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id da página: 6337 Festugière – Hermetismo – Teologia e Cosmogonia André-Jean Festugière

Festugiere Hermetismo Cosmogonia

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

Teologia e Cosmogonia (Poimandres I 4-11)

PRIMEIRA FASE (I 4-6)


O narrador do tratado I — é o próprio Hermes (cf. XIII 15) — reporta que um dia, durante um êxtase, vê lhe aparecer um ser de um tamanho imenso que lhe diz: "Que queres conhecer?" Responde perguntando o nome desse desconhecido: este se nomeia, é Poimandres, o intelecto da Soberania Absoluta (o Primeiro Deus). Hermes então exclama: "Quero compreender os seres e suas naturezas, e conhecer Deus". Em resposta, Poimandres promete instruí-lo.

Dito isto, o desconhecido muda de forma, torna-se uma entidade luminosa, "serena e jovial". Logo, nessa Luz, se faz uma diferenciação. O alto fica a Luz, o baixo torna-se uma obscuridade assustadora, agitada, de movimentos caóticos. Depois, esta obscuridade muda-se em uma espécie de natureza úmida, "sacudida por uma maneira indizível", a exalar um vapor como desenrascado do fogo, a produzir uma indescritível lamúria.

De repente, esta natureza úmida lança um grito de apelo. A esse grito, brota da Luz, logo, do mundo celeste, um Verbo Santo que vem cobrir a natureza úmida. Sob esta ação, aparentemente, sai lá de baixo da natureza úmida, de início um fogo puro que se eleva; depois o ar que se dirige ao alto até a região atingida pelo fogo, enquanto que a terra e a água, sempre agitadas, por movimentos sob a ação do sopro do Verbo, permanecem em baixo confundidas.

Resumamos esta primeira fase (I, 4-5).

- Existe, então, de início a Luz: primado original da luz.

- Em seguida, sem que se manifeste a ação de uma causa eficiente, uma primeira distinção e oposição, que fica também uma oposição fundamental no hermetismo: aquela da Luz e das Trevas. A Luz, ela, não muda: é o mundo tenebroso lá de baixo que vai se precisar por uma divisão interna.

- Transforma-se de início em natureza úmida. Sob a ação do Verbo procedente da Luz, esta natureza úmida faz sair de ela-mesma o fogo e o ar, ao mesmo tempo em que fica um magma de água e de terra. Tem-se, doravante, os quatro elementos, todos procedentes da obscuridade, por conseguinte, todos maus por princípio, e tão maus que eram ficaram mais próximos da matéria obscura inicial.

Poimandres explica em seguida esta primeira visão (I, 6): a Luz, é o próprio deus “Noûs”, "aquele que existe antes da natureza úmida saída da obscuridade". O Verbo procedente da Luz, ou seja, do “Noûs”, é o filho de Deus.


SEGUNDA FASE (I 7-8)

Esta segunda fase concerne o mundo luminoso que, permanecendo todo luminoso, e sem mudar ele-mesmo de forma, se fixa aos olhos do profeta nesse sentido que se distribui em um número incalculável de Poderes. Por outro lado, o fogo, o qual se havia dito somente que estava enlaçado da natureza úmida em direção ao alto, é agora claramente distintivo do mundo lá do alto: envolvido e contido por uma força toda poderosa, toma sua posição definitiva, sob a região da luz.

Segue uma nova explicação (I, 8). O mundo luminoso distribuído em Poderes é o mundo das Ideias, dos arquétipos, « o pré-princípio anterior ao começo sem fim ». Quanto aos elementos da natureza, saíram, disse Poimandres, « da Vontade de Deus (ou da Deliberação de Deus, “Boule Theou”) que, tendo recebido nela o Verbo e tendo visto o belo mundo arquétipo, o imita, formada como foi em um mundo ordenado segundo seus próprios elementos e seus próprios produtos, as almas ».

Começamos, desde logo, a perceber o desígnio desta gênese mitológica do mundo. A ideia fundamental, vimos pela última vez, é de manter o Deus Supremo o tão estrangeiro quanto possível na produção de um mundo que é visto como mau. A solução do autor hermético é dupla. Consiste de uma parte em supor no Deus Supremo uma dualidade original, e de outra parte em fazer intervir, como princípios ativos na organização do Cosmos, não o Deus Supremo em pessoa, mas, hipóstases desse Deus, emanações divinas que são ditas filhos de Deus.

A dualidade original é aquela do Noûs e da Boule. Em um dado momento — aliás, não se sabe por que, se é que é necessário explicar melhor de alguma maneira a dualidade do mundo espiritual e do mundo da matéria — esta Boule se separa do Noûs luminoso. Ora o Noûs luminoso é ele-mesmo um mundo ordenado de Formas, de Arquétipos. A Boule é então tomada do desejo de imitar esse mundo ideal, ela se oferece como um poder passivo à ação que fará dela também, um mundo ordenado.

Mas, ela não é senão um poder passivo. Para formá-la em um mundo, quer dizer em uma ordem, é preciso um princípio ativo. Esse princípio ativo não será o Primeiro Deus, o Primeiro Noûs. Será um filho de Deus, o Logos ou Verbo. É sob a ação desse Logos que se operará na Boule-obscuridade a divisão interna dos quatro elementos e suas repartições nos lugares que lhes convenham.

Vê-se também como o autor hermético não teve resultado para essa solução senão tomando emprestado de todos os lados dos mais diversos sistemas. O mundo arquétipo vem de Platão. A influência do Gênese hebraico é evidente, reconhecível em mais de um traço (o Logos que cobre a natureza úmida lembra o sopro que, no Gênese, cobre o caos original): assim como uma citação textual, mais longe (« Crescei-vos em progresso e multiplicai-vos em multidão, todos vós, minhas criaturas e minhas obras » I, 18 — Gen, 8,15)1 , torna esta influência indubitável. Por outro lado o Logos-sopro faz pensar no Pneuma estoico. E o encontrar-se-ia ainda, sem dúvida outros empréstimos. Mas, não são esses empréstimos que me parecem o traço interessante. O que importa, é a ideia-mãe, esta ideia fundamental, que não se faz necessário que o Deus Supremo tenha tido alguma parte direta na produção do mundo lá de baixo. (Notemos, de passagem, que o Logos é aqui o Filho Primogênito).


TERCEIRA FASE (I 9-11)

É em virtude desse princípio da não-participação do Pai que se vê aparecer, no limiar da 3ª fase, um novo personagem divino, um segundo filho de Deus, o Noûs demiurgo. O Noûs Pai é macho e fêmea (arrhénothélus; (v. Andrógino) (v. Annick de Souzenelle, Masculino e Feminino), sendo luz e vida, em grego Phôs (neutro) e Zôé (feminino). Gera então um segundo filho, o Noûs demiurgo, deus do fogo e do sopro, cujo papel é de formar os sete Governadores, isto é, as sete esferas planetárias que envolvem em seus círculos o mundo sensível e, por seus movimentos, produzem o Fado.

Nesse momento o Verbo de Deus (o filho Primogênito) que tinha ficado em baixo onde cobria o magma de terra e de água, vai juntar-se o segundo filho, Noûs demiurgo, deus do fogo, na região dos astros ígneos que esse Noûs demiurgo acaba de formar. O Verbo se uniu ao Demiurgo (« pois, lhe é consubstancial ») e, por suas ações conjuntas, Logos e Noûs demiurgo colocam em movimento a atividade dos sete círculos. Esta rotação produziu então, na parte inferior do mundo material, os animais do ar, da água e da terra (terra e água, nos foi dito, estiveram separadas) e todos esses animais são «sem Razão», aloga2 , pelo fato que o Logos deixou o mundo lá de baixo pela região dos astros. Aprendemos, além disso, por um incidente posterior (I, 18) que esses animais são originalmente bissexuados, ao mesmo tempo macho e fêmea3 .

Dois traços são a destacar nesse parágrafo. Logo de início a dualidade do Logos e do Noûs não parece ser imposta por uma necessidade lógica. Por essas diferentes fases da criação — discriminação dos elementos, organização da região do fogo dividida em sete esferas planetárias — foi suficiente, logicamente, de apenas um só demiurgo que tivesse podido nomear tanto Noûs quanto Logos. A dualidade pareceu imputável, aqui, não tanto a uma necessidade lógica quanto à multiplicidade das fontes as quais o autor tomou emprestado. Encontrou de uma parte um Logos demiurgo (assim como Fílon), de outra parte um Noûs demiurgo, e utilizou, volta a volta, esses dois personagens divinos sem se dar conta demasiado que seus papéis se confundiam: o que marca a incerteza do hermetista é o incidente « pois ele (o Logos) lhe era consubstancial (ao Noûs) ».

O segundo traço notável é o incidente (I, 11): «E essa rotação dos círculos, segundo o querer do Noûs (sc. do Noûs Primeiro), produziu animais sem razão»4 . Mais longe ainda: « A terra e a água tinham sido separadas, segundo o querer do Noûs » (ver também I, 18). Parece que se vê aqui como trabalha nosso hermetista. Ele tomou emprestada a maior parte dos elementos de sua cosmogonia das obras anteriores, onde a Criação está bem relacionada ao Deus Supremo (como em v.g. III). Para marcar seu desígnio de afastar Deus de toda participação à gênese do mundo, multiplica os intermediários, as hipóstases demiúrgicas. Mas, deixa passar alguns detalhes que traíram o caráter primitivo, na espécie otimista, da fonte que utilizou. De qualquer maneira esses detalhes não chocam, pois, com toda evidência, a separação da terra e da água e a produção dos animais são desses traços que o Criador do Gênese hebraico reconheceu como valde bona5 .

Observamos enfim que os sete círculos planetários são eles mesmos maus uma vez que sua matéria é feita de fogo; ora, o fogo saiu da Natureza úmida que é essencialmente má.


1 A citação é do Dilúvio: “Deus disse a Noé”, talvez quis indicar Gen 1,28 ou Gen 9,1; mais provável Gen 1,28.
2 Vide: Les animaux techniciens — Réflexions sur l’animal faber vu par les Anciens, Jean Bouffartigue, § 26, linha 15, In: Revue Rursus, 1 2006, Le modèle animal (I) — Actes du 38e Congrès International de l'APLAES : « L'animal, un modèle pour l'homme » dans les cultures grecque et latine de l'Antiquité et du Moyen-Age.
3 Quando os animais são bissexuados possuem os órgãos genitais masculinos e femininos: são os hermafroditas. As ostras são alternativamente machos e fêmeas. Quando existe ambiguidade entre os dois sexos, tem intersexualidade, como é o caso das lampreias, peixes e anfíbios.
4 Sextus coloca no mesmo plano as representações do homem e as daqueles animais "que se diz" sem razão (aloga zôia), considerando como próprio a um dogmatismo cego de orgulho o fato de se fiar somente na phantasiai dos homens e de considerá-los como os únicos zôia dotados de razão. In: pag. 196, Cristina Viano, Héraclite et les plaisir des animaux, In: L’animal dans l’Antiquité, Barbara Cassin, Jean-Louis Labarrière et Gilbert Romeyer Dherbey, Édition Vrin, « Bibliothèque d’Histoire de la Philosofia », 1997, 632 p., ISBN : 978-2-7116-1323-6. Texto disponível em books.google.com/
5 Possível referência para Gn 1,31-Vulgata: viditque Deus cuncta quæ fecit et erant valde bona et factum est vespere et mane dies sextus. Curiosamente esta citação também foi usada por James Joyce em Ulysses na quarta linha do último parágrafo da página 48 de “Annotations to James Joyce's Ulysses”.