terra a vida física na ordem natural, e cuja graça produz a vida espiritual na ordem sobrenatural; portanto, Dele, fonte inicial, partem a vida sensível dos corpos; e a vida supra-sensível das almas.
Essa fecundidade misteriosa do Cristo, princípio e fonte de toda vida, que a emblemática cristã tão bem serviu, resume-se nesta equação: O Cristo, esposo; a Igreja, esposa; a íntima união dos dois produzindo filhos para a vida espiritual e, para falar como os primeiros doutores, habitantes para a Jerusalém do céu, para a Cidade de Deus.
E essa concepção mística teve eco na literatura sagrada, na liturgia, na arte, e também na emblemática do Cristianismo sob as figuras do touro, do cordeiro, do cervo.
No que diz respeito ao touro, ele não é apenas, dizem os antigos doutores, o chefe do rebanho, ele é também o esposo e o pai; ele faz nascer a alegria, o amor, e, por isso mesmo, a vida; ele assegura assim a perpetuidade da espécie e a multiplicação do rebanho. Da mesma forma, o Cristo na Igreja propaga a vida e faz crescer o número dos fiéis, dos eleitos. A palavra de Jesus a seus apóstolos: “Ide, ensinai as nações e batizai-as...” se parece muito com aquela que Deus disse à família de Noe, no capítulo IX do Gênesis: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra”...
O velho aspecto pagão do touro como ídolo e talismã gerativos, não mais do que seu papel natural e providencial de garanhão não podia desviar dele os primeiros artesãos do simbolismo cristão. É por isso que na Asia-Menor, no Egito, na Síria, como na Caldeia e na Babilônia onde o Cristianismo provavelmente penetrou desde os primeiros anos de sua fundação, o touro prolífico, venerado como divino pelos ancestrais, anatematizado como falso deus pelos primeiros bispos, foi no entanto admitido, ao simples nível de imagem alegórica, e com um sentido modificado, na emblemática do Senhor Jesus Cristo. Ele se encontrou por isso cristianizado como foi em Roma o deus Sol, como as fontes sagradas das Gálias que a Igreja santificou consagrando-as ao Cristo ou a seus santos.
Em verdade, o Cristianismo primitivo foi tão amplamente acolhedor quanto era possível ser para todos os emblemas pagãos de antes dele, que, por transformação ou por adaptação, podiam, de acordo com seu dogma, ajudar a satisfazer a ardente sede que teve de reconhecer em tudo o Cristo e sua ação vivificante.
É em virtude dessa adaptação que por volta do final do século II de nossa era, Tertuliano escrevia falando do touro simbólico: “Pergunto, é algum animal poderoso, ou algum monstro fabuloso que este emblema pressagia? Não, sem dúvida. Este touro misterioso, é Jesus Cristo, juiz terrível para uns, redentor cheio de mansidão para outros”.
A fúria do touro investindo, chifres baixos, contra todo inimigo do rebanho, fosse ele tigre ou leão, impressionou também nossos pais que fizeram do terrível e fervente animal a imagem da indignação do Cristo e da força de sua cólera. Alguns outros quiseram ver no touro que Simeão e Levi torturaram cortando-lhe os nervos, a imagem de Jesus Cristo conduzido à morte pelo sacerdócio judaico que dirigiam Ana e Caifás, mas é preciso admitir que as aproximações que eles quiseram fazer nesse tema carecem singularmente de limpidez. Acrescentamos que essa alegoria do touro irritado permaneceu, acreditamos, no único domínio da simbologia literária.
Este Cristo, que o Livros de Enoch, dois séculos antes de nossa era, previu sob a forma de um homem que simboliza um touro branco, místicos quiseram reconhecê-lo, em parte, nos touros da Assíria, os “Querubins”, designados por eles como imagem trinitária e na qual o corpo taurino “figura a potência do Pai, a cabeça humana, o Verbo incarnativo, as asas o Espirito Santo.”
Não é preciso, mais seguramente, reconhecê-lo naquele filigrana de um papel, em uso na França de 1409 a 1411, que nos mostra entre os chifres da cabeça bovina a cruz e a inicial do nome sagrado Christos.
E por que não recordar aqui aquele gesto das touradas, na Espanha, que assimila, de forma muito imperfeita todavia, o touro ao Redentor marchando para a morte; chamamos na tauromaquia “a passe de Verônica”, porque consiste em segurar a capa diante da face do touro, como a mulher compassiva, na lenda - pois é apenas uma lenda bordada à margem dos Evangelhos - apresentou seu véu ao Salvador exausto.
I. Os Animais do Holocausto
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Impressão dos inúmeros rebanhos de vítimas imoladas ao Senhor no Antigo Testamento
- Os Patriarcas e os Hebreus sacrificaram incontáveis animais a Deus, inicialmente nos Altares dos ‘lugares altos’ e posteriormente no Tabernáculo e nos Templos de Jerusalém.
- O Êxodo e o Levítico codificaram liturgicamente esses sacrifícios, que por vezes envolviam centenas de vítimas simultaneamente.
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A razão de ser dos holocaustos: a vida está no sangue para expiação e reconciliação
- A justificativa sagrada para tais práticas reside na crença de que a vida reside no sangue, o qual foi concedido por Deus para ser oferecido no altar como expiação pelas almas, servindo como instrumento de reconciliação.
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A universalidade dos sacrifícios de sangue no mundo antigo e seus caracteres
- Para além de Israel, todo o mundo antigo praticava sacrifícios de sangue em seus templos e santuários, incluindo, por vezes, a imolação de vítimas humanas.
- Estes sacrifícios possuíam diversos caracteres: de glorificação (reconhecimento da supremacia da Divindade), de impetração e propiciação (pedido de auxílio e favor), de expiação (pedido de perdão) e de gratidão (agradecimento por benefícios).
- A teologia católica reconhece estes mesmos caracteres no sacrifício místico do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, que substituiu os sacrifícios abolidos da antiga Lei mosaica.
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A substituição dos antigos sacrifícios pelo de Cristo e sua emblemática
- Esta substituição fez com que, na simbólica e na emblemática cristãs, os animais do holocausto, as antigas ‘hóstias’, fossem aceites como emblemas oportunos do Salvador imolado no Gólgota.
- São Paulo, na sua carta aos Hebreus, estabelece a teoria deste simbolismo, argumentando que se o sangue de vítimas animais purificava a carne, o sangue de Cristo, que se ofereceu a si mesmo sem mancha, purificará muito mais a consciência.
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A diversidade de animais sacrificados e a primazia do touro
- Diversos animais foram sacrificados, como a pomba, o cabrito, o bode, o cordeiro, a vaca, a novilha e o bezerro. No entanto, a grande vítima, por excelência, foi o touro.
II. O Touro nos Cultos Pré-Cristãos
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No Egito: emblema do deus supremo Amon e encarnação em Ápis e Mnévis
- Na mitologia egípcia, o touro foi um emblema do deus supremo Amon, invocado como ‘Touro Celeste’.
- Esta divindade solar encarnava-se nos touros Ápis (em Mênfis) e Mnévis (em Heliópolis). O culto de Ápis, sob os Lágidas, foi assimilado a Zeus e a Júpiter.
- O touro também era a personificação do deus Ptah, como força divina de vida renovadora, e a sua cabeça, associada ao crescente lunar, era oferecida separadamente nos sacrifícios e usada como amuleta.
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Na Assíria e na Caldéia: o touro divinizado com rosto humano e o deus Adad
- As mitologias assírio-babilónicas relacionavam o touro com influências celestes e a natureza divina, representando-o com rosto humano.
- Os impressionantes touros alados androcéfalos (querubins) da Assíria, coiffados de tiaras e com asas de águia, são exemplos marcantes. É plausível que os querubins da Arca da Aliança e do Templo de Salomão em Israel fossem semelhantes.
- O deus Adad, ‘Senhor do fogo celeste’ e governante das tempestades, tinha o touro como seu emblema, sendo por vezes representado montado sobre o animal.
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Na Grécia e na Europa: Posêidon, mistérios de Mitra e o taurobólio
- Na Grécia antiga, o touro estava ligado a Posêidon (Netuno), a quem se sacrificavam touros negros.
- Religiões de mistério, como o Mitraísmo e o Orfismo, atribuíram ao sacrifício do touro um poder singular de purificação e propiciação, culminando no ritual do taurobólio: o iniciado colocava-se numa fossa e era banhado pelo sangue do touro imolado acima dele, num ‘batismo de sangue’ que se acreditava purificador.
- Costumes similares de consumo de sangue bovino vivo persistiram noutras culturas, como junto às cataratas do Zambeze e no Laos, onde o sacrifício de um búfalo serve para prever o futuro.
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Representação monetária e cultural do touro no mundo antigo
- A imagem do touro foi cunhada em moedas de cidades gregas (como Síbaris e Síris), gaulesas (de Avennio e do chefe Atectorix) e latinas.
- Na arte, era atrelado ao carro de Diana (Ártemis) devido à semelhança de seus chifres com o crescente lunar.
- Entre os povos celtas (Gauleses, Irlandeses, Bascos) e os Cimbres, os juramentos mais sagrados eram feitos com a mão estendida sobre um touro sacrificado.
III. O Pai do Rebanho
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O touro como símbolo universal da força fecundadora e propulsora da vida
- Mais do que um chefe temível, o touro foi primordialmente valorizado como ‘pai fecundo’ nas primeiras sociedades humanas.
- Por toda a Ásia, era a imagem das forças psíquicas e físicas que propulsionam a vida. No Egito, seu hieróglifo significava ‘fecundador’, e na Grécia, simbolizava a força criadora.
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Origem autóctone do simbolismo e sua ligação com a lua
- O simbolismo do touro (e do carneiro) como signos zodiacais da primavera não terá partido apenas da Ásia, mas surgiu de forma autóctone onde quer que o homem primitivo se tornou caçador e depois pastor, como atestam as pinturas rupestres magdalenianas.
- Crenças obscuras ligavam as influências astrais da Lua aos fenómenos biológicos. Os chifres do touro, assimilados ao crescente lunar, tornaram sua cabeça um talismã gerativo (bucrânio).
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Disseminação do bucrânio pelos Fenícios e exemplos na Gália
- Os Fenícios propagaram a imagem do bucrânio através dos seus postos comerciais (emporia) por todo o Mediterrâneo e costas atlânticas.
- Exemplos desta disseminação incluem amuletos encontrados em Beauvoir-sur-Mer (Vendée) e um bucrânio em ouro do túmulo do rei Childerico I (século V), com olhos de granada e uma roda solar na testa.
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O touro como símbolo da fecundidade da terra e das fontes
- Os Gregos também tomaram o touro para representar a fecundidade da terra fertilizada pelas águas do céu e das fontes.
- Posêidon, deus das chuvas, era chamado ‘o Mugidor’ e por vezes ‘o Touro’, tal como o rio Acheloüs.
- Nas moedas da Sicília grega, touros (por vezes com rostos humanos) simbolizavam a fecundidade dos rios.
IV. O Touro na Emblemática de Cristo
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O touro como hieróglifo de Jesus Cristo, a Vítima Redentora
- Com base nas visões de Ezequiel e de São João, os primeiros simbolistas cristãos (como Raban Mauro, São Bruno de Asti e São Ivo de Chartres) apresentaram o Touro como um dos quatro hieróglifos de Jesus Cristo.
- Foi visto como emblema da Vítima Redentora que, pela efusão de todo o seu sangue, assegurou a purificação e reconciliação da humanidade.
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O Cristo como fonte de vida e o touro como emblema da sua fecundidade espiritual
- A iconografia antiga via Cristo como fonte de luz e de vida, o Verbo iluminador e criador.
- Esta sua fecundidade mistérica, produtora de vida espiritual (a geração de fiéis para a Igreja, sua esposa), foi representada sob as figuras do touro, do carneiro e do veado.
- Assim como o touro é o pai e esposo do rebanho, assegurando a sua perpetuação, Cristo propaga a vida e faz crescer o número dos eleitos.
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Adaptação e cristianização de um emblema pagão
- O Cristianismo primitivo adaptou e cristianizou emblemas pagãos pré-existentes, como fez com o deus Sol e as fontes sagradas.
- O touro prolífico, anátema como falso deus, foi readmitido como imagem alegórica de Cristo, com um sentido modificado.
- Tertuliano, no século II, identificava claramente o ‘touro misterioso’ como Jesus Cristo, juiz terrível e redentor manso.
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Outras interpretações: a fúria do touro e o touro branco de Henoc
- A fúria do touro defendendo o rebanho foi vista como imagem da indignação e da força da cólera de Cristo.
- O Livro de Henoc (século II a.C.) previu o Cristo sob a forma de um touro branco.
- Alguns místicos viram nos querubins taurinos da Assíria uma imagem trinitária (corpo= poder do Pai; cabeça= Verbo; asas= Espírito Santo).
- Um filigrano de papel francês (século XV) mostra uma cabeça de touro entre cujos chifres está uma cruz e a inicial ‘X’ de Xristos.
V. O Touro, Emblema de Satanás
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Representações apocalípticas de Satanás com formas taurinas
- Em composições de feição apocalíptica, o touro emprestou suas formas a Satanás para personificar as obras do inferno.
- Manuscritos medievais representam Satanás como um ser com corpo e chifres de touro, cabeça de leão, asas de morcego e garras de águia.
- Outras representações incluem um touro com cabeça de galo (basilisco) e o deus Bel (de Babilónia) com uma cabeça meio humana e meio taurina, busto peludo e patas de abutre.
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Paralelos com a iconografia maligna da Caldéia
- Estas criações coincidem com a iconografia sagrada da Caldéia, que representava monstros como Eabani como homens cornudos com quartos traseiros de touro.
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- Touros marinhos ou dragões com corpos serpentiformes ou pisciformes eram igualmente vistos como imagens de monstros amaldiçoados, veículos do espírito maligno.
VI. As Antíteses do Touro: Moloch e o Minotauro
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Moloch: o deus taurocéfalo do sacrifício infantil
- Moloch era um deus mau dos Amonitas, Moabitas e Cananeus, representado com um corpo humano e cabeça de touro.
- Suas estátuas de bronze, colossais e ocas, eram preenchidas com crianças e queimadas em sacrifício abominável, prática que os reis Salomão e Manassés de Israel chegaram a adotar, apesar da proibição no Levítico.
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O Minotauro: o monstro cretense e sua interpretação
- Na mitologia egeia, o Minotauro era um monstro com cabeça de touro e corpo de homem, nascido da união da rainha Pasiphaé com um touro enviado por Posêidon.
- Enclausurado no Labirinto de Cnossos, alimentava-se de jovens atenientes, até ser morto por Teseu.
- Embora alguns eruditos (como Lanoë-Villène e G. Glotz) vejam no Minotauro um antigo mito solar ou um deus da potência viril, a tradição predominante manteve-o como uma das imagens do Espírito do Mal.
- Teseu, seu vencedor, foi por vezes aproximado retoricamente, pelos Padres da Igreja, de Cristo, o libertador das almas.