Duas coisas em face uma da outra, em relação, estão uma a par da outra. Tomadas quantitativamente, uma será maior do que a outra, esta menor do que aquela ou de igual tamanho, por exemplo. Serão iguais ou desiguais.
Mas tal se dará no emparelhamento (de par) de ambas, independentemente de nós, mesmo que ninguém perceba essa relação.
A esta relação de comparação, que também devemos considerar qualitativamente, nenhuma coisa consegue escapar.
Nessa comparação, podem ser diferentes, isto é, uma di-fere da outra (de di, igual a bis, dois que levam a dois, que são dois, pois o que difere de outro, leva a outro, são dois e não o mesmo, não se repetem), ou não di-ferem, e são iguais.
Dois objetos comparados são distintos por serem dois, mas são diferentes se suas notas permitem que se diga, de um, algo que não se diz totalmente do outro. Assim dois objetos podem ser distintos e diferentes ou diversos.
Assim devemos considerar a comparação como:
a) meramente real, independente de nós, a que se dá nas relações entre as coisas, e
b) a comparação através da intuição, que se faz através de nosso relacionamento com o relacionamento das coisas.
As coisas, pertencentes ao mundo objetivo, têm posicionalidade no tempo e no espaço, e elas têm, por sua vez estrutura, a qual implica a primeira.
Os objetos ideais, enquanto ideais, têm posicionalidade no tempo psíquico, onde se estruturam como esquemas, num eu de posicionalidade tempo-espacial.
Os objetos físicos têm posicionalidade no tempo e no espaço. Os esquemas abstratos, como meramente ideais que são, estão incluídos em esquemas abstratos de temporalidade e de espacialidade (ideais também), sem existência no mundo exterior, enquanto tais, mas com referência ao objeto, pois, como já vimos, se nem o esquema abstrato de nada pode excluir a objetividade para ser pensado, muito menos as ideias de possíveis.
Ademais a gênese dos esquemas abstratos, estudados na “Noologia Geral”, mostra-nos o processo objetivo de sua construção.
No complexo tempo-espacial, temos a pluralidade de tensões. Considera-se que não rege para os objetos ideais nem o tempo nem o espaço (por exempla, os números).
Mas esses objetos ideais não são subsistentes de per si, como separados na ordem universal, que os contém era potência ou em acto.
O mundo das ideias platônicas não é como frequentemente se julga, algo que se dê topicamente fora deste, em sentido espacial. As ideias não têm topicidade, mas têm a significabilidade das coisas que as apontam, como símbolos que são estas.
Por isso, uma ideia, a de bem, por exemplo, pode ser captada por vários actos de pensar, sendo ela sempre o mesmo pensamento, desde que não consideremos o que há de hilético, de empírico, de fático, que a ela se junta, na experiência individual.
Os objetos metafísicos não são entidades que se possam hipostasiar como subsistentes de per si, mas como subsistentes na ordem do ser (ontológico). Elas constituem a idealidade real do ser e são afirmadas pela realidade ideal deste. [Mário Ferreira dos Santos – Ontologia e Cosmologia]
As analogias, metáforas e comparações aparecem copiosamente nas obras dos grandes místicos constituindo uma preciosa antologia de seu esforço no sentido de tornar o divino acessível à compreensão do homem.
Convincente e lúcido é o exemplo do pássaro preso a um fio ou a uma corda que, semelhantemente ao homem que não sabe ou não quer conciliar de forma radical a sua vida de acordo com as exigências dos valores do "Reino", permanece enredado em coisas de pouco valor e de pouca importância.
"É supérfluo recordar que a alma até ser libertada de suas imperfeições, embora mínimas, não poderá fazer nenhum progresso no caminho da perfeição. Não importa se é tênue ou espesso o fio que prende o pássaro, pois em qualquer das hipóteses ele permanecerá prisioneiro. É verdade que o fio tênue se rasga com maior facilidade, todavia, somente quando se romper é que o pássaro se tornará livre". (1S 11, 4)
Simples e estimulante é a analogia do contemplativo e o alpinista que ao escalar a montanha deve reduzir sua carga ao essencial, evitando o cansaço desnecessário para não comprometer o êxito de sua empreitada.
"Esta senda que conduz ao monte sublime da perfeição é estreita e escarpada e não pode ser enfrentada por viajantes cuja carga os prenda às coisas inferiores ou que levem pesos que constituam obstáculo para alcançarem aquelas superiores. Já que se trata de um compromisso único em que se busca e se alcança a Deus, unicamente Deus deve ser o propósito desse compromisso". (2S 7, 3)
Também oportuna e muito expressiva é a comparação entre o bastão do viajante e o sustentáculo da fé: "A cruz é o bastão sobre que apoiar-se, o qual abranda e torna mais fácil o caminho". (2S 7, 7)
Brilhante, profunda e também espirituosa é a descrição que nos fornece Teresa de Ávila sobre a natureza e a rapidez do êxtase onde o arrebatamento místico equivale à inserção na dimensão metafísica do circuito divino:
"Como o sol, que está no céu, é capaz de mandar em um instante seus raios sobre a terra sem se mover, a alma — que com o espírito só faz uma coisa à semelhança do sol com seus raios — não poderia por certo através da força do calor que lhe chega do verdadeiro Sol de Justiça elevar-se acima de si mesma mediante qualquer parte superior sua sem que para tanto fosse necessário abandonar seu lugar? A verdade é que com a velocidade com que a bala sai do arcabuz quando é ativado, levanta-se no interior uma espécie de voo — não sei que outra denominação poderia atribuir — o qual, embora silencioso, tem todavia um impulso tão evidente que não deixa margem a dúvida". (M VI, 5, 9)
Também feliz e pertinente é a analogia do bicho-da-seda cujo ciclo vital é comparado à transformação da vida espiritual, lida e interpretada à luz de uma evolução que se inclina a libertar o espírito humano dos vínculos corpóreos após haver percorrido as diversas fases de sua trajetória existencial.
"Ouvistes das maravilhas que Deus opera na produção da seda de cuja invenção apenas Ele poderia ser o autor. Na chegada do verão, quando as amoreiras se cobrem de folhas, essas sementes começam a germinar. As primeiras que despontam das citadas folhas das quais se devem nutrir lá estão como mortas mas, pouco a pouco, com aquele alimento se desenvolvem até que, mais crescidas, deitam alguns raminhos e ali, com sua pequena boca, sugam a seda extraída de seu próprio interior fabricando alguns casulos muito densos nos quais cada um daqueles insetos, que são feios e volumosos, se recolhe e morre. Pouco depois, entretanto, sai do casulo uma pequena e muito graciosa borboleta branca.
. . . Oh! se conhecêssemos todas as propriedades das coisas! Certamente seria de grande proveito poder meditar sobre essas maravilhas!
Agora, retomando nosso assunto, a alma, da qual aquele bicho é a semelhança, começa a tomar vida quando graças ao calor do Espírito Santo, se utiliza dos meios que Deus coloca à sua disposição.
. . . Quando esse bicho aumenta de tamanho, começa a trabalhar a seda e construir a casa em que irá morrer. Essa casa, como queria fazer compreender, é Cristo". (M V 2, 2.3.4.) [Frei Sandro Grimani — A linguagem simbólica a serviço da vida espiritual em João da Cruz]