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Festa do Asno

FESTAS — FESTA DO ASNO


Jean Robin: SETH O DEUS MALDITO

Como sempre, é no folclore, nas festas populares que os mistérios se refugiaram, ao abrigo da incompreensão dos doutos e fariseus. Eis porque a Igreja latina da Idade Média, tão acolhedora aos humildes, o que possa se dizer, quis a associar ao Asno, mais que a qualquer outro animal, a suas festas. Se faz homenagem nas «Restituições» espanholas, com personagens vivos, da fuga ao Egito e do retorno da Santa Família a Nazaré. Encontra-se o asno nos autos sacramentais, composições teatrais que não desdenharam nem Lope de Vega nem Caldeirão — e que podem ser aproximadas de nossos «mistérios» medievais. No últimos precisamente, que se desenvolviam um pouco por toda parte, o asno ainda é honrado, com a entrada do Senhor em Jerusalém. Enfim, festas especiais lhe são consagradas: as «festas do asno» que celebravam sobretudo nossas províncias setentrionais e que viam o asno entrar nas catedrais, coberto de uma capa em lembrança do versículo de Mateus (21:7) onde é dito que no Domingo de Ramos os discípulos do Cristo lhe levaram a jumenta e o jumentinho de Bethphage e «puseram sobre eles seus mantos». Essas cerimônias ingênuas que fazem no tempo dos Capetianos a alegria popular excitaram como o escreveu Charbonneau-Lassay no Bestiário de Cristo, a pobre verve dos espíritos fortes do passado e de hoje, que aí não podem nada compreender e que, além do mais, amplificaram, deformaram totalmente os fatos, a fim de ridicularizá-los. E mesmo pessoas de boa fé imaginam que estas festas do asno eram festas «carnavalescas», paródicas e blasfematórias, que constituíam uma espécie de loucura coletiva cuidadosamente enquadrada e assim «atenuada». Mas assim não é. Mesmo em seguida a inevitáveis degenerescências, estas festividades puderam a longo prazo dar esta impressão, o espírito original que presidia às «festas do asno» era muito sério.