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id da página: 11411 Michel Henry Primeiro Vivente Michel Henry

Michel Henry Primeiro Vivente



HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma Filosofia do Cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É realizações, 2015

Na medida em que a Vida é mais que o homem compreendido enquanto vivente, é da Vida, não do homem, que se deve partir. Da Vida, isto é, de Deus, enquanto, segundo o cristianismo, a essência da Vida e a de Deus são uma só e mesma essência.

Na medida em que, em Deus mesmo, a Vida precede o vivente, é, nele também, pela Vida, pelo processo eterno e imutável em que ela se faz Vida, que convém começar.

A relação da Vida com o vivente é o tema central do cristianismo. Tal relação se chama, do ponto de vista da vida, geração, e, do ponto de vista do vivente, nascimento. É a Vida que gera todo vivente concebível. Mas esta geração do vivente, a vida não a pode cumprir senão enquanto é capaz de se engendrar a si mesma. A Vida que é capaz de se engendrar a si mesma, aquela a que o cristianismo chama Deus, nós chamaremos a Vida absoluta, ou ainda, por razões que aparecerão mais adiante, a Vida fenomenológica absoluta. Enquanto a relação da Vida com o vivente opera no interior de Deus mesmo, ela se produz como geração do Primeiro Vivente no seio da autogeração da Vida. Enquanto tal relação concerne já não à relação de Deus consigo mesmo, mas à sua relação com o homem, ela se produz como geração do homem transcendental no seio da autogeração de Deus. Veremos como esta geração do homem transcendental no seio da autogeração de Deus implica a geração, nesta autogeração, do Primeiro Vivente.

O que é gerado na Vida enquanto Primeiro Vivente, o cristianismo o chama Filho primogênito, ou Filho único ou, segundo a tradição hebraica, Cristo ou Messias. O que é gerado na Vida enquanto homem, isto é, o próprio homem, ele o chama “Filho de Deus”. A Vida absoluta, enquanto se engendra a si mesma e enquanto, fazendo-o, engendra o Primeiro Vivente, o cristianismo a chama Pai.

A marcha da análise deve, pois, prosseguir como se segue:

l) A autogeração da Vida absoluta como geração do Primeiro Vivente – do “Filho primogênito e único” – que chamaremos, por razões que serão explicadas, o Arque-Filho transcendental.

2) A autogeração da Vida absoluta como geração do homem transcendental – ou seja, a geração do homem como “Filho de Deus”.

Nesses dois casos trata-se, com o cristianismo, de uma fenomenologia transcendental cujos conceitos centrais são o de Pai e o de Filho. O conceito cristão do nascimento transcendental subverte nossa ideia habitual de nascimento, assim como o conceito cristão de Pai e o de Filho transformam as representações correntes de “pai” e de “filho”. Essa é a razão por que introduzimos o conceito filosófico de “transcendental”, que não designa as coisas tal como as vemos – um nascimento, um pai, um filho –, mas remonta à sua possibilidade mais interior, à sua essência. Ora, a possibilidade de nascimento, de algo como um pai ou um filho, não se vê. E isso porque esta possibilidade reside precisamente na Vida, que também não se vê. E por isso que chamamos igualmente a esta Vida vida transcendental. A vida “transcendental” não é uma ficção inventada pela filosofia: ela designa a única vida que existe. Quanto à vida natural que cremos ver em torno de nós no mundo, não existe, não existe mais que a suposta vida “biológica”. Essa é a razão por que não há pai nem filho naturais no sentido de um pai ou de um filho pertencentes à “natureza” e explicáveis a partir dela. “A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois só tendes o Pai Celeste” (Mateus 23, 9). Mas estas já são teses radicais e desconcertantes do cristianismo: aquelas que se trata de compreender.