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id da página: 274 Hulin – PEPIC – A Generosidade do Absoluto: Spanda Michel Hulin

Hulin PEPIC Spanda


HULIN, M. Le principe de l’ego dans la pensée indienne classique: la notion d’ahamkara. Paris: Vrin., 1978

A Generosidade do Absoluto: Spanda

  • Enquadramento doutrinário do Trika e sua relação com o Advaita de Shankara

    • Caracterização do Xivaísmo da Caxemira (Trika) como um não-dualismo da consciência pura (samvid, bodha, cit), análogo ao Advaita shankariano.
    • Identificação de um método filosófico comum que procede dos fenômenos particulares rumo à autoiluminação (svayamprakashata) como princípio último da manifestação.
    • Delimitação do objeto de estudo às diferenças significativas que separam as duas escolas, evitando a confrontação direta de dogmáticas constituídas.
    • Proposta de investigação da originalidade do projeto filosófico e místico do Trika no nível da experiência, através da detecção de um sutil desvio experiencial.
  • Formulação da intuição fundadora do Trika acerca da instabilidade da consciência empírica

    • Interpretação da instabilidade, distração e imaginação desregrada não como puramente negativas ou fruto da ignorância (avidya), mas como testemunho de uma inquietação constitutiva da própria consciência absoluta.
    • Definição dessa inquietação como uma expansividade e efervescência espontânea através das quais a consciência escapa à inércia e se realiza como tal.
    • Derivação de quatro consequências diretas desta intuição:
      • A consciência é, em suas profundezas, despojamento criador, expectativa e apelo da manifestação cósmica.
      • A relação da consciência com a multiplicidade é, primordialmente, gozo (jouissance), representando sua possibilidade mais íntima, antes de ser alienação.
      • O infortúnio da existência finita decorre menos da apropriação de conteúdos estranhos (como o corpo) do que de um entorpecimento do dinamismo intrínseco da consciência.
      • A reconquista de si pela consciência passa menos por uma conversão do olhar para o interior do que por um sobressalto heroico que sacode sua letargia.
    • Articulação dos grandes temas do Trika – como o par Shiva-Shakti, a plenitude do eu (purnahanta), a processão das hipóstases e a valorização da experiência perceptiva – como exploração desta intuição originária e suas consequências.
  • Exame da atividade pensante e da unificação do diverso na consciência

    • Estabelecimento da necessidade de um sujeito pensante fixo como testemunha das múltiplas ideias, concordando inicialmente com a crítica Advaita ao Vijñanavada budista.
    • Citação do argumento: "Afirma-se que os objetos devem residir na consciência pura para serem distinguidos (uns dos outros)... então (somente) eles dão origem ao conhecimento".
    • Identificação, no Trika, da busca pela unidade de uma atividade de relacionamento, e não apenas de um suporte permanente para as vivências.
    • Ênfase na propriedade da consciência de conferir unidade ao diverso que nela se reflete.
    • Citação de Abhinavagupta: "Os próprios animais - observa Abhinavagupta - sabem, por experiência própria, que a água e o fogo, quando alcançam a unidade ao repousarem na consciência pura, não são mais opostos.".
    • Distinção crucial entre a abordagem do Advaita, que reduz o diverso a uma essência única de consciência (como combustíveis consumidos por um fogo único), e a do Trika, que sustenta o diverso em sua particularidade.
    • Definição da posição do Trika: a consciência pura suporta o diverso enquanto diverso e necessita parecer negar-se e dispersar-se nele para existir como consciência.
  • Distinção capital entre prakasha (luminosidade) e vimarsha (reapreensão ao infinito) como ruptura com o Advaita

    • Proclamação da karika de Utpaladeva: "A essência da manifestação é a reapreensão infinita. Caso contrário, a simples luminosidade (da consciência), embora afetada por objetos, permaneceria não pensante, como o cristal, etc..".
    • Caracterização do vimarsha como o elemento vital que distingue a consciência pura de um objeto inerte como o cristal.
    • Análise dos comentários de Abhinavagupta (IPV e IPVV) para elucidar a natureza do vimarsha através de uma via negativa.
    • Refutação de possíveis interpretações inadequadas do vimarsha como:
      • Relação com um Outro (como a relação da ânfora com a argila).
      • Produção por um Outro (como um momento da ânfora produzido por outro).
      • Pertencimento a uma constelação única de fatores (como forma-cor e sabor unidos no objeto).
      • Tensão para um Outro (como o ímã voltado para o ferro).
    • Identificação do problema central: a manifestação (prakasha) como puro contato exterior é cega e pressupõe uma regressão infinita para ser iluminada.
  • Definição positiva do vimarsha como liberdade, vida da consciência e dimensão de fuga essencial

    • Caracterização do vimarsha como a própria vida da consciência, cuja essência é a liberdade (svatantrya) na interiorização e exteriorização de objetos.
    • Descrição do vimarsha como uma dimensão de fuga e ausência essencial que impede a consciência de coincidir com seu conteúdo presente.
    • Definição desta distanciação como condição para a autorrecuperação da consciência e do objeto.
    • Identificação do vimarsha com a liberdade que preserva a essência da consciência, impedindo sua identificação com qualquer dado e sua queda na objetividade.
    • Explicação desta "profundidade de campo infinita" como solução para a regressão ao infinito, mantendo a consciência aberta e disponível.
    • Fundamentação da tradução de "vimarsha" como "reapreensão ao infinito", evitando associá-lo a um ato expresso de reflexão ou a uma propriedade passiva.
    • Definição do vimarsha como uma êxtase criadora atemporal através da qual a consciência se posiciona em sua autonomia e plenitude absolutas.
  • Esclarecimento do vimarsha através de esquemas imagéticos de ecoamento e oscilação

    • Reconhecimento da dificuldade de acesso à noção de vimarsha devido à associação habitual entre movimento e imperfeição.
    • Apresentação de duas categorias principais de imagens para evocar um movimento "puro", livre das servidões do movimento grosseiro (sthula).
    • Descrição dos "esquemas de ecoamento", que visam banir a ideia de progressão laboriosa:
      • Udyama ou udyoga ("ímpeto", "embate"), como a fase inicial de um jato d'água.
      • Ullasa, que conota a leveza de quem salta de alegria.
      • Ucchunata ("tumescência"), que precede o desabrochar.
      • Samrambha ("mobilização interior" ou "prontidão para o combate").
      • Aunmukhya ("o ato de levantar o rosto"), definido como uma expectativa confiante e feliz, onde querer e realizar são idênticos.
    • Citação da Shivadrishti: "Uma onda calma é (de repente) fortemente agitada... a eclosão desse desejo é chamada de "revolta"..
    • Descrição da segunda família de imagens, que esquematiza o movimento como "oscilação no lugar":
      • Ksobha ("agitação", "efervescência").
      • Ghurni ("turbilhonamento").
      • Sphurana ("cintilação").
      • Spanda ("vibração"), termo de uso tão frequente que o Trika é chamado de Spandashastra.
    • Explicação da imagem da vibração como uma oscilação tão rápida que é percebida qualitativamente, permitindo uma passagem ao limite conceitual entre movimento e repouso, consciência de objeto e consciência de si.
  • Caracterização do spanda como pulsação invisível que anima o universo e como Palavra Suprema

    • Citação do Tantraloka: "Por ter a natureza de uma recaptura infinita, essa (consciência) é dotada de sua própria ressonância... os Tratados a chamam de vibração universal.".
    • Definição do spanda como efervescência (ghurni) interna, um movimento autorreferente que é a essência do universo.
    • Estabelecimento da relação de fundação: o mundo não pensante tem a consciência pura como essência, e esta tem o Grande Coração (Mahahridaya) como essência.
    • Contraste entre o objetivo do Yoga clássico – cessação das flutuações mentais (cittavrttinirodhah) – e a visão do Trika, que considera a alternância de movimento e repouso inerente à consciência.
    • Esclarecimento de que a "alternância" é uma aproximação grosseira da vibração infinitamente rápida do spanda, que ocorre em um instante que não passa.
    • Comparação do spanda a uma inspiração criadora, possessão implícita ou compreensão intuitiva do diverso que precede, coexiste e sucede sua manifestação exterior.
    • Descrição do spanda como ressonância ou "Palavra Suprema" (para vak), análoga à unidade de sentido indivisa de um discurso ainda não proferido.
  • Demonstração da afloração do vimarsha em comportamentos conscientes através de exemplos fenomenológicos

    • Citação da karika I 5 19 de Utpaladeva: "Même à l’instant de la présence immédiate (de l’objet), il y a ressaisissement. Sinon, comment les actions de courir, etc. pourraient-elles, sans un processus de mise en relation, s’accomplir?".
    • Análise do primeiro exemplo: a aprendizagem da convenção linguística pela criança.
      • Descrição do processo: a criança ouve comandos ("traz a ânfora", "remove a ânfora") e observa a presença e ausência do objeto.
      • Destaque do problema: como a intuição "tal coisa é o objeto de tal palavra" pode surgir a partir de percepções indeterminadas (nirvikalpaka).
      • Refutação da visão budista que considera a passagem ao estágio determinado (savikalpaka) como meramente pragmática e projetiva (kalpana).
      • Demonstração de que a possibilidade da aprendizagem requer uma distinção e retenção prévias entre as percepções iniciais.
      • Identificação desta "proto-linguagem" ou efervescência de conteúdos mentais, que esboça um sistema de oposições e afinidades, com o vimarsha.
    • Análise do segundo exemplo: ações precipitadas que, no entanto, logram êxito (correr, recitar rapidamente).
      • Decomposição analítica de uma ação como correr em microdecisões elementares (consciência de um local, desejo de pisar, etc.).
      • Demonstração da impossibilidade prática de um comportamento reflexivo e analítico em tais circunstâncias.
      • Conclusão de que o sucesso da ação se deve a uma intuição unitária e acabada – o vimarsha – que guia teleologicamente o sujeito em seu projeto global.
      • Comparação do vimarsha a um círculo em relação aos polígonos regulares que tentam aproximar sua curvatura: é uma unidade sintética anterior e irredutível à sua decomposição analítica.
  • Consequências da doutrina para a relação entre conhecimento e ação, e a fundamentação comum na liberdade

    • Rejeição de toda oposição rígida entre conhecer e agir, considerando o conhecimento contemplativo e a ação como modificação do objeto como abstrações.
      • Tudo o que não é animado interiormente pela reapreensão ao infinito (vimarsha) recai no plano da objetividade e existe apenas para um outro.
    • Afirmação positiva de que as principais funções da consciência – análise, síntese, memória, identificação, diferenciação, decisão voluntária – se pressupõem mutuamente.
    • Fundamentação dessas funções na liberdade (svatantrya), compreendida como revelação interior permanente, intuição criadora e linguagem anterior à linguagem.
  • Elevação do vimarsha ao nível do absoluto e resposta à objeção de extrapolação teológica

    • Identificação do vimarsha, sob os nomes de Grande Coração (Mahahridaya), Palavra Suprema (para vak) e Eu absoluto (purnaham), como um aspecto do próprio absoluto.
    • Formulação da objeção ocidental: suspeita de uma extrapolação ilegítima que projetaria em Shiva o dinamismo e a inquietude próprios da finitude humana.
    • Resposta à objeção: a liberdade do vimarsha não é uma liberdade "de" (liberdade de), mas uma autarcia (autarkeia) ontológica e um poder absoluto de criação (liberdade para).
    • Definição desta liberdade como uma autopromoção no ser, e não como uma capacidade subjetiva de distanciamento que deixaria intacta a realidade exterior.
    • Afirmação de que, na experiência mais trivial, é já o próprio Shiva que fulgura em sua autonomia absoluta.
    • Redefinição do problema filosófico do Trika: compreender como esta liberdade realiza o tour de force supremo de paralizar-se e obscurecer-se a si mesma para produzir o homem ordinário, que se apreende como limitado.
  • Aplicação da doutrina à temporalidade: a presença do eterno presente no sujeito finito

    • Reconhecimento da temporalidade como negação aparente da posse e concentração plena de si no instante, definidoras do vimarsha.
    • Proposta do Trika: demonstrar que esta temporalidade está enraizada em um eterno presente onde o próprio sujeito finito está instalado.
    • Citação do texto que refuta a ideia de nascimento absoluto do sujeito: "Dizer: "Na época do Avatar Rama, eu não existia" é afirmar a própria experiência direta daquela época.".
    • Explicação do raciocínio: o juízo "não existia antes" pressupõe a lembrança de um passado, que por sua vez pressupõe a experiência direta daquele tempo pelo sujeito.
    • Refutação da objeção baseada na identificação do Eu com uma forma vazia ou com uma individualidade objetiva (corpo, feixe de hábitos).
    • Definição do verdadeiro ahamkara (egoidade) como o ato de posicionar-se a si mesmo como sujeito, anterior à individualidade empírica e fundante dela.
    • Conclusão da unicidade e universalidade concreta do Eu (aham): "em verdade absoluta, único" é o sujeito conhecedor que se reconhece eternamente como Eu.
  • Distinção entre o Eu puro (aham) intemporal e o ego empírico (apurna aham) temporal

    • Descrição da sucessão temporal como fundada na diversidade e na alternância de existência e inexistência dos fenômenos elementares (abhasa).
    • Caracterização do sujeito condicionado pelo corpo, buddhi, etc., como não contínuo em sua manifestação e, em seu fundamento, inconsciente como a cor azul.
    • Definição da manifestação do sujeito limitado como um cintilar da luz da consciência, interrompido no sono profundo ou no desmaio.
    • Explicação de como este sujeito, investido de uma consciência incompleta de seu Eu, faz aparecer a sucessão temporal nas coisas exteriores.
    • Contraste com o sujeito "manifestado de uma vez por todas" (Conhecedor feito de consciência), no qual o tempo não flui e os objetos não comportam sucessão.
    • Ênfase na originalidade do Trika: o Eu limitado é a forma "incompleta" (apurna) do Eu absoluto, e não uma forma fictícia superposta.
  • Positividade da temporalização: Kali como a potência suprema do tempo e a vida como reconquista

    • Citação do Tantraloka: "Composto de sucessão e simultaneidade, o tempo reside inteiramente na consciência pura. O poder supremo de Deus é chamado de Kālī ("o Temporal").".
    • Descrição do processo criativo:
      • A consciência pura, após expulsar o cognoscível, apresenta-se como Vazio (Shunyabhava).
      • Este sujeito "esvaziado", movido pelo desejo de reencontrar o cognoscível, precipita-se sobre ele em estado de efervescência, sendo então chamado de sopro vital (prana), palpitação, ímpeto vital.
    • Interpretação da vida cósmica e orgânica como o momento de reapropriação dos objetos pela consciência, após sua expulsão inicial.
    • Justificação filosófica, e não etimológica, da associação de Kāli ("A Negra") com kāla ("tempo"), representando a temporalização como a vida do absoluto.
    • Equiparação do casal Shiva-Kāli ao casal prakasha-vimarsha em nível cósmico.
    • Definição do tempo, neste nível, não como sucessão indefinida, mas como pura imanência, simbolizada pelo enlaçamento divino e pelos jogos amorosos.
  • Doutrina da Shakti (Potência) no Trika e sua relação com a não-dualidade

    • Afirmação da não independência ontológica da shakti em relação ao seu "possuidor" (Shiva), salvaguardando o princípio da não-dualidade.
    • Definição da potência como a própria coisa "em ato", considerada sob um aspecto particular.
    • Citação da IPVV: "A realidade de uma coisa - como aponta o IPVV - é sua manifestação. Isso será chamado de "poder" (se o considerarmos) em seu aspecto de mobilização interna...".
    • Menção às classificações usuais das shaktis, como a pentade (consciência, beatitude, vontade/desejo, conhecimento, ação) ou a tríade (desejo, conhecimento, ação).
    • Reconhecimento da infinitude das potências de Shiva, uma vez que nenhuma coisa escapa ao seu controle.
    • Unificação de todas as potências na única potência de liberdade (svatantryashakti).
    • Citação: "Nele, os atributos de onipresença, etc., não se distinguem uns dos outros... Ele possui, de fato, apenas um atributo que resume todos os outros... o único poder da liberdade...".
    • Comparação da distinção entre potência e possuidor à distinção arbitrária entre as capacidades de queimar e cozer no fogo, afirmando a indivisibilidade última de Shiva.