VIDE: ANTIMIMO
Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA
O cinismo e a hipocrisia são duas formas de orgulho: o cinismo é a caricatura da sinceridade ou da franqueza, ao passo que a hipocrisia é a caricatura do escrúpulo, da disciplina ou da virtude em geral. Os cínicos acreditam que ser sincero é exibir defeitos e paixões e que ser hipócrita é escondê-los. Eles não se dominam, nem com muito mais razão procuram se sublimar; e é prova do seu orgulho o fato de considerarem justamente a sua tara como uma virtude. Pelo contrário, os hipócritas acreditam que ser virtuoso é exibir atitudes virtuosas, ou que as aparências da fé bastam para a fé. Seu vício não consiste em manifestar as formas da virtude — o que é uma regra que se impõe a todos —, mas em acreditar que essa manifestação é a própria virtude e, sobretudo, em imitar as virtudes com a intenção de serem admirados; o que é orgulho, uma vez que é individualismo e ostentação. O orgulho consiste em superestimar-se, subestimando os outros; e é o que faz o cínico assim como o hipócrita, grosseira ou sutilmente, dependendo dos casos.
Tudo isso equivale a dizer que, no cinismo assim como na hipocrisia, colocamos o ego autócrata, portanto tenebroso, no lugar do espírito e da luz. Os dois vícios são roubos pelos quais a alma passional e egoísta se apropria do que pertence à alma espiritual. Não obstante, apresentar um vício como uma virtude e acusar correlativamente as virtudes de serem vícios, como faz o cinismo sincerista, não deixa de ser hipocrisia, mas é uma hipocrisia particularmente perversa.