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Eckhart Arte

ARTE — Artesania



VIDE: PARÁBOLA DOS TALENTOS


Excerto das reflexões de Frei Harada sobre termos chaves em Mestre Eckhart

Kunst, können [Kunst: Arte, (em latim ars, -tis, na acepção do artesanal); können: poder, saber poder]

O adjetivo artesanal diz respeito à habilidade ou o hábito de uma classe de trabalhadores denominados artesãos, na confecção de um artefato. Essa habilidade, no entanto, não se referia, primordialmente só à produção do objeto arte-fato. Pois, o artefato aqui não era propriamente um objeto fabricado, mas sim uma obra, em cuja elaboração, a própria humanidade, i.é, o ser do homem, do artesão se perfazia, vinha a se tornar cada vez mais ser. A obra não era outra coisa do que o vir à luz, o vir à uma determinada consumação desse perfazer-se do próprio ser humano do artesão. A habilidade do artesão em latim se diz ars, -tis. Trata-se, pois, da competência de um agir todo próprio, cujo modo de ser se caracteriza como um saber que está por dentro de e capta a dinâmica da possibilidade de ser, do poder ser. Esse saber no alemão é Kunst. Kunst vem do verbo können que significa saber poder. Na ars, na Kunst não se trata da potência de uma força natural, mas sim de uma possibilidade da concreção humana na habilitação do seu ser, conquistada a duras penas, a partir de um dom natural, e tornada uma sua segunda natureza, denominada virtude . A tal saber poder se chega através do empenho de busca, no uso da inteligência e vontade, i.é, no exercício da liberdade, em contínuo e bem orientado exercício de aprendizagem. É dom de uma conquista, pois, o surgir, crescer e consumar-se na realização desse perfazer-se não é causado simplesmente pelo arbítrio de quem busca, mas salta da total disponibilidade de dar de si o melhor para acolher a possibilidade finita, bem determinada concedida gratuitamente de antemão à pessoa, em busca, e de seguir a condução que lhe vem ao encontro, do fundo dessa própria possibilidade. É desse encontro do empenho de total doação de si e do dom da possibilidade gratuita que salta a possibilidade de ser inteiramente nova como obra de uma criação. Salta como dom de uma busca a inteiramente nova possibilidade como obra do perfazer-se de si, como obra da perfeição.


Enio Paulo Giachini tomou esta aproximação e a expandiu com citado abaixo no glossário de sua excelente tradução dos Sermões Alemães de Mestre Eckhart

O adjetivo artesanal indica o modo da ars (-tis), próprio do artesão, no seu agir e criar obra. Esse modo de ser, no entanto, era a manifestação do que constituía o modo de ser e de se interpretar do homem medieval, na realização da sua humanidade, como gênese, crescimento e estruturação de um mundo, sob o toque de uma determinada possibilidade de ser. Tal abertura da possibilidade de ser se chama existência. Assim, o artesanal no medieval não é, propriamente, apenas atributo e qualificação de uma pessoa ou de grupo de pessoas, mas sim o modo de ser, que uma vez subsumido pelo sentido do ser denominado filiação divina se tornou o característico próprio do ser medieval.

Essa existência artesanal subsumida pelo sentido do ser da filiação divina nos pode levar a crer que todo o pensamento medieval é unilateralmente teológico. Essa constatação é correta. Mas não no sentido de absolutização do teológico, entendido como um ponto de vista parcial, ao lado de outros pontos de vista. O teológico do medieval é antes uma pré-compreensão ontológica, isto é, o sentido do ser da existência medieval, o uni-verso da realização da realidade a priori, toda própria, cuja lógica do seu ser somente se torna acessível e necessária se nos colocarmos no ponto de salto, a partir e dentro do qual se dá a aberta3 da eclosão e manifestação do mundo medieval. Neste sentido, a criação como filiação divina é algo como condição da possibilidade de ser, agir, e sentir; portanto, é o ser do ser-no-mundo medieval, e não ponto de vista, um aspecto parcial.


Coomaraswamy Arte Hindu: A OPERAÇÃO INTELECTUAL NA ARTE ÍNDICA

O Shukranitisara IV.70-71 define o procedimento inicial do imaginário índico: este deve ser um perito na visão contemplativa (yoga-dhyana), para o que as prescrições canônicas fornecem a base; e somente dessa maneira, e não pela observação direta, devem ser alcançados os resultados requeridos.

Todo o procedimento pode resumir-se nas palavras: “quando se tiver realizado a visualização, põe-te a trabalhar” (dhyatva kuryat, idem VII.74), ou “quando se tiver concebido o modelo, coloca na parede o que se visualizou” (cintayet pramanam; tad-dhyatam bhittau nivesayet, Abhilashitarthacintamani, I.3.158).

A distinção e a ordem desses dois atos já haviam sido reconhecidas há muito tempo em relação ao trabalho sacrificial (karma) da edificação do Altar do Fogo, onde, sempre que os construtores não sabem o que fazer, lhes é dito que “contemplem” (cetayadhvam), isto é, que “dirijam a vontade para a estrutura” (citim icchata); e as “estruturas” (citayah) são assim chamadas “porque eles as viram contemplativamente” (cetayamana apasyam).

Essas duas etapas do procedimento são as mesmas que o actus primus e o actus secundus, as partes “livre” e “servil” da operação do artista, nos termos da teoria escolástica. Mostrei em outro lugar que o mesmo procedimento é dado por certo tanto na arte secular quanto na arte hierática.

Contudo, onde se encontrarão as exposições mais detalhadas do primeiro ato é nas prescrições hieráticas budistas (sadhana, dhyana mantram); e estas são de tal interesse e significação que parece desejável publicar uma tradução completa e cuidadosa de um dos exemplos mais longos disponíveis de tal texto, anotado com citações de outros.

Por conseguinte, procede-se com o Kimcit-Vistara-Tara Sadhana, n.º 98 no Sadhanamala, Gaekwad’s Oriental Series, n.º XXVI, pp. 200–206.