Extrato do capítulo: Da Sabedoria Santa no Verbo de Enoque (Idris)
Muhyi-d-din Ibn ’Arabi. La Sagesse des Prophètes. Tr. Titus Burckhardt. Paris: Albin Michel, 1974
... Um dos Nomes de perfeição de Deus é o Elevado (al-’ali). Mas em relação a quê Ele é elevado, já que não há lá senão Ele sozinho? [As existências relativas não podendo ser tomadas como termo de comparação com o Ser supremo.] Ele é essencialmente o Elevado ou o é em relação a algo? Ora, tudo não é senão Ele. Ele é portanto elevado em Si Mesmo. Por outro lado, já que Ele é o Ser de tudo o que existe, as existências efêmeras são, elas também, elevadas em sua essência, pois são essencialmente idênticas a Ele.
Deus é O Elevado sem relatividade; pois as essências [dos seres] (al-a’yan) que não são [em si mesmas] senão não-existência (’adam), e que são imutáveis neste estado, não sentiram sequer o odor da existência (al-wujud); elas permanecem como eram, apesar da multiplicidade das formas nas realidades manifestas. Quanto à determinação essencial (al’-ayn) do Ser, ela é única entre todas e em todas. A multiplicidade não existe senão nos Nomes, que não são senão relações e realidades não-existentes (umurun ’adamiyah). Há apenas a determinação única da Essência, que Ela é O Elevado em Si Mesmo, sem relação com o que quer que seja. E sob este aspecto não há elevação relativa; mas, já que os aspectos do Ser comportam uma hierarquia entre eles, a elevação relativa se encontra implicada na determinação única [do Ser] em virtude de seus múltiplos aspectos. Por esta razão se diz do relativo que ele é Ele [isto é, Deus] e que ele não é Ele, e que tu és tu e não tu.
Abu Sa’id al-Kharrâz, que é ele mesmo um dos múltiplos aspectos de Deus e uma de Suas línguas, diz que Deus não pode ser conhecido senão pela síntese de afirmações antinômicas; pois Ele é o Primeiro e o Último, o Exterior e o Interior; Ele é a essência do que se manifesta e a essência do que permanece oculto no momento de Sua manifestação. Não há ninguém além dEle que possa Vê-Lo, e ninguém de quem Ele possa Se esconder; é Ele que Se manifesta a Si Mesmo, e é Ele que Se esconde de Si Mesmo. É Ele que Se chama Abu Sa’id al-Kharrâz e por outros nomes de seres efêmeros. O Interior diz “não”, quando o Exterior diz “Eu”; e o Exterior diz “não”, quando o Interior diz “Eu”. O mesmo se aplica a toda antinomia; no entanto, há apenas um que fala, e Ele é Ele Mesmo Seu ouvinte.
Assim, as realidades se misturam: a unidade produz os números segundo sua série conhecida; e os números por sua vez subdividem a unidade. O número não é manifestado sem o que é contado; e o que está sujeito ao número comporta por um lado a não-existência e por outro a existência; pois uma coisa pode estar ausente no plano sensível e existente de uma maneira inteligível. Há necessariamente polaridade do número e do que está sujeito ao número; e há necessariamente uma produção dos números a partir da unidade, embora cada número represente uma ideia única. Cada número, de fato, aquém da dezena, bem como além, até o indefinido, é em si mesmo único; sua realidade essencial (haqiqah) não é concebível quantitativamente, pela adição das unidades; o binário, por exemplo, é uma ideia única, assim como o ternário, e assim toda a série indefinida dos números; ora, se cada número representa uma verdade única, nenhum deles pode essencialmente compreender os outros, mas a adição os apreende todos por sua ordem e os afirma todos em virtude desta ordem, que comporta vinte graus [as unidades e as dezenas] que se combinam. Assim, não se cessa de afirmar aquilo mesmo que se nega a priori isto é, se afirma continuamente a composição sucessiva da série dos números partindo da ideia única e indivisível que cada número comporta. Aquele que compreende o que se disse dos números, e que sua negação é ao mesmo tempo sua afirmação, sabe que Deus, que é transcendente no sentido do tanzih, é [também] criatura “comparável” no sentido do tashbih, — embora a criatura seja distinta do Criador.
A Realidade é Criador criado; — ou bem, a Realidade é criatura criadora. Tudo isso não é senão a expressão de uma única essência; — não, é ao mesmo tempo a essência (al-’ayn) única e as essências (al-a’yân) múltiplas. — Considere então o que se vê!
[Isaque disse a seu pai Abraão que se preparava para sacrificá-lo:] “Ó meu pai, faz o que te foi ordenado.” Ora, a criança é simbolicamente a essência de seu gerador. Quando Abraão viu em um sonho [inspirado] que ele imolava seu filho, ele se viu na realidade sacrificando a si mesmo. E quando ele resgatou seu filho pela imolação do carneiro, ele viu a realidade que havia se manifestado sob a forma humana, se manifestar sob o aspecto do carneiro. É assim então que a essência do gerador se manifestou sob a forma da criança, ou mais exatamente sob a relação da criança.
“[É Ele que os criou de uma só alma,] e que dela criou sua companheira...” Em outras palavras, Adão desposou sua própria alma; dele são oriundos sua companheira e seu filho. É assim que a Ordem [divina] é única no múltiplo.
O mesmo se aplica à Natureza (at-tabi'ah) e ao que dela procede. Jamais a Natureza diminui por causa de suas produções nem aumenta por sua reabsorção. O que ela produz não é outra coisa senão ela mesma, embora ela não seja, como tal, idêntica a suas produções com formas variadas. Esta, por exemplo, é fria e seca, aquela quente e seca; elas são portanto homogêneas pela secura, mas distintas por uma outra qualidade. É a qualidade comum que é a Natureza, — ou antes: a determinação primordial [de todas estas qualidades]. O mundo da Natureza consiste em formas [variadas se refletindo] em um espelho único; — ou melhor: é uma só forma [se refletindo] em espelhos diversos.
É assim que há apenas perplexidade (hayrah) devido às perspectivas contraditórias. Mas aquele que compreende o que foi dito não cai na perplexidade, mesmo quando passa de um estado de conhecimento para outro; pois a mudança de perspectiva não provém senão da condição inerente ao “lugar” [mahall, significando a parada espiritual, o estado receptivo interior]; e o “lugar” [neste sentido] não é senão uma determinação imediata da essência (al-’ayn ath-thabitah) [do ser que contempla Deus]. É em virtude desta [isto é, em virtude desta determinação] que Deus Se diferencia no “teatro” de Sua revelação, de modo que assume por sua vez condições diversas; o que O determina [aparentemente] não é senão a determinação essencial na qual Ele Se revela. Não existe nada mais. Sob tal aspecto, Deus é criatura — então, interprete! — E Ele não é criatura sob tal outro aspecto — então, lembre-se!
Quanto ao Elevado em Si Mesmo, Ele é aquele que possui a perfeição (ou a infinidade: al-kamal) na qual se “afogam” todas as realidades existenciais, assim como todas as relações não-existentes [em si mesmas], no sentido de que nenhum destes “atributos” Lhe falta, quer o atributo seja positivo, lógica ou moralmente, ou que ele seja negativo, segundo o costume, a razão ou a moral. Ora, esta infinidade pertence exclusivamente Àquele que o nome Allah designa [que é o nome da Essência]; quanto ao que é designado por um outro nome, é, ou um de Seus “lugares de revelação” (majla), ou uma “forma” que Lhe é inerente; se é um “lugar de revelação”, ele comporta um grau hierárquico, pelo mesmo motivo que há distinção entre aquele que se revela e aquilo em que ele se revela; por outro lado, se se trata de uma “forma” [no sentido de uma síntese de Qualidades, contida] em Deus, esta “forma” será a expressão imediata do Infinito, já que ela é essencialmente idêntica ao que se revela nela. Tudo o que pertence a Allah, pertence portanto igualmente a esta “forma” [qualitativa]. No entanto, não se diz desta forma que ela é Ele; mas também não se diz que ela é outra coisa senão Ele.
É a isso que o imã Abu-l-Qasim ibn Fasi fez alusão em seu livro de “a Remoção das Sandálias” [de Moisés diante da sarça ardente] dizendo: “Em verdade, cada Nome divino é qualificado por todos os Nomes divinos.” É bem assim; cada Nome, de fato, afirma as essências ao mesmo tempo que a Essência, seguindo sua significação: na medida em que ele demonstra a Essência, todos os outros Nomes estão implicados nele, e na medida em que ele afirma uma significação particular, ele se distingue dos outros, como “O Criador” se distingue de “Aquele que dá a forma” e assim por diante. O Nome é, portanto, por um lado, essencialmente idêntico ao Nomeado e, por outro, distinto dEle por sua significação particular.